Michael Ferrier

Michael Ferrier

«A comparação entre Fukushima e Hiroshima é delicada mas parece-me necessária.»

Michaël Ferrier passou por Portugal em Setembro último para apresentar “Fukushima – Crónica de um Desastre”, livro que faz uma descrição pungente de uma terrível catástrofe natural e dos seus efeitos, bem como uma reflexão sobre a opacidade e a imprevisibilidade que envolvem a questão da energia nuclear. A Rua de Baixo aproveitou a ocasião para lhe colocar algumas questões, numa conversa que mantém toda a actualidade.

Michael Ferrier

Durante a obra está patente a ideia de que várias obras literárias, sobre catástrofes precedentes, moldaram a sua decisão de documentar aquilo que o Japão viveu em 2011. Existe uma perda de relevância de tais obras bem ponderadas em detrimento da “notícia ao minuto” e da especulação mediática?

Utilizei efectivamente um número considerável de obras literárias para dar conta da situação em que estávamos a viver (e que continuamos a viver hoje em dia, pois Fukushima continua): os autores japoneses antigos e modernos, os franceses, os romancistas, os poétas, os filósofos, os ensaístas. Não fiz esta escolha para “ficar bonito” ou para dar um toque estético ao quadro do desastre. Mas parti do princípio que cada um destes escritores, ao menos enquanto ditos “especialistas” que apareceram em todos os media, tivessem qualquer para nos ensinar sobre a catástofre de Fukushima. Não creio, para responder à vossa questão, que esses livros percam o apelo das massas, por causa da cobertura mediática frenética (estes dois adjectivos, “mediático” e frenético”, têm infelizmente tendência a tornar-se sinónimos perante as grandes catástrofes). Somos antes nós, leitores e eleitores, cidadãos, que perdemos qualquer coisa por não ouvirmos essas vozes, que podem ser ponderadas mas são sobretudo claras, precisas e lúcidas, ajudando-nos a avaliar as situações e a responder-lhes. Quando lemos, por exemplo, o grande poema de Voltaire sobre o terramoto de Lisboa, ficamos com uma ideia bastante precisa, apesar dos séculos que hoje nos separam desse texto, da confusão que pode tocar a um país inteiro perante um sismo, mas também os riscos sociais e filosóficos que lhe estão ligados. Da mesma maneira, ler o “Dit des Heike”, essa obra-prima da literatura medieval japonesa, ou os “Annales des trois règnes”, uma das grandes crónicas oficiais da história do Japão compilada em 901, permitiram-me prever praticamente os discursos suaves ou alarmantes das autoridades – tanto que a sua descrição das reacções do poder são, em tempos de catástrofe, precisas e incisivas. Enfim, certos textos – que eu cito – de Guy Debord sobre o nuclear (nos seus “Commentaires sur la société du spectacle”) tinham também diagnosticado bastante bem o problema, na sua dimensão económica e politica, que é precioso referir. Não vi muito essas referências a serem utilizadas no estrangeiro, é uma pena. A literatura, quando toca estes tópicos, ajuda-nos a pensar o real. Gostaria que os jornalistas pudessem fazê-lo também – certos jornalistas também o fazem, o facto é que vocês colocaram essa questão efectivamente primordial desde o primeiro momento do nosso encontro.

Uma dessas obras, a de Voltaire, diz respeito ao terramoto de 1755, que devastou parte de Lisboa e outras zonas do país. É algo que os portugueses tendem a remeter para segundo plano, embora haja vozes com opiniões sonantes acerca de uma nova tragédia iminente. Evita-se o esquecimento sem alarmismos?

O esquecimento faz parte da vida, senão condenamo-nos a viver entre os mortos e a deploração necrológica, como no filme do Truffaut, “La chambre verte” (O Quarto Verde), onde um homem vive quase unicamente dos despojos e das memórias dos defuntos; ou ainda como no lindo conto de Borges, “Funes el memorioso”, onde o jovem homem de nome Funes é tocado pela hipertimesia (ele lembra-se absolutamente de tudo): afastado de todas as ligações com os seus contemporâneos, acabará por morrer de um edema pulmonar. É, portanto, preciso saber esquecer para não deixar que os mortos fiquem no lugar dos vivos. Mas é preciso saber também recordar e saber preparar-se. No Japão, milhares de pessoas morreram no tsunami apesar do alto grau de preparação para este tipo de catástrofes (existem a cada ano simulações, exercícios de reacção aos sismos nas escolas, nas empresas). Por outro lado, existem poucas mortes devido ao terramoto propriamente dito: o Japão está melhor preparado para sismos do que para tsunamis, em grande parte por causa do sismo de Kôbé, em 1995, que fez mais de 6 000 mortos e marcou os espíritos, obrigando a uma revisão geral das normas antissísmicas.

