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Milagres

"Glowing Mouth" não é mau: é um álbum competente.

Das bandas de Brooklyn, cada vez menos surge a revolução ou o sabor de novidade, por mais pequeno que seja. “Banda de Brooklyn” tornou-se uma marca que, se não é registada, produz obras muito semelhantes entre si; no borough mais in de Nova Iorque, lá onde os hipsters moram, há muito que se abandonou o espírito aventureiro que comandava uns Gang Gang Dance ou uns TV on the Radio. Ao mesmo tempo, abrangendo a generalização, poder-se-á falar de uma estagnação desse género que não o é: o indie cristalizou-se numa música para trintões de “bom gosto”. Na música dos Milagres, muito adulta, é complicadíssimo vislumbrar uma réstia desse espírito de antanho; e é facílimo encaixá-la na citada “normalização”.

“Glowing Mouth” não é mau: é um álbum competente; tem canções bem estruturadas; é bem tocado; tem as influências certas — Arcade Fire, Wild Beasts, Grizzly Bear —; tem um certo gosto pelo dramático, pelo teatral (o falsetto do vocalista Kyle Wilson, que escreveu as letras quando estava acamado após um acidente de montanhismo) que o salva da mediana anunciada. Mas não provoca a mínima excitação, o mais leve arrepio, nada. Apesar de ser um primeiro álbum, soa a terceiro. Não se ouve nem a exuberância adolescente de uma primeira obra nem o desejo de mudança de uma segunda, antes cansaço e uma algo paradoxal desistência. Até em termos de influências, os Milagres parecem ater-se aos álbuns de consolidação das suas bandas preferidas: muitos sintetizadores, batidas muito sisudas e pesadas, o pendor para a grandiloquência — às vezes, pedia-se que levassem esse desejo do épico às últimas consequências; melhoram quando mais se aproximam, como em «Gone» ou em «Doubted».

Se algum dia o forem, os Milagres serão lembrados como uma entre milhentas bandas que jogaram o campeonato da música indie e não chegaram a lado nenhum, servindo apenas para demonstrar como outras bandas foram influentes. É pouco.



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