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Miguel Clara Vasconcelos

Um olhar intimista.

Após vários contactos chegou o dia de me encontrar com o realizador Miguel Clara Vasconcelos. Este encontro teve lugar numa chuvosa tarde de Novembro. Com um ar descontraído e jovial mas de quem deixa sempre algo por revelar, começa a responder às minhas perguntas.

“Para mim ser realizador é a conclusão de um percurso. Eu comecei na escrita, desde o inicio as duas áreas que me interessavam eram a poesia e o ensaio, mais tarde comecei a trabalhar no teatro, escrevia e encenava os textos. A razão principal era porque os encenadores não pegavam nos meus textos e eu resolvi pegar neles, mas percebi que o Teatro tinha uma dimensão um bocado fechada, sobretudo não podia incluir tantos elementos, por um lado como a literatura permitia e por outro lado a literatura não permitia ter a presença física dos actores, um elemento fundamental para mim. O cinema foi um ponto de chegada sobre outras áreas que eu fui trabalhando”.

“O cinema é talvez a forma artística que mais viaja”

“Ser realizador em Portugal, é curioso por um lado o cinema é talvez a forma artística que mais viaja mas talvez realizador seja das áreas mais difíceis de viajar e isto é porque quando os realizadores fazem filmes noutros países perdem profundidade ou seja os filmes tornam-se um bocado turísticos, é o caso do “Lisbon Story” do Wim Wenders que quem vê o filme reconhece ali uma Lisboa muito turística e à sempre ali uma dimensão de fascínio pela superfície que é normal, é o que as cidades trazem de mais belo mas também há uma perda de identidade e ao mesmo tempo de complexidade em relação à trama psicológica que um filme contem sempre, para dizer que ser realizador em Portugal é uma limitação porque é um país pequeno e o que isso implica em termos de espectadores, salas, etc, mas ao mesmo tempo há uma dimensão de carácter mais específico, se nós compararmos o cinema português com o cinema espanhol, o cinema brasileiro, grego, o cinema português é diferente tem características peculiares e ser realizador em Portugal é também ser realizador de uma cultura portuguesa não apenas da língua, há essa dimensão cultural que estará sempre presente nos meus filmes quer eu queira quer não. Fazer cinema é difícil não só no meu país, cinema é uma arte cara”.

“O meio artístico não é fechado só em Portugal”

“Não me revejo nada nessa ideia de que somos punidos por viver em Portugal, o meio artístico não é fechado só em Portugal. Em relação aos jovens realizadores, primeiro nem todas as pessoas que se licenciam em Cinema serão realizadores, haverá alguns que serão e haverá outros que serão realizadores e não estudaram cinema eu sou um exemplo disso, por outro lado em períodos políticos ou económicos mais difíceis é quando surgem melhores realizadores, o que é que isto quer dizer, o sistema pode ser mais duro e mais cruel na forma como selecciona as pessoas, é que por vezes há pessoas com talento, muito boas mas não agem e não fazem filmes, em relação às escolas acho que idealizam em relação à actividade de realizador e preparam de forma deficitária a entrada no tal meio fechado porque percebi para ser realizador é necessário saber falar bem e ser perseverante e saber com quem falar ou seja ter contactos e saber defender o seu trabalho no inicio é difícil mas faz parte da actividade”.

“Desde criança sempre gostei de escrever e contar histórias”

“Desde criança sempre gostei de escrever e contar histórias e a minha resistência à rotina, quando não posso aplicar a imaginação a uma actividade, aborreço-me de morte e foi por aí que percebi que a carreira artística era aquilo que me definia e percebi que era isso que eu queria fazer”, explica Miguel Clara Vasconcelos como soube que a carreira artística era o seu caminho.