Retrata um cenário apocalíptico, composto por uma devastação generalizada e contaminação radioactiva. Surge uma nova mentalidade de prevenção que, no entanto, parece encaminhar a população para um estado de paranóia. Será possível haver uma posição sensata da parte das instituições governamentais, quando há muito que ainda se desconhece e se especula sobre o nuclear?

Eu não sei se a catástrofe de Fukushima é de “natureza quase-apocaliptíca”. Tradicionalmente, um apocalipse é um acontecimento brutal, flamejante, que traz uma revelação e um anúncio de um mundo novo iminente. O “apocalipse” de Fukushima, mesmo se trás consigo algumas dessas caracteristicas, é de outra natureza, em grande parte silenciosa e invisível; os seus efeitos são reais (terrivelmente reais) mas difíceis de medir através dos instrumentos de medida clássicos, difíceis de pensar através das categorias de pensamentos tradicionais. Eu descrevi-a no meu livro como “um estado de urgência que não termina mais”. É aquilo a que eu chamo de “catástrofe durável”, ou uma “catástrofe continua”, com essa temporalidade muito estranha especifica de uma catástrofe nuclear, que mete em jogo escalas de tempo extraordinariamente difíceis de reter. Será antes de mais necessário multiplicar os estudos sobre as consequências – prováveis, possíveis, certas ou a verificar-se – da energia nuclear. Esta energia gera electricidade, mas também muito dinheiro. Gostaríamos que uma parte desse dinheiro fosse revertido para pesquisas médicas de grande amplitude, por exemplo, onde as pesquisas fossem confiadas a cientistas independentes e os resultados tornados públicos. Hoje em dia está muito longe de ser o caso. Sobre a “paranóia” que evocaram ela é bem real, e dou disso vários exemplos no livro: aquele que lava os dentes com água mineral para evitar a água contaminada; aquele que não mais se barbeia com medo de se cortar, porque pensa que a radioactividade pode penetrar nos cortes ou nos arranhões.

Como foi dito, pode espantar muita gente o tão pouco que se sabe sobre eventos desta envergadura. Acha que existe confiança excessiva na capacidade de prever sismos, mesmo sendo do conhecimento geral que o aviso surge instantes antes do desastre?

Sim, os acontecimentos desta natureza (e desta envergadura) são por definição acontecimentos que nos apanham de surpresa. No Japão, não creio que as pessoas sejam demasiado confiantes na capacidade de prever sismos. Pelo contrário, parece-me que temos bem consciência, tanto na comunidade científica como junto do grande público, da dificuldade – certos cientistas dizem mesmo ser impossível – desse exercicio. Escolhi começar o meu livro pela história de Zhang Heng, um literado chinês que inventou o primeiro sismógrafo, no primeiro século da nossa era: 20 séculos mais tarde, existiram progressos enormes na sismologia com a descoberta das placas tectónicas, por exemplo, o registo das ondas ou os avanços das técnicas de imagem para visualizá-las, a geodesia e a observação espacial, etc. Portanto, a imprevisibilidade faz parte da natureza e da vida, da nossa existência neste “mundo flutuante” como diziam os pintores de estampas (ukiyo-e). Portanto, todos estes avanços não são inúteis: eles podem permitir reduzir ao máximo os riscos, tendo em conta, por exemplo, a estrutura dos solos, a disposição das placas, a proximidade das falhas. Falta colocar em acção toda uma política da cidade e de ordenamento do território, pelo que estamos apenas nas primeiras etapas, quer no Japão como no estrangeiro, num mundo onde os habitantes da cidade representam, daqui em diante, mais de metade da humanidade.

