“Metamorfose à Beira do Céu” | Mathias Malzieu

“Metamorfose à Beira do Céu” | Mathias Malzieu

O Príncipe das Fábulas Negras

Este ano, na corrida desenfreada às estatuetas douradas, encontra-se “Amour”, filme do realizador alemão Michael Haneke, que mostra o quotidiano de um casal de idosos e a relação de proximidade que se instala entre o amor e a morte. Em “Metamorfose à Beira do Céu”, livro saído da imaginação de Mathias Malzieu (autor de “A Mecânica do Coração, edição Contraponto), andamos muito perto do paralelismo entre estas duas emoções antagónicas mas, no lugar de fotogramas e grandes planos, há uma prosa poética construída com a matéria dos sonhos.

«Quanto mais caía, mais popular me tornava», conta-nos o jovem Tom “Hematoma” Cloudman nas primeiras páginas. O seu maior sonho é voar, tendo construído uma carreira de acrobata itinerante viajando a bordo de um caixão com rodas, autocolantes dos Pixies e nuvens mal pintadas. Considerado por muitos como o pior acrobata do mundo, Tom especializou-se em números de grande risco, actuando sempre sem rede entre saltos e piruetas, que vão transformando o seu corpo num depósito de nódoas negras e peças danificadas. Até ao dia em que lhe é diagnosticada uma doença incurável, vendo a liberdade da rua ser substituída pela prisão de um quarto de hospital.

Porém, nem mesmo o hospital consegue afastar o seu sonho de voar. Quando a noite cai e o silêncio se instala, Tom percorre os corredores roubando as penas das almofadas dos doentes, construindo as asas que farão de si um pássaro humano. Será numa dessas deambulações que vai conhecer uma fascinante criatura, metade mulher e metade ave, que lhe propõe um pacto: «Posso transformar-te em pássaro e curar-te da tua doença, mas terás de assumir as consequências desta metamorfose.»

Em pouco mais de 120 páginas, Mathias Malzieu propõe-nos uma reflexão sobre a vida e o amor, e de como a morte poderá ser, de certa forma, o cumprir de um sonho. Se “A Mecânica do Coração” tinha servido como prenúncio, “Metamorfose à Beira do Céu» está aí para o comprovar: Malzieu é o príncipe francês das fábulas negras.



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