Merzbau

Mais uma Netlabel apanhada na rede. Será que vale a pena?

Quando, durante o ano de 2004, a Test Tube passou pelas páginas electrónicas da rua de baixo, ficou logo bastante claro que estes projectos iriam tornar-se numa das mais viáveis formas de divulgação musical do futuro. As vantagens são claras para o consumidor.

A primeira é obviamente o preço, que neste caso é inexistente. O segundo grande factor é a forma como é feita a distribuição, através da internet e acessível a partir de qualquer computador e em qualquer local do planeta. A última grande vantagem é a enorme diversidade e leque de opções que as netlabels apresentam, que na grande maioria dos casos, têm uma qualidade bastante aceitável.

Obviamente que para as bandas e projectos que não conseguem encontrar uma editora que produza e distribua os seus discos, a existência das netlabels é, em muitos dos casos, a única forma de colocarem a sua música disponível para todo o mundo, abrindo portas que de outra forma iriam estar sempre fechadas.

A Merzbau já existe desde 2000 como webzine, mas este ano optou por seguir um percurso diferente e adoptou o formato de netlabel. A primeira edição surgiu no final do mês de Fevereiro com o EP de estreia dos Jesus, the misunderstood, “Loving in July, Dying in August”, um conjunto de canções simples, mas bastante interessantes.

Para conhecer melhor este projecto, trocámos algumas ideias com Tiago Sousa, o principal mentor da Merzbau.

RDB: Como começou a Merzbau?

TS: A merzbau iniciou-se em meados de 2000 como uma webzine, mais tarde decidi abandonar esse formato para começar a por mãos à obra e apoiar as bandas de uma forma mais prática. Em 2004 acontece o primeiro festival Merzrocks e este ano criámos a netlabel.

RDB: O projecto é só teu?

TS: O projecto no seu cerne é meu, no entanto, como é óbvio, para levar a cabo as iniciativas preciso sempre de contar com o apoio de outras pessoas.

RDB: Porque decidiste criar uma net label?

TS: Desde o momento que decidi que o caminho era apoiar mais de perto as bandas que me tenho questionado sobre quais as melhores maneiras de o fazer. Nos últimos meses vim a ter contacto com esta realidade das netlabels e quando um amigo veio ter comigo mostrando o projecto Arnold Layne pensei, porque não avançar com a label da merzbau. Daí a conseguir os outros dois projectos foi um pulinho. Aquilo que mais me cativa nesta ideia é a possibilidade de fazer passar música de uma forma não tão habitual e sem os entraves que o dinheiro coloca. Não temos que nos preocupar minimamente com a viabilidade dos projectos a nível financeiro, preocupo-me apenas com a sua integridade artística.

RDB: Como te surgiram os projectos?

TS: Arnold Layne foi-me apresentado por esse tal amigo de seu nome Luís Florêncio que está a apoiar-me nesta caminhada em busca de futuros nomes; Jesus, the misunderstood é a banda de outro amigo e os Goodbye Toulouse são a minha banda. Tudo em família portanto…

RDB: Achas que as netlabels são as editoras do futuro?

TS: Não sei se serão as editoras do futuro. De facto o mp3 parece estar a ganhar terreno relativamente ao cd. Começa a comercializar-se cada vez mais e muito provavelmente esse será o futuro. Mas desconfio que irão sempre existir edições em cd, tal como ainda hoje resistem as edições em Vinil para um pequeno nicho de mercado. Preocupa-me o lado descontextualizado que um mp3 pode ter. A mim enquanto artista e ouvinte agrada-me muito mais a ideia da construção de um álbum enquanto uma obra global e não apenas uma canção. Mas esta possibilidade de vender apenas a música de sucesso assenta que nem uma luva na indústria mainstream.

RDB: Já pensaste em editar em cd aquilo que vai sendo editado na net?

TS: Penso que não faria muito sentido mais tarde editar aquilo que estamos a disponibilizar gratuitamente. Falamos entre conversas na possibilidade de virmos a editar álbuns em cd, mas ainda é algo muito remoto. Aquilo em que estamos mesmo interessados neste momento é em conseguir levar estes novos nomes ao conhecimento do maior número de pessoas possível. Queremos oferecer-lhes música que consideramos de valor, pelo simples gozo de poder partilhar estas criações, e por isso estamos a pensar seriamente numa forma de conseguirmos chegar a pessoas além do universo da net, através da distribuição de cd-r’s, em breve teremos noticias mais concretas relativamente a isto.

RDB: Mas achas que existe mercado em Portugal para essa comercialização?

TS:
Temos que perceber a realidade da música em Portugal. Os artistas de “sucesso” mal conseguem vender o suficiente para viverem só da música, o espaço resignado a artistas mais alternativos é ridículo. Muitas vezes as bandas que estão a começar nem conseguem fazer chegar as suas edições ao público de uma forma realmente eficaz e acabam por meter dinheiro ao bolso outros personagens que nada têm a ver com música. Não é fácil mas não estamos aqui para nos queixar, estamos aqui para actuar perante as adversidades.

RDB: Quais os projectos para o futuro e próximos lançamentos?

TS: Neste momento ainda não há nada a adiantar, no entanto com estes lançamentos alguns outros amigos que também têm bandas parecem ter-se entusiasmado. Espero sinceramente em breve poder ter mais notícias sobre novas edições.

RDB: Achas que é indispensável existirem apoios e patrocínios para as netlabels serem viáveis?

TS:
Bem, isso depende do objectivo que estiver em causa. Se o objectivo for tornar a netlabel viável a nível financeiro penso que a solução poderia passar pela existência de apoios e patrocínios ou então indo mais longe e vendendo os mp3 como é o caso daquilo que a Apple está a fazer. No que diz respeito à merzbau, o nosso intuito neste momento é mesmo o da partilha de música, pelo que a primeira hipótese iria mais de encontro a essa ideia. No entanto até agora não gastámos um único tostão para gravar os EP’s, o alojamento do site é gratuito, o alojamento dos mp3 no archive.org também é gratuito, acho que não faz grande sentido cobrar pelo download dos mp3. Estamos apostados na ideia de que poderá ser saudável para a arte musical se de vez em quando também pudermos descurar o lado financeiro, o lado “indústria”, e apostarmos um pouco mais na livre transacção da nossa arte. É excitante pensar que podemos contrariar toda esta lógica de consumo que nos cerca em todas as áreas fazendo uso da própria sociedade capitalista para transaccionar de forma livre ideias, conceitos, objectos artísticos.

O dinheiro quebra muito o ritmo alucinante da criação. A label da merzbau existe precisamente para deixar para trás quaisquer contratempos e mostrar o agora, o imediato. A ideia que tivemos “ontem” e que faz sentido dizê-la “hoje”, não daqui a “uma semana”….



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