Retendo-nos mais um pouco no ponto anterior, é sabido que um acontecimento catastrófico traz não só destruição, mas também um olhar e conhecimento novo sobre a matéria. Que avanços foram feitos desde então, que colmatarão lacunas as enfrentadas em 2011?

Está correcto. É o que em japonês se chama de “yonaoshi”: o renovamento do mundo, a possibilidade da sua cura ou, pelo menos, de reparação, de ver as suas melhoras depois de um grande desastre. O tremor de terra de 11 de março 2011 teve essa particularidade que se produz num desses países de alta performance científica do planeta, que dispõem de numerosos instrumentos de medida e análise. A maior parte dos cientistas dizem que, pela primeira vez e com extrema precisão, vai ser possível criar um modelo em detalhe do que se passou no início de um terramoto, bem como estudar os efeitos sobre os prédios a fim de melhorar as normas antissísmicas actuais. Mas, a meu ver, a lição do sismo não dever ser unicamente científica, nem concerne somente ao Japão, longe disso. Existem formas de governar a rever e questões a serem colocadas sobre a organização social das megapolis, como a difusão de informação, o papel dos media tradicionais e da internet ou o impacto económico local ou global. Deste ponto de vista, o exemplo Japonês, mesmo guardando o espírito das suas características específicas, pode servir para iniciar um verdadeiro pensamento da catástrofe moderna.

No livro, estabelece uma comparação entre Hiroshima e Fukushima. Ainda que as circunstâncias defiram, a ligação comum parece estar em lidar com a situação de forma suave, sem grandes preocupações a longo prazo. Globalmente, irão as grandes corporações e os investidores em energia nuclear, assim gomo as autoridades governamentais, aprender com Fukushima aquilo que não aprenderam com Hiroshima?

A comparação entre Fukushima e Hiroshima é delicada mas parece-me necessária. Em relação às grandes corporações a aos investidores em energia nuclear, perdoem-me mas creio que não querem aprender com Fukushima. Como podem ver nos media ou ler nos relatórios oficiais, de cada vez que ouvimos evocar “a experiência de Fukushima” não é para proteger as populações que podem ser expostas a um risco nuclear, mas sim para propor melhorias de segurança visando poder continuar a vender as suas centrais. A “segurança” das centrais não é aqui um argumento comercial: a lógica comercial premeia outra coisa, mas inclui isto da segurança – senão, por que continuar a querer retomar e mesmo desenvolver esta indústria num território sísmico, por exemplo?

Quanto às autoridades governamentais, elas são claramente submetidas ao mesmo género de lógica, em numerosos países: no Japão, menos de três meses após tal desastre, o governo falou em reactivar as centrais e mesmo em construir outras! Em França, existiram “stress tests”, que foram feitos mais para mascarar do que para informar. Não estou a exagerar, vejam: estes testes não tiveram em conta, por exemplo, a hipótese de um atentado terrorista contra uma central nuclear, nem de um acidente industrial que, num efeito dominó, poderá simular um acidente nuclear em certas zonas ou actividades industriais, químicas, por exemplo. Existem várias em França, assim como noutros países. À parte isso, dir-vos-ão evidentemente que tudo fora feito tendo em conta a catástrofe de Fukushima e que, de qualquer forma, “não há tsunamis nas costas francesas”, o que é uma maneira evidente de deslocar o problema…

O obstáculo maior é uma verdadeira consideração do risco nuclear que os Estados, assim como as empresas privadas, correm hoje em dia sob o jogo de uma lógica estrita de mercado, onde a sorte das populações conta bastante pouco. Neste sentido, a questão nuclear é reveladora do nosso modo de vida e das nossas organizações sociais consumistas, onde tudo é pensado em termos de quantidade, produção e consumo. Tudo se passa como se a lógica de mercado fosse portadora, hoje em dia, de uma racionalidade autónoma e superior: tudo é pensado em termos de benefícios contabilísticos imediatamente recuperáveis e quantificáveis.

O isolamento fez-se sentir imediatamente após a catástrofe. A ideia de afastamento na dita era da “aproximação” parece ter um lado obscuro, onde o medo e a circulação de informação contraditória triunfam. A vida daqueles que vivem em solo japonês, bem como as relações internacionais, evoluíram de que maneira desde então?

