Micro Audio Waves

Entrevista com um dos projectos mais internacionais da música nacional.

A recta final do ano passado foi bastante fértil no que diz respeito às novidades discográficas portuguesas.”No Waves”, foi um dos mais estimulantes álbuns nacionais do ano e marcou o regresso dos Micro Audio Waves aos originais. A banda surge com mais um elemento e uma originalidade que a música portuguesa tanto necessita e agradece.

Os Micro Audio Waves surgem na viragem do milénio, através de Carlos Morgado e Flak, tendo como base a experimentação para desenvolver composições de natureza minimal. O resultado desta “experiência” ficou registado no primeiro álbum homónimo do duo, lançado em 2002. No ano passado, o projecto recebe a voz de Cláudia Ribeiro e um novo conceito, mais terráqueo, onde a electrónica “pura” dá lugar a composições electro-acústicas estruturalmente mais clássicas, sem descurar a vertente experimentalista.

Esta nova formação e a notável internacionalização da banda serviram de mote a uma troca de ideias com Carlos Morgado, um dos elementos fundadores do projecto.

RDB: Qual foi a motivação para introduzir uma vocalista na vossa formação?

CM: A entrada da Cláudia nos Micro Audio Waves aconteceu um pouco por acaso. Ela é minha amiga há muitos anos e de vez em quando costumávamos fazer umas gravações só por diversão. Aquando da gravação do primeiro disco, eu e o Flak experimentámos inserir uma dessas gravações que eu tinha no meu computador numa das músicas do álbum. O resultado foi surpreendente e o disco saiu com a voz da Cláudia, mesmo sem ela saber! Mais tarde, convidámo-la para cantar esse tema connosco ao vivo e ficámos muito satisfeitos com a sua performance. A partir daí fomos trabalhando juntos mais vezes e resolvemos fazer um disco a três.

RDB: Este álbum parece romper com o passado do projecto. Consideram este registo como um novo ponto de partida?

CM: O primeiro disco é para nós uma espécie de manifesto às micro ondas sonoras. Trata-se de um trabalho de laboratório feito com uma precisão quase cirúrgica. Utilizámos “clics”, “blips” e demais interferências que fomos montando, dando origem a composições minimalistas, regra geral, de longa duração. Contudo, todo o trabalho de edição, manipulação e pesquisa sonoras presente em “Micro Audio Waves” também está presente neste novo disco. Sendo assim, não é correcto falar de um novo ponto de partida, mas “No Waves” apresenta diferenças evidentes relativamente ao trabalho anterior. Primeiro, a utilização de outras fontes sonoras, menos abstractas, a começar pela voz. Depois, é um disco mais orgânico – ou mais tocado, se quisermos – que vive muito da improvisação e da espontaneidade. Por fim, optámos por estruturas mais clássicas, que por vezes se aproximam a um formato de canção. No entanto, a edição, a manipulação e a experimentação continuam lá presentes.

RDB: No panorama português a vossa sonoridade é praticamente única. Acham que esse aspecto pode ser positivo para a vossa carreira?

CM:
Um dos aspectos que mais define a sonoridade dos Micro Audio Waves é a pesquisa de fontes sonoras sugestivas. Neste disco recorremos a vários instrumentos analógicos dos anos 70, dos quais destaco um sintetizador soviético de 1978, o Polivoks, que emite sons e ruídos fantásticos. A voz, também ela, é para nós uma fonte sonora passível de ser manipulada de forma a tirar dela outras possibilidades. Toda esta pesquisa é natural que se traduza numa sonoridade “praticamente única”. De facto, temos um cuidado muito grande com todos os sons que utilizamos nos nossos temas. E como é natural, ter uma sonoridade sui-generis é sempre positivo e benéfico para qualquer projecto musical.

RDB: Existe algum “hype” em torno das sonoridades mais “electro”. Será esse o vosso caminho no futuro?

CM: Não temos uma ideia muito concreta em relação ao que vamos fazer a seguir, mas o “electro” só por si não é uma estética que nos seduza particularmente. Vamos de certeza continuar a procurar novas fontes sonoras e a experimentar sem qualquer limitação para sermos surpreendidos pelos resultados que vamos obtendo. Essa é a nossa principal motivação.

RDB: Os Micro Audio Waves demostraram desde o início uma grande apetência para a internacionalização. Quais foram as actuações mais importantes?

CM: Temos tocado nalguns clubes e festivais europeus. Destaco o Atlantic Waves, o Music & Film Festival (ambos em Londres), o Festival de Artes de Madrid e, mais recentemente, o Sonar de Barcelona. Este último foi particularmente importante, pois o nosso concerto foi transmitido pela BBC Radio 1 e o nosso disco “No Waves” foi considerado um dos melhores do mês de Julho pela estação inglesa.

RDB: Esse trajecto internacional é para manter?

CM: Estamos a trabalhar nesse sentido. Neste momento, temos já confirmada a nossa actuação em Paris, em Maio de 2005. Temos, também, contactos para tocar em Amesterdão, Zurique e Nova Iorque, o que também deverá acontecer na primeira metade de 2005.

RDB: Qual é o vosso plano de acção para o inicio de 2005? Concertos?

CM:
Estamos a compor temas novos que contamos apresentar ao vivo brevemente. Quanto a concertos, em Janeiro vamos tocar dia 8 na ZDB (Lisboa) e dia 14 na Via Latina (Coimbra). Em Fevereiro, entre outros, temos concertos previstos para o Porto e Braga.



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