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Miguel Guilherme

Conversámos com Miguel Guilherme no Teatro Aberto onde protagoniza o brechtiano Senhor Puntila e descobrimos que ele é fã do Clint Eastwood, que as histórias do Tom Saywer o marcaram e que não pensa regressar, para já, às sitcoms televisivas.

Durante a nossa infância e adolescência, habituámo-nos à sua presença que nos entrava pela casa adentro. Habituámo-nos ao seu nariz afilado, à voz ligeiramente nasalada e, acima de tudo, ao seu humor. Ele foi o Fintas ao lado de Ivo Canelas e Canto e Castro, deu corpo ao Bocage e, mais recentemente, encarnou o António Lopes, chefe de família no pré-25 de Abril. Agora, Miguel Guilherme é Senhor Puntila, um homem rico cujo grande amor é a aguardente no espectáculo “Senhor Puntila e o seu criado Matti” de Brecht, em cena no Teatro Aberto. Num fim de tarde fresco, fomos ter com Miguel Guilherme para uma conversa e descobrimos que ele é fã do Clint Eastwood, que as histórias do Tom Sawyer o marcaram e ficámos encantados com a sua serenidade e inteligência.

Como é que é estar bêbedo durante a peça  (quase) toda?

É uma experiência interessante, porque nunca tinha feito nada assim e era uma coisa que me preocupava. Não me preocupei tanto em criar aquele bêbedo mais clássico, que arrasta a voz. Pelo contrário, quando ele está bêbedo parece que tem uma verve maior, que as palavras lhe saem com mais eloquência. O álcool, neste caso a aguardente, é uma espécie de combustível para o Puntila se tornar uma pessoa mais frenética ou para mudar um bocado de personalidade.

Qual é o maior desafio de fazer esta personagem?

Por um lado foi esse, encontrar o personagem no sentido de um bêbedo que não é um cliché. Por outro lado, o personagem é muito exigente do ponto de vista físico e vocal. E esse também foi um desafio grande.

O Senhor Puntila alterna sempre entre esses dois registos diferentes: um mais eufórico e alegre, e outro mais arrogante. Essa construção também passou por trabalhar constantemente entre esses dois registos, não é?

Sim, teve que passar porque esse também é um dos pontos da comédia escrita pelo Brecht. No fundo, é a bipolaridade do personagem que também contém em si uma parábola mais geral da sociedade ou das relações de poder entre as pessoas, entre o poder e o não poder. É como se o poder fosse completamente arbitrário. Quando lhe apetece é bonzinho, quando não lhe apetece é mau.

Porque Brecht explora muitos esses temas da sociedade e da luta de classes…

Sim. Brecht acreditava que a sociedade podia mudar e que o próprio teatro tinha uma importância vital na mudança das mentalidades. O teatro podia verdadeiramente mudar a sociedade.

E o Miguel, concorda com Brecht nesse sentido?

Não. No sentido tão radical como ele acreditava e na direcção que ele queria, não concordo. Porque a práxis mostra que isso não é totalmente verdade. Embora acredite que o teatro ou qualquer expressão artística contribui para mudar mentalidades, tendências e influencia as pessoas. Agora, no sentido de ser um agente político extremamente eficaz que em 10 anos põe as pessoas a pensar de outra maneira, nisso não acredito. Gosto da ideia e do empenho que Brecht e outros autores puseram nisso.

Este ano acabou por marcar o seu regresso ao teatro e aos grandes autores, primeiro com “Blackbird” e agora com o Sr. Puntilla de Brecht…

Não foi propriamente um regresso ao teatro, mas este ano tinha decidido só fazer teatro e acabei por fazer dois textos muito bons. E ainda por cima de dois autores que têm registos e épocas bastante diferentes. O Blackbird que é teatro realista contemporâneo, e uma peça mais clássica de Brecht.

O que é que o apaixona mais no teatro?

O que me apaixona mais no teatro é existir uma relação mais vital entre todos os elementos que compõem a cena. Entre os actores com o público, o público com o próprio público, os actores com o texto, os actores uns com os outros… acho que é uma relação mais verdadeira, mais carnal. Por outro lado, muito do que eu aprendi foi através do teatro e muitas vezes utilizo isso no cinema ou na televisão. Comecei no teatro, por isso, para mim o teatro é fundamental. Não me imagino a representar sem fazer teatro. Mas não acho que isso seja uma regra que tenha que se aplicar a toda a gente. Aliás, não é uma regra, foi como sucedeu e é como eu me sinto bem. Mas temos actores de cinema que nunca fizeram teatro.

Também apresentou o espectáculo “Que vergonha rapazes!”, no Maxime, num formato um bocadinho diferente, mais próximo da Stand Up Comedy. Como foi essa experiência?