Para obter uma resposta a essa questão aconselho o visionamento do belo filme de Kenici Watanabe, “Le monde après Fukushima” (Arte/Kami Productions, 2013). Escrevi um texto, mas não é por essa razão que eu o aconselho: é porque é um dos melhores filmes que foram feitos para mostrar, de maneira sóbria e muito comovente, a forma como as pessoas vivem hoje em dia nos territórios contaminados. Longe das grandes discussões lírico-politicas sobre a necessidade de reconstruir de novo um belo país, ali vemos as dificuldades diárias, a imensa aflição contida e digna dos habitantes: os agricultores que tentam produzir legumes sãos, os pescadores que relançam os seus peixes envenenados à água, a descontaminação impossível. Tudo aqui é apresentado como “normal”. É o que eu chamo de “meia-vida” no meu livro: «Apresentamos uma situação completamente anormal como normal. Habituamo-nos docemente a acontecimentos não habituais. Legalizamos e normalizamos pôr a vida em perigo, habituamo-nos ao inadmissível.» Deveria haver uma cooperação científica internacional responsável por pensar no imenso e vertiginoso panorama de questões que a catástrofe de Fukushima começa apenas a colocar.

Recorre ao humor esporádico, pese a situação que viveu durante os acontecimentos mais incisivos e a viagem que fez por um Japão em ruínas. Desempenharão a ironia e o riso um pequeno papel no processo de atravessar um momento difícil?

Não apenas um pequeno papel mas o papel principal, uma parte essencial. Face a este nível de catástrofe, não há outra coisa a fazer que não seja rir, ligeiramente ou enormemente, sob a forma feliz ou sob a forma irónica, libertadora e sarcástica. É aquilo a que eu chamo de “o lado cómico das catástrofes”: o fundo da condição humana revela, à vez, o seu fundo de terror e de riso.

Toma consciência, num momento da obra, que aquilo que relata não poderia ter sido imaginado pelo mais capaz guionista de um filme-catástrofe, à moda de Hollywood. Vê, daqui a uns anos, o caso Fukushima ser explorado no mundo do entretenimento?

Oh, isso não me espantaria. Hoje em dia tudo é recuperável sob a forma de entertenimento. É uma das características mais constantes das nossas sociedades, apressados em despedir todo o pensamento e promover os valores do divertimento. Existe já um filme de terror situado em Prypiat, a cidade-fantasma mesmo ao lado de Tchernobyl. Evidentemente já foi filmado em Belgrado e em Budapeste. Duvido que, por outro lado, pudéssemos organizar viagens turísticas na zona, as “Fukushima tours”, antes de passarem umas centenas de anos. O que é uma pena: as pessoas deviam ter o direito de ver o que fazemos ao nosso planeta.

Por fim, com mais estudos que certamente surgirão, bem como outros tantos testemunhos que virão a ser conhecidos, pensa retomar a reflexão sobre Fukushima noutra obra?

Depois deste livro não quero escrever mais sobre Fukushima. Tenho escrúpulos e não quero, sobretudo, explorar um “filão”. Mais ainda, é um tema que pode facilmente submergir a vida, e não tenho vontade que esta catástrofe dite o meu calendário de escritor ou que me impeça de escrever sobre outra coisa. Mas tenho também escrúpulos no sentido contrário: alguns meses se passaram e, apesar da gravidade da situação, vejo que muitas pessoas esqueceram e pensam mesmo que a situação voltou à normalidade, quando a catástrofe está apenas a começar. Escrever outro livro será uma maneira de dizer que nada voltou ao normal em Fukushima, que Fukushima concerne-nos a todos, que não é apenas um nome exótico e vagamente evocador de uma catástrofe.

Se escrever outro livro, este será de qualquer forma um livro muito diferente: um ensaio filosófico sobre o nuclear, por exemplo, para experimentar dar-nos os instrumentos para pensar o problema, uma peça de teatro ou ainda um documentário sonoro. Gravei uma grande quantidade de ruídos, sons e palavras nas minhas numerosas viagens na zona, de que me servirei talvez um dia. Infelizmente tenho todo o tempo para prepará-los: Fukushima será actualidade durante muitos anos.

 

Entrevista realizada com a colaboração de Beanina Cardoso.

Foto: C. Hélie



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