Mercado de Inverno

“Mercado de Inverno” de Philip Kerr

Remate ao ângulo ou penálti falhado?

É incontornável associar o nome do escocês Philip Kerr ao universo de Bernie Gunther, um dos personagens mais brilhantes (e negros) dos romances modernos ditos policiais.

Títulos como “As Violetas de Março” e “O Requiem Alemão”, ou o mais recentes “O Projeto Janus” ou “Se os Mortos não Ressuscitam”, revelam atmosferas densas, investigações particularmente brilhantes e um conjunto de tiques que evidenciam uma qualidade narrativa herdada de nomes como Dashiell Hammet ou Raymond Chandler.

No seu mais recente romance, o autor natural de Edimburgo leva-nos até ao epicentro de um dos mais espetaculares campeonatos de futebol do mundo: a inglesa Premier League. Em “Mercado de Inverno” (Porto Editora, 2015), somos assim transportados para dentro das quatro linhas e temos na figura de Scott Manson, ex-jogador de futebol e agora treinador adjunto do London City, o improvisado detetive de serviço.

Ao invés da grande maioria dos profissionais de futebol, Manson tem formação superior, é poliglota e muito bem-visto pelos seus pupilos assim como pelo sempre polémico João Zarco, o mister de origem portuguesa e que dirige todo o futebol do clube pertença do milionário ucraniano Viktor Sokolnikov, cuja fortuna parece ter nascido de uma série de negociatas pouco legais por alturas da dissolução da União Soviética.

As paixões que movem o mundo do futebol leva a sentimentos exacerbados mas desta vez os limites são apenas uma linha a quebrar e, para espanto de alguns, João Zarco é encontrado morto no interior do estádio do London City. Por muitas razões, não sendo a polícia muito bem-vinda nas instalações do clube londrino, será Manson quem ficará encarregado de encontrar o assassino.

O que terá acontecido antes do jogo entre o London City e o West Ham e que coincidiu com o desaparecimento de Zarco? Quem teria interesse em matar o português, um homem que personalizava o futebol moderno, sempre impecavelmente vestido e de rosto fechado, fera dominante do balneário e conhecido pelas suas conferências de imprensa inflamadas, destroçando todos os que se intrometem entre a sua equipa e o sucesso?

Estas, e outras questões, colocam Zarco como uma apetecível vítima dentro do viperino mundo do futebol e resta a Manson resolver este quebra-cabeças, numa corrida desenfreada contra a própria polícia e assim vingar-se também ele de uma injustiça passada face às autoridades.

Para nos guiar neste thriller, Kerr treinou os seus conhecimentos sobre futebol, afinou a pontaria de remate dos acontecimentos que marcaram o chamado desporto-rei por terras britânicas nas últimas décadas, e acaba por conseguir um resultado que deixa tudo em aberto para uma qualquer desforra com Scott Manson como protagonista.

Com uma narrativa fluida e por vezes carregada de uma saudável ironia – que até permite fazer uma alusão a um ghost writer de “segunda” chamado Phil… Kerr – “Mercado de Inverno” é um policial competente mas está muito longe do ambiente de Bernie Gunther, algo que poderá colocar algumas dúvidas na qualidade final deste romance.

Não queremos com isto dizer que não se trate de um livro agradável, mas está longe da mestria de outros títulos do autor que parece ter concentrado mais atenção no acrescentar de conteúdos relacionados com a própria história do futebol do que em fazer uma trama mais ambiciosa.

Resta-nos esperar que, num próximo jogo do London City, Manson e seus pupilos revelam outra capacidade tática e que o resultado final não seja tanto uma vitória à tangente contra uma equipa de um escalão inferior mas sim uma goleada das antigas.



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