“Documento Boxe”

“Significou o arranque na minha carreira. Foi o meu primeiro filme, primeiro documentário, mesmo com poucos meios consegui fazer o filme que pretendia com uma equipa muito generosa e que colaborou muito. Ao estrear e ganhar o prémio no Festival Internacional de Curtas Vila do Conde foi o entrar no meio e foi dizer – Bem eu tenho alguma coisa nova a dizer. – Se calhar por causa desse prémio eu não desisti, deu-me força para continuar e por não desistir ao fim de seis anos sou reconhecido porque durante os anos seguintes foi difícil ser aceite e depois eu criei a minha própria produtora para ter mais liberdade de acção e não parar”.

“Instantes”

“Quis fazer o paralelismo entre duas formas de relacionamento que têm como origem o amor, o amor mais sexual, erótico em que a relação está a funcionar plenamente e uma outra relação que é disfuncional, que resulta na violência que terá começado com um sentimento de paixão – Eu queria que o telespectador reflectisse sobre duas coisas, pensar – Será que isto são duas relações diferentes ou são duas fases diferentes da mesma relação e até que ponto uma relação que estamos a viver não se poderá tornar numa relação violenta, quase de morte dai a montagem em paralelo das duas cenas, relaciona o amor físico, carnal e a morte, o amor também tem um lado de destruição”.

“Pedrinez”

“Além de ser uma proposta de trabalho de escola com alunos meus é também um projecto de trabalhar sobre a tragédia de D. Pedro e Dona Inês, é um mito que me atrai muito, que me fascina, um tema que já de alguma forma estava presente em outros trabalhos anteriores e eu quis retratar um outro assunto que é os casos de trauma de esquizofrenia provocados pela guerra e neste caso pela guerra colonial portuguesa; soldados que foram muito cruéis porque viveram num cenário de guerra e muitos deles não suportando as situações que estiveram sujeitos sofrem de esquizofrenia – Eu conheci alguns casos desses no hospital Júlio de Matos, D Pedro era um cavaleiro, um guerreiro, a história em si tem uma dimensão muito trágica e aí entra a voz do Luís Miguel Cintra que é uma voz mais interior que de alguma forma mostra que aquilo é teatro, que é ficção, um elemento exterior”.

A Mauritânia

“Foi muito interessante, foi um convite e eu pensei – A Mauritânia parece-me uma boa ideia, nunca lá estive (risos). Guardo muitas boas recordações, ter estado na capital e ter ouvido um tiroteio depois de ter sido o ataque da Al-Quaeda, foi um período quente. Essas viagens que têm uma grande componente de aventura são sempre muito interessantes”.

Os Festivais

“Ser seleccionado para um festival, ganhar um prémio, dar uma entrevista é um reconhecimento. – Eu procuro não me entusiasmar demasiado com isso também porque aprendi com os primeiros prémios que a vaidade é inimiga da perfeição e da atenção”.

“O que será mais difícil fazer um filme com um milhão de euros ou fazer um filme com cem euros?”

“É muito difícil gerir um grande orçamento para quem nunca realizou um filme. O que eu digo é, juntem cem euros e façam um filme. Foi o que eu gastei na minha última curta-metragem para o movimento SOS Racismo. Todas as pessoas que querem fazer cinema têm que começar por fazê-lo e saber trabalhar com o pouco que têm. – Quando fiz o documentário “Documento Boxe” fui à procura de quem tinha uma Câmara para começar a filmar”.

No ano de 2010 a sua curta-metragem “Universo de Mya” esteve presente no Festival Internacional Curtas-Metragens de Vila do Conde e no Festival de Cinema Luso-Brasileiro em Vila Nova de Cerveira assim como o documentário “Combate às Escuras”, continuação do percurso de Jorge Pina, anos depois de ser o protagonista do documentário “Documento Boxe”, esteve presente na 4ª edição do DocLisboa, Festival Internacional de Cinema Documental de Lisboa.

Quem viajar pelo universo de Miguel Clara Vasconcelos vai viajar num mundo de imagens em que o movimento dos corpos e o carácter intimista nas histórias que cria são uma demanda.



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