Mind da Gap | “Regresso ao Futuro”

Mind da Gap | “Regresso ao Futuro”

Os dinossauros do hip-hop português estão vivos e recomendam-se

“Regresso ao Futuro” (2012, Meifumado Fonogramas) é oportunidade para os Mind da Gap, gigantes do hip-hop português, darem dupla prova de vitalidade: não só de si mesmos, enquanto banda com já quase 20 anos de bagagem, mas também do hip-hop português, enquanto género musical com relativa penetração na indústria discográfica portuguesa.

Fundamental para esse atestado de frescura e qualidade é o sumptuoso trabalho de Serial, que, por estes dias, só tem em Samuel Mira alguém capaz de rivalizar consigo na produção de beats. Embora tenha dito, em entrevista à RDB, que o lema na produção foi keep it simple (evitar overproduction), o certo é que é indisfarçável a mestria que perpassa a composição de todo o álbum, onde os arranjos fazem sublimar a genialidade na escolha de cada drum, de cada sample, de cada synth. Claro que o talento de Serial não é novidade para ninguém – depois dos primeiros álbuns, caracterizados por beats mais austeros, “Edição Ilimitada” (2006) e “A Essência” (2010) indiciavam já o rumo opulento e melífluo que os seus beats haviam de tomar. Ainda assim, temos para nós que, com este álbum, o produtor portuense passou definitivamente para outra dimensão, outro campeonato. Sem querer entrar no discurso da galinha do vizinho, não podemos deixar de notar que, trabalhasse Serial nos EUA, e era vê-lo a compor batidas para Kanyes e Lamares.

Serial também disse à RDB que, durante o processo de composição, ouvia um pouco de tudo, e isso nota-se. Por esse motivo é que somos capazes de nos deixar levar pelo r’n’b mais meloso de um Teddy Pendergrass em «Nada complicado» (os coros do refrão, “eaaaasy”, são maravilhosos, e trazem-nos à cabeça as musas negras dos anos 80: Chaka Khan, Whitney, etc.) para, logo de seguida, pressentirmos, em «Vozes na Cabeça», o funk psicadélico de um George Clinton. «Vozes na Cabeça» é uma das grandes malhas do disco, onde, além do refrão viciante de Ace, o cruzamento entre os synths, as cordas e o scratch (Slimcutz) prova como a electrónica consegue penetrar no hip-hop sem ter que o converter em coisa rebuscada e maçadora (“minimalista”, “experimental”, no eufemismo de alguns). É palco, também, para Ace e Presto nos enganarem durante uns bons minutos, insinuando que se tratam de vozes “psicológicas” (no sentido de esquizofrenia) quando, afinal, o desespero é, aqui, o do português que, no momento actual de crise, não sabe o que fazer à vida (denunciado pelo sample que se ouve no final) – ou seja, a doença é grupal, própria de um País em neurose colectiva. De paranóia psi a sério fala “«Sónia» (não queremos arriscar se, numa metáfora engraçada, Sónia foi uma mulher que deixou a cabeça de um dos MDG em água), que se notabiliza pelos riffs de guitarra e acaba com um sample brilhante (“You should write a book! You should give seminars, all right, you’ll make millions of dollars!”) retirado da série americana “Home Movies”.

Falávamos em Portugal, e o estado de calamidade é igualmente audível no tratado do fim do mundo que é «A Noite Tá Lá Fora», beat sombrio (piano fúnebre em pano de fundo) resgatado às sonoridades mais antigas do grupo (na linha do que se ouve nos seus dois primeiros álbuns), onde Ace (grande refrão, novamente) e Presto, de “dentro” de casa e olhando lá para “fora”, traçam um retrato – ainda que um pouco simplista – de caos, depressão e desespero (teria sido bom convidar o rap gutural de Fuse para esta faixa). Portugal, mais uma vez, portanto. Mas a Europa, também.

Por outro lado, a sonoridade electrónica, agora envolta numa atmosfera industrial e computorizada, vem novamente ao de cima no portento que é «Este Beat», um tributo à importância do beat na cultura hip-hop.

Já muita gente falou dos ecos de Marcelo D2 e do seu samba-rap em «O Jardim» e não estavam enganados: a faixa, com a participação de (“Sua Alteza o Vagabundo”) Rey (a rima “é o patrão lá na aldeia porque é trolha na Fráaance!” é uma das melhores do ano), é um hino ao género musical carioca, e a cujo groove veraneante é impossível ficar indiferente, por mais que a letra, essa, não seja motivo para grandes alegrias (um retrato descomplexado do País corrupto, preguiçoso e displicente – curte lá o som, Merkel). Mas a influência brasileira não se fica por aqui: o bom gosto de Serial estende-se à bossa nova (o violão que se ouve podia ser de João Gilberto ou de Jobim), que se espraia pela lindíssima «Já chegámos», ensaio utópico de um novo mundo (uma “refundação”, como diria o outro) não só “civilizacional” (a redescoberta da paz, da cultura, do ambiente, enfim, do humanismo), mas, também, existencial, “relacional” – a entrada de Berna («Reflexologia», 2002), outro dos convidados, é magnífica: “Estou em casa com os meus, estamos finalmente juntos / à mesa ainda discutimos, mas agora com respeito mútuo / o pai já está mais calmo, a mãe não chora tanto, o filho cresce feliz / e nunca perde o encanto”.

Os MDG nunca foram muito prolixos no que toca ao amor (têm poucas faixas sobre o assunto), mas oferecem, em «És Onde Quero Estar», uma balada que apetece deixar em repeat por uns dias (óptimo refrão de Ace, terceira vez). Culpa, em grande parte, da brilhante participação de Sam the Kid, que, em pouco mais de um minuto, dá uma lição de como rimar – ele e Virtus são os únicos representantes em Portugal de Rakim: rimas internas, aliterações, diáforas, etc.. Deste modo confirmando, também, a sua apetência para escrever sobre amor, como, há tempos, disse em entrevista ao jornal i.

Numa altura em que tanto se fala da “nova vaga” de hip-hop do Porto (com direito até a chamada de capa na última “Time Out”, vejam só!), os Mind da Gap mostram, com “Regresso ao Futuro” – cujo sentido é, como já disseram, o de manter a identidade de sempre (do “passado”), posicionando-se, simultaneamente, nos novos tempos –, que o seu valor não se resume à ideia de que “a idade é um posto”. Alavancados pela freshness de Serial, os Mind da Gap constroem um álbum equilibrado, coerente e, mais importante, muito prazeroso de escutar. Quem duvidar disto, que oiça «Há Dias» (Mundo em grande estilo), uma séria candidata a melhor faixa do disco, onde Serial – e terminamos os elogios – sampla a guitarra portuguesa como só vimos Sam the Kid e os Macacos do Chinês fazerem.



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