Minus

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Minus é um dos nomes mais cintilantes da nova fornada do hip-hop português. Em entrevista à RDB, o portuense fala sobre o seu primeiro EP