MIL

MIL – LISBON INTERNATIONAL MUSIC NETWORK (01-02.06.2017)

Espalhado por meia-dúzia de salas na zona do Cais do Sodré, foi com o propósito de celebrar e promover, em especial internacionalmente, a nova música portuguesa que o festival MIL aterrou no riquíssimo calendário de ofertas festivaleiras do nosso país. Não tendo tido oportunidade de assistir às diversas conferências que o MIL organizou, com participantes de luxo, foi com uma suculenta grelha de concertos pela frente que rumámos ao referido quarteirão na passada Quinta e Sexta-feira.

Desafortunadamente não conseguimos comparecer à prestação de Momo, a primeira que tínhamos em vista, onde o brasileiro terá aproveitado para apresentar os novos temas do seu disco recém-editado. Devido a este percalço o primeiro destino foi a sala do B.Leza, onde brilharam os First Breath After Coma, que explanaram as suas complexas composições de forma notável, demonstrando que são um dos maiores exemplos de bandas que já deviam ter maior peso além-fronteiras. Ainda que partindo sempre de de permissas post-rock, o colectivo leiriense não fica confinado a tal género, deambulando por outras paragens do rock e também da electrónica. O quinteto teve a oportunidade de chamar ao palco David Santos (Noiserv), um dos convidados especiais do disco “Drifter”, para participar no tema «Umbrae».

Mantivemo-nos pela sala à beira-rio para escutar o autorádio de Benjamim, que aproveitou a amplitude do local para apresentar uma versão mais rockeira dos seus temas. Houve inclusivamente tempo para com um par de temas levantar o véu da tour que se segue onde irá promover o disco “1986”, lançado há poucos dias, produto da joint-venture com o britânico Barnaby Keen. Uma suada e inspirada prestação de Luís Nunes e seus comparsas.

Era altura de rumar ao Sabotage, onde ainda tivemos oportunidade de observar a recta final da actuação de Marvel Lima, enquanto o Musicbox rebentava pelas costuras para ver Capitão Fausto, como seria de prever. O quinteto de Beja não desiludiu no desenrolar das suas deambulações psicadélico-tropicais, com elevado pendor instrumental.  Permanecemos no rock n’ roll club do Cais do Sodré para assistir à explosiva performance dos White Haus, feita à base do trabalho editado no ano passado, “Modern Dancing”. Apesar de diversas falhas na gestão do som dos diversos instrumentos por parte da mesa, João Vieira conseguiu ainda assim retirar a cavilha da granada e proporcionar uma explosão de dança numa sala que foi enchendo progressivamente. Os ritmos são sempre bastante contagiantes e muita vez enriquecidos com refrões altamente melódicos e jogos de vozes bem conseguidos.

O facto de ser Quinta-feira fez mossa e, após as 2h, as salas que visitámos encontravam-se bastante despidas de público. No Musicbox ecoavam as batidas de sabor étnico de Izem , mas em registo de DJ, pelo menos durante os parcos minutos que por lá ficámos. No Tokyo deu para registar brevemente a alegria contagiante de Leska. A dupla francesa, formada por Les Gordon e Douchka (que actuaram igualmente a solo naquele palco), concebe uma electrónica bem pop, pincelada aqui e ali com o violoncelo de Gordon. Antes de recolhermos aos aposentos, espreitámos ainda o Roterdão onde o DJ Theo Werneck rodava um tema inusitadamente foleiro (talvez tenhamos entrado numa altura menos inspirada) que nos fez sair de imeditado.

No segundo dia os festivaleiros que esgotaram o MIL enleavam-se no Cais do Sodré com a multidão afecta a Guns n’ Roses que movimentava-se em direcção a Algés. O céu estava ainda claro quando descemos à cave do Roterdão para assistir ao concerto de Cave Story, auto-intitulados ad-hoc “Guns n’ Roses das Caldas da Rainha”. Pena que o espaço fosse realmente demasiado exíguo para a força que a sonoridade da banda apresenta, ainda que permitisse reconhecer a qualidade deste power trio que habita entre o post-punk,o indie e o lo-fi.

Ainda antes do final desta actuação caminhámos em direcção ao B.Leza, de modo a não perder pitada daquilo que You Can’t Win, Charlie Brown tinham para oferecer. E este é outro exemplo clamoroso de banda que devia ter extravasado fronteiras com êxito. As composições desta superbanda são alinhavadas ao pormenor, sempre com uma qualidade acima da média,  com constantes mutações e diferentes camadas a revesti-las, por entre guitarras, teclados e sintetizadores. Factores que incrementam sempre  valor às mesmas, não apenas para encher. Com o trabalho de estúdio do ano transacto “Marrow” em destaque, o sexteto assinou uma performance extremamente sólida. Um abraço especial ao Rogério (ndr: private joke).

No mesmo palco atracaram seguidamente Medeiros/Lucas, com o seu navio oriundo dos Açores repleto de mercadorias folk, cada vez mais frescas e sofisticadas, embora preservem simultaneamente o aroma a terra e mar, como desde cedo nos acostumaram. Como nenhum navio avança sem casa das máquinas, o duo original Carlos Medeiros e Pedro Lucas virou entretanto quarteto, e com o acompanhamento de teclas/programações e bateria/percussão continua a debitar poesia pura embalada pela guitarra cada vez mais inventiva de Pedro Lucas. Em «Corpo Vazio» contaram com a presença de Selma Uamusse, que participou na versão de estúdio que faz parte do último trabalho da dupla,  “Terra do Corpo”.

A referida intérprete moçambicana seria o próximo nome a apoderar-se do palco do B.Leza, onde optámos por permanecer. O atraso que foi-se registando neste local levaram-nos a modificar a rota planeada inicialmente, sem que no entanto a qualidade do recheio tenha saído lesada. Quem nunca está atrasada é a energia de Selma, cujas actuações assemelham-se a um shot de vitamina A, B, C, D, E e K. Por entre o manancial de influências das múltiplas correntes musicais africanas, em especial as moçambicanas, houve ainda tempo para relembrar a igualmente poderosa Nina Simone e as palavras da saudosa Maya Angelou. O concerto terminou com um grupo de espectadores em cima do palco a mostrar os seus melhores passes de dança, resultado do desígnio sempre presente de Selma estreitar o espaço que a separa da audiência. A noite prosseguiu com a Banda B.Leza a fazer gingar, como sabe, os corpos presentes.

Cabe sumarizar que o MIL montou um excelente trampolim para a nova música portuguesa, tal como se proponha, com uma amostra sónica deliciosa e variada, salas geralmente bem enquadradas, servindo público atento e que respondeu em peso. Merece portanto que tenham havido agentes do meio com ouvidos bem sintonizados para que estes valores quase todos bem firmados por cá, pelo menos na cena mais alternativa, que possam catapultar o som nacional contemporâneo para outras latitudes.

Que o empenho perdure para futuras edições!



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