Minus | “Distracções” (2012)

Minus | “Distracções” (2012)

Dentro da nova escola da Porto, há uma crew que tem dado a conhecer os nomes por onde o futuro do hip-hop nacional vai passar

Primeiro, foi Deau. Este ano, Virtus. A nova escola do Porto, responsável pelo que de melhor vem sendo feito pela mais recente geração do hip-hop português, tem estado imparável nos últimos tempos. A mesma escola, note-se, que já havia revelado ao mundo nomes como Berna (embora este esteja também ligado, indissociavelmente, a veteranos como Mundo ou Né, dos B27), Keso ou Enigma.

Este ano, porém, mais do que a cidade do Porto, foi uma crew, em particular, que, qual caixa de pandora, se abriu ao público português, revelando artistas com “A” grande. Em Janeiro, Virtus lançava “UniVersos” (onde o próprio Minus tem uma participação, em «Modos»), álbum de um nível que nem a estreia de Sam the Kid almejava. Agora, é Minus, que, com “Distracções”, volta a pôr nas bocas do mundo a AMRCrew – nome do colectivo de jovens rappers e produtores do Porto que tem vindo a inflamar o espaço hip-hop com doses cavalares de bom gosto nos beats e nas rimas. Jovens que, tendo crescido com o hip-hop nos ouvidos, o tomam, hoje, já não (apenas) como música de combate – como é característico da primeira geração de rappers portugueses –, mas como verdadeira expressão artística, sem complexos por não serem “das ruas” ou não fazerem música necessariamente, ou apenas, “anti-sistema”. É um fenómeno próprio do amadurecimento do hip-hop, e que há muito ocorre noutros países onde o género tem raízes mais antigas (Inglaterra, França e, claro, EUA).

Lançado em Agosto, o EP, disponível para download gratuito, tem a chancela independente da 6 Sentido (editora umbilicalmente ligada à própria AMR), a mesma que editou Virtus. No capítulo das colaborações, o próprio Virtus dá uma perninha no rap na belíssima – a nossa predilecta, dizemo-lo já – «Sobes e Desces». Foi ele, aliás, o responsável pela mistura e masterização do EP, no qual se contam, ainda, as participações de DJ Crava (scratch) ou Paulinho, que também figuravam em “UniVersos”. Como se vê, toda esta rapaziada anda na sombra da AMRCrew, e o trabalho em grupo, num espírito de colaboração alargada, tem dado óptimos frutos.

O bom gosto de que falámos acima começa logo – para quem se interessa por estas coisas, como é o nosso caso – pela artwork do EP, onde o cubo de rubik (sinalizador, precisamente, do termo que dá título ao EP, mas também de “quebra-cabeças” ou de solidão) colorido em tons mortos da capa anuncia já o traço melancólico e soul que enforma todo o EP.

Com cinco faixas, a produção ficou praticamente toda a cargo de MrDolly (outro heterónimo do próprio Minus), tendo apenas «Juntos ao Luar», o primeiro single a rodar na net (com videoclip), ficado nas (sabedoras) mãos de Virtus. Do princípio ao fim, “Distracções” respira jazz por todos os poros e o sample inicial de «Antes da música» (será possível que o sax seja de um filme de Antonioni? quase jurávamos que sim…) diz logo ao que vem: teclas, saxofones, metais e o bombo e a tarola utilizados com pinças (entenda-se: muito, muito smooth) serão os elementos que nos acompanharão nesta grande e melíflua distracção.

E porque estamos em família, também em Minus encontramos o rap introspectivo e poético (pejado de imagens e metáforas) que é timbre do seu compagnon de route, Virtus. Isso é visível em faixas como «Antes da música», declaração de amor à música onde o portuense se debate sobre o seu percurso artístico e o modo como devemos encarar as nossas ambições. Não resistimos a transcrever este belíssimo (ainda que extenso) excerto: «Depois da música / as coisas complicaram-se / o tempo agora é escravo de uma inércia enquanto os dias se enganam / já alguns singraram e eu mantive-me atento / nem sempre achei alento no que invento / e era assim que ia escrevendo / sem razões ou motivos para sentir falta / de correr o mundo e voltar a casa com uma mala / talvez seja a inspiração ou algo próximo do declínio / a ambição de ser um óptimo indivíduo?».

Com um beat noctívago e uma batucada febril, «O ensaio», tema em modo acusatório sobre os wannabe no meio, é palco para Paulinho brilhar com rimas lúcidas e assassinas («Fazem Optimus Discos quando os discos não estão óptimos») e deixar um agradecimento aos pais da cultura («Obrigado aos de 70 / pelos de 80 hoje podermos / dizer o que temos a dizer / doa a quem doer»).

A escolha de «Juntos ao Luar» para primeiro single não é inocente – representa o lado mais social consciousness no rap de Minus, que compõe um comovente tributo – escrito numa hipotética primeira pessoa – àqueles que, pelas razões mais diversas, fazem das ruas a sua casa de todos os dias. Em tempos como os nossos, onde, todos os dias, se agrava o número de sem abrigo, vale a pena escutar com atenção as suas palavras. Não há grandes respostas ou soluções moralistas – Minus prefere o genuíno caminho da Arte, o da reflexão profunda e descomprometida.

«Sobes e Desces», a melhor malha do EP, brinca com o trocadilho que lhe dá nome, reflectindo entre o fenómeno físico da gravidade e os rumos que, analogicamente, digamos, a vida toma (“subir” e “descer” na vida, e o papel de alienação do trabalho nesse vaivém): «Enquanto a lei da gravidade nos segura / Sobes e desces, sobes e desces / sobes e desces por certezas e mentiras / sabes e desces, sabes e desces». É, provavelmente, a faixa onde a poética de Minus mais se notabiliza, potenciada pela doçura de um beat em que a atmosfera jazzística se funde com a utilização, quase infantil (no melhor sentido possível), de metais enternecedores.

«Distraído» é a faixa que fecha com chave de ouro este trabalho, e onde o refrão meloso de Ana Alvarez (outra das convidadas) namora com o órgão celestial e os scratches de Kid Flames (o género de scratch, melódico e cósmico, com que Slim Cutz, então um ilustre anónimo, brilhou no álbum homónimo, de 2009, dos Monstro Robot).

As cinco faixas de “Distracções”, acabam, pela sua qualidade, por saber a pouco, apetecendo dizer que o EP merecia mais dois ou três beats. Ainda assim, não é por deixar água na boca que o EP se deixa de afirmar como um dos melhores trabalhos a solo do ano no hip-hop português, motivo pelo qual nos resta esperar por um próximo registo – um álbum, quem sabe? – de Minus. Cá estaremos.



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