Sim, eu diria que é mais uma espécie de cabaret. Foi muito engraçado! Porque já há muitos anos que não fazia nada deste género, de café-teatro ou cabaret, em espaços não teatrais. E como era com textos de autores portugueses a atirar para o cómico, era muito tu cá-tu lá com o público. Foi muito divertido.

O seu trabalho, assim como o de outros como o José Pedro Gomes ou o António Feio, tem sido uma influência para jovens que querem ser actores. Como vê o trabalho desta nova geração de actores?

Eu gosto imenso! Acho que há um nível maior de consciencialização e uma maior profissionalização dos actores. Nós quando começámos ligávamos isto mais a experiências de grupo. Não quer dizer que as pessoas agora também não sintam isso, mas há uma maior ambição pessoal, no bom sentido. E acho que a qualidade também subiu imenso.

E o percurso deles também é diferente. Por exemplo, eu reparei que nesta peça alguns actores jovens vêm da televisão.

Sim, começaram na televisão ou pelo menos tornaram-se conhecidos na televisão.

Há aqui se calhar uma mudança…

…uma mudança de paradigma, sim. Mas também há muitos que vêm do teatro. Acho que os actores hoje em dia procuram variar as experiências, o mercado de trabalho também oferece mais hipóteses. Não é um mercado grande, mas apesar de tudo é mais alargado. Os actores muitas vezes trabalham em ópera ou em dança, com bailarinos ou grupos mistos. Por outro lado, o teatro também começa a estar mais integrado na sociedade, a fazer mais parte do dia-a-dia das pessoas. Há vários tipos de teatro para vários tipos de público. E tudo isso abre hipóteses a que haja mais gente a querer ser actor e a que alguns sejam mesmo bons e fiquem.

Como está a programação televisiva actualmente, na sua opinião?

Acho que há mais quantidade. Acho que já temos técnicos muito capazes de fazer televisão só que a produção ainda não é muito levada a sério. As coisas são feitas com pouco tempo, com pouco estudo, com pouco planeamento e acabam por se ressentir. Por exemplo, faz-se uma série de televisão sem se fazer um episódio-piloto ou sem haver uma coordenação entre os figurinos, a cenografia, os actores e o realizador. As coisas lá se safam, mas não temos qualquer capacidade de concorrer no mercado internacional. As nossas coisas são perfeitamente amadoras. Não digo que são como as latino-americanas porque até acho que são piores!

De que forma acha que a crise que estamos a viver tem-se reflectido no Teatro e no Cinema, em termos de afluência de público e mesmo ao nível da produção?

É difícil dizer, mas eu tenho a sensação que em períodos de crise as pessoas vêm mais ao teatro e ao cinema. Talvez porque as pessoas sentem que têm que viver a vida de forma mais rápida. Ou porque a coisa está tão má que mais vale divertirem-se de vez em quando. É uma forma de escape, já agora vamos viver a vida. E isso nota-se, mesmo em tempos de guerra, as pessoas querem viver a vida de forma mais intensa.

E nessas alturas também se nota um aumento de criatividade.

Eu acho que sim. As pessoas não estão acomodadas. Parece que há menos a perder. Mas depois em termos de dinheiro, claro que há gente que se aproveita da crise para baixar cachets, para fazer esse tipo de tropelias. É perverso. O mercado depois acaba por encontrar o seu equilíbrio, mas nesta fase as pessoas estão desesperadas e aceitam qualquer preço e não há associações fortes que não permitam que a entidade patronal e os produtores (e muitos deles trabalham com dinheiro do Estado) abusem. É o pânico total, é a anarquia total.

Mudando de assunto, há algum livro que o tenha marcado ultimamente?

Curiosamente, eu lia mais em adolescente do que leio agora. Mas estou a ler “A Triologia da Fronteira” (Border Triology) que me está a marcar imenso. Depois há aqueles que li na infância ou na adolescência. Pode parecer pueril, mas foram esses que me marcaram mais  como, por exemplo, o “Tom Sawyer”, “Os Três Mosqueteiros”, “A ilha do tesouro”. Esse tipo de livros que, no fundo, lançam as fundações para boas leituras.

E ao nível do cinema?

Gosto muito do Clint Eastwood. No cinema português, há dois realizadores novos que eu gosto muito que são o Marco Martins e o Tiago Guedes. E, recentemente, gostei muito do “Laço Branco” e agora estou com imensa expectativa para ir ver “Os Mistérios de Lisboa” do Raul Ruíz.

Planos para o futuro? Vai voltar a fazer comédia em televisão?

Lá para Setembro de 2011 tenho um projecto com o Bruno Nogueira e o Tiago Guedes para uma peça, uma coisa cómica. Televisão em sitcoms nunca mais fiz porque é uma coisa que já não me interessa mais fazer, já explorei muito isso. Neste momento, interessa-me mais o drama, não no sentido trágico, mas mais ao nível da narrativa. Vamos ver o que aparece.

Fotografia de Graziela Costa



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