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Miguel Seabra

Vinte anos de Meridional. A entrevista necessária

Desde o início no projecto do Teatro Meridional. Este Meridional que comemora vinte anos de Teatro mais a Sul que nos direcciona para o Norte. Vamos ao teatro onde espelhamos as mundividências.

Um português (o Miguel), dois espanhóis e um italiano decidiram criar um teatro deambulante (inspirado nas grandes companhias teatrais itinerantes do Sul da Europa). Como foi a criação do projecto do Teatro Meridional?

O Teatro Meridional nasce como um projecto multicultural. Embora a formação inicial com dois espanhóis, um italiano e eu tenha mudado. Hoje em dia a Companhia é essencialmente portuguesa. A direcção artística é composta por mim e pela Natália Luíza. Mantemos uma lógica nómada e multicultural e vice-versa ao longo destes vinte anos. Permanece uma identidade plural porque trabalhámos com actores de nove países, estivemos presentes em dezanove países dos cinco continentes. Não nos centramos só numa forma de fazer teatro, seguimos diversas vias.

O primeiro espectáculo deste projecto itinerante foi em Casablanca. Conta-nos essa história de paixão pelo teatro

O primeiro espectáculo oficial foi no dia 11 de Setembro de 1992 precisamente em Casablanca. Essa primeira produção foi inspirada na Commedia del Arte cujo título era “Ki Fatxiamo Noi Kui”- o que fazemos nós aqui (em italiano disfarçado) que é uma pergunta que tem acompanhado sempre o projecto do Meridional como um projecto que se questiona permanentemente no sentido de pôr-se em causa criativamente. Também nos interrogamos sobre o papel do teatro na própria sociedade e se há ou não intervenção política (como intervenção na polis). Apresentámos este espectáculo no contexto do Festival Internacional de Teatro de Casablanca onde nos foi atribuído o primeiro prémio frente ao melhor espectáculo do festival. Marrocos marca o início deste projecto que nasceu precisamente no verão de 92.

Depois do primeiro espectáculo em Casablanca – “Ki Fatxiamo Noi Kui” – o projecto iberizou-se (ficou espanhol e português e deixou de ser italiano). Como foi esse período?

As quatro pessoas que fundaram o teatro Meridional apresentaram a primeira peça juntas. Nós fizemos mais de 100 apresentações deste espectáculo marcante para o projecto. “Ki faciamo noi kui” foi também um espectáculo que trouxe ar fresco ao teatro português. Depois o italiano saiu do projecto, as pessoas estão nos sítios e nos projectos o tempo da sua própria respiração. Por esse motivo o centro tornou-se mais ibérico, e consequentemente fizemos mais espectáculos em Espanha, na América do Sul e também em Portugal. Essa irmandade lusa manteve-se durante oito anos.

Em 2000 o Meridional assina “uma espécie de Tratado de Tordesilhas” e divide-se em dois ramos, um em Espanha constituído por Alvaro Lavin e Julio Salvatierra, e outro em Portugal, consigo e com a Natália Luíza

Nesse ano, em 2000, fizemos precisamente esse “Tratado de Tordesilhas” teatral e separaram-se águas. Em Espanha mantiveram o nome Meridional mas desenvolveram um projecto próprio diferente da raiz original comum.

O Teatro Meridional comemora este ano vinte anos. O que destacas nestas duas décadas?

No projecto do Meridional há claramente três momentos. Um primeiro que abrange esta realidade de uma irmandade ibérica em que o projecto é misto com espectáculos bilingues. Destaco depois um outro tempo em que se dá a cisão em 99/2000. Por fim menciono a fase do projecto pós 2000, ou seja estes doze anos em que fizemos um percurso no qual existe intervenção claramente do texto em Português (presença do universo literário e não só ligado à lusofonia mas também ligado à diversidade e riqueza da língua do País) e ainda a predominância de espectáculos onde a palavra não é a principal forma de comunicação cénica. Apanhámos um fim do século e o início de um século. No início avançámos com um projecto mais por dentro e com ligação à Europa.

O Meridional tem-se dedicado a fazer espectáculos sobre a identidade portuguesa? Que Portugal é este de hoje?

O Portugal de hoje é um País que precisa e não tem políticos que pensem a pólis enquanto País todo, global de uma maneira inteira, consequente e que nos remeta confiança. Essencialmente, os políticos deviam ser pessoas em princípio predestinadas para determinadas práticas e cargos de intervenção na sociedade. Ao assumirem essa opção de vida têm a responsabilidade de representar o povo e raramente o fazem de uma maneira implicada, discreta e que não seja afecta a lobbies.

Os políticos que temos hoje em dia parecem que tiraram aqueles cursos muito rápidos que hoje há nas universidades em que qualquer pessoa pode ser advogado ou engenheiro. Assume-se como gravíssimo as pessoas não terem qualquer confiança nas pessoas que as representam. Qualquer pessoa que assuma funções políticas quase invariavelmente muda o seu discurso. Quem manda realmente são os grandes capitais, ou seja a política está claramente dependente dos grandes interesses económicos que ao entenderem representar também têm uma responsabilidade, uma implicação associada. Em termos de política sinto-me muito pouco tranquilo porque os políticos têm poder visível, por vezes bastante aparente, mas continuam a ter poder e não me transmitem qualquer tipo de confiança; que dê segurança ao meu amanhã e das gerações seguintes e do Portugal de amanhã. Os políticos actuais não têm o sentido da rua, não andam de autocarro, não sentem a população. Falta-lhes este link com a população; obviamente inteligência e cursos não lhe faltam.

Politicamente assiste-se a um condicionamento da mentalidade de um povo. O grave desta situação é não reagirmos a este governo pró-fascista.

Em termos de educação este senhor que é ministro da Educação está claramente a roubar a poesia das nossas crianças obrigando-as a responderem todas ao mesmo tempo, matematicamente com o tempo contado e todas da mesma maneira. A matéria do antigo quarto ano ser dada no segundo ano, isto é perfeitamente asfixiante o que se está a fazer às nossas crianças, os homens de amanhã vão ser burocráticos e sem perceberem o que estão a fazer vão ser máquinas de repetição. Pode ser que tenha influência na sua maior capacidade de trabalho. Uma outra visão tinha um pedagogo suíço. Froebel dizia que as crianças devem começar a aprender brincando.

Para não falar de economia e do ministro das finanças e dos direitos que esse senhor nos tirou, direitos esses que levámos tanto tempo a conquistar.

Para não mencionar também o primeiro-ministro que tinha como bandeira os direitos sociais e essa bandeira desapareceu. É engraçado perceber que três homens podem deitar abaixo um País. O que é gravíssimo porque vamos levar muito tempo a mudar esta situação. Assume-se como o paradoxo da democracia quando três homens podem determinar regras tão radicais e fascistas (porque impostas, não permitem resposta, é na sequência daquela célebre frase do Salazar. Isto é assim e não pode ser de outra maneira). Estamos a atravessar uma situação muito complicada.

Na cultura a política deste governo e de todos os governos normalmente conotados com a direita é de corte de financiamento.

O Teatro Meridional centra-se também na lusofonia, ou seja, foi mais para Sul, para África e também para o Brasil. Porquê?

O Português é a sétima língua mais falada em todo o mundo, tem pelo menos 200 milhões de habitantes. Do universo lusófono fazem parte os países africanos: Moçambique, Angola, São Tomé, Guiné e Cabo Verde. Neste universo inclui-se ainda o Brasil (que é só por si um continente), Timor Leste e Portugal. A Galiza também podia fazer parte desta comunidade lusófona. O universo da lusofonia é uma área onde a Natália Luíza e eu investimos bastante, interessa-nos a importância única da língua portuguesa nos diferentes sotaques, nuances, ou seja, nos diversos ritmos, filtros ou vibrações. Torna-se muito sedutor para uma companhia que gosta de apostar na criatividade e na originalidade. A Natália Luíza faz uma pesquisa sobre literatura (romances, contos, poesia) sobre autores que nunca foram levados a cena. Temos um espectáculo na forja sobre este universo.

O que se aprende ao percorrer o País (itinerância nacional) e o Mundo (itinerância internacional)?

Dá-me gozo a itinerância, conhecer um lugar aqui ou lá fora onde sempre sou estrangeiro como artista ou artesão teatral. Nestas deambulações tenho imensas coisas que me ensinam, ajudam a criar e renovar o meu processo criativo. Estou sempre pronto para fazer a mala. Claro que são dois universos diferentes. Cá dentro nós fazemos bastante itinerância, já fomos a cerca de 60 cidades e vilas e até mesmo aldeias. Muitas das quais repetimos. Entre portas, no nosso País temos a proximidade da língua que tem uma relevância muito particular uma vez que tem influência na descodificação cognitiva. Esta é imediata e portanto tenho de ligar outros sensores para me distrair. Portugal de Norte a Sul é muito diferente na maneira de receber, na reacção do público. Ao nível cognitivo a imediatez da língua faz com que a recepção do espectáculo seja diferente do que se for no exterior a não ser por exemplo em Cabo Verde ou no Brasil. Sobretudo o gozo que me dá artístico e profissional é perceber as nuances que tenho que introduzir no próprio espectáculo quando mudo de lugar.

O Teatro Meridional recebeu 22 prémios a nível nacional e nove a nível internacional destacando-se o Prémio Europa Novas Realidades Teatrais, 2010. Qual a importância desta distinção?

Os prémios procuro encará-los com inteligência, a nível da relatividade que têm. Tento olhar sempre além, no obstante o reconhecimento que há no nosso trabalho é sempre como um incentivo para se continuar. Promovem algum senso de responsabilidade. A nossa Companhia foi distinguida 22 vezes, 9 das quais internacionalmente, recebemos dois prémios da crítica, que é o prémio português mais importante, e recebemos em 2010 – o mais importante prémio europeu – o Europa Novas Realidades Teatrais, 2010, que premiou o percurso da companhia.

Estes prémios podem ser um pau de dois bicos, eu enquanto artista tenho de começar um espectáculo como se fosse do zero, evitar as repetições, o que funciona e procurar a originalidade mais cruel (aquela que também não tem medo de falhar). Tal como dizia Samuel Beckett temos de continuar a falhar, falhar mais vezes, fallhar cada vez melhor. Neste momento da minha vida identifico-me muito com este conceito.

Definiste o teatro como sendo do “domínio do irrepetível”, falaste da “sacralidade da peça”, da “convicção de que o teatro é eterno na relação com o humano”. O que mais é o teatro?

Hoje em dia, como o Mundo está, é um local de esperança porque é um dos últimos espaços onde os homens se podem encontrar com os homens. Continua a ser um espaço onde se alimenta o sonho, a capacidade de pensar, de interligação de abrir portas, de ser diversificado. Permanece ainda como um ponto de encontro e tolerância, um local de esperança, de liberdade e de experimentação. O teatro tem esta mais-valia interna, de bastar-se por si só, como diz Peter Burke:” basta um homem a passar num determinado espaço e outro a observá-lo para o teatro acontecer”. Esta ideia é de uma força inquebrantável, faz-nos reflectir.

Qual a importância da cultura em tempos de crise?

A cultura em tempos normais é um salva-vidas, em tempos de crise é um quartel de bombeiros com médicos, bombeiros e paramédicos e helicópteros.

A crise é cíclica, há momentos que são de trevas e há momentos de luz. Um dia de chuva é tão bonito como um dia de sol quando acontece tal como é. Deste ponto de vista a crise pode ser vista como algo positivo porque nos encosta à parede e nos faz remeter para a sobrevivência que é também uma espécie de lavagem porque quando temos muito somos muito burgueses. A burguesia é necessária mas por vezes tem um hálito estranho, não muito transparente.

A cultura em tempos de crise é religar, reemergir. São tudo conceitos que o teatro em particular e as artes em geral são alimentadores natos e portanto a cultura é essencial em qualquer sociedade. Então em tempos de crise é vital.

“Os portugueses são um povo passivo e reactivo, reactivo mais tarde, porque não tem a prática de ser activo, mas somos um povo sonhador” é uma afirmação tua. Neste momento o sonho é importante?

Neste momento é fundamental não deixar que matem o sonho, é essencial estarmos alerta em relação a estes senhores que têm muito mais poder do que deviam ter. O importante é que estes políticos saiam dos lugares onde estão. Neste momento os senhores que estão a mandar são perigosos para a subsistência da alma portuguesa. Não estou a falar do sonho porque muito dificilmente se mata o sonho de um povo como o do povo português. Um sonho que quando não havia nada nós fomos descobrir o mundo. Vê-se a força da poesia deste povo. Somos um povo único, fantástico. Eu acredito quase de uma forma sagrada em nós. Muito dificilmente nos tiram o sonho mas moem e moem; temos que acordar e ser mais activos. Temos de acordar. “Acordai” é aquela célebre canção do Fernando Lopes Graça.

O nosso povo tem uma raça muito especial, que é lento a reagir mas quando toca a valores essenciais da humanidade reagimos em bloco como foi aquela manifestação de quinze de Setembro em que estavam pessoas de esquerda e de direita. Não obstante a cor política reivindicavam o respeito pelos valores essenciais, o respeito pela dignidade humana. Ao contrário do povo espanhol que é um povo solar, activo, reactivo e não é passivo. Nós somos passivos, maternais, acolhedores e chegamos sempre cinco minutos atrasados. Temos de fazer um clique na nossa atitude global como povo.

O Mundo está diferente?

Actualmente está num momento privilegiado em termos de pensar a humanidade no sentido de pensar paradigmas para o bem-estar social. Temos situações que não têm mais espaço para existir, é estimulante pensar o que será o homem do amanhã.

Neste momento estamos a atingir um estado de maneira de ser e de estar do homem num extremo que já não mais volta. Como por exemplo este jogo de alguns políticos que roubam escandalosamente. Surge como inevitável uma mudança.

Escolhe momentos marcantes na sua vida como actor

Sempre que subo a um palco é marcante para mim. Não só a estreia das peças. O ser actor para mim é sempre uma viagem, cada peça faz parte de um percurso que eu escolhi para descobrir o mundo e que faz parte da minha maneira de estar. Acabo por ter um olhar teatral sobre o mundo. Se escolhesse um momento seria o dia 31 de Março de 1998 quando regressei aos palcos depois do meu AVC (que me afectou do lado direito) com um espectáculo “ Ñaque ou de Piolhos e Actores” no Festival dos 100 Dias da Expo 98 no Centro Cultural de Belém com o meu amigo Álvaro Lavin que teve a generosidade e genialidade de incorporar uma limitação física na sua personagem precisamente no lado oposto, do lado esquerdo. Estávamos só os dois em palco e esse momento foi fantástico.

“O Mundo todo é um palco/E homens e mulheres simples actores/Que nele entram e saem/ cada um a seu tempo”…. Como comentas esta citação de William Shakespeare?

Como se na realidade o teatro fosse um espelho do mundo. O teatro também é um espaço público. Vêm ao teatro para ouvir histórias, nós gostamos de histórias como as crianças, é uma questão de sobrevivência, é um espaço para alimentar o sonho, é um espaço de criatividade e de imaginação. Como se a imaginação fosse vital para a nossa sobrevivência e a criatividade fosse vital para a criação do amanhã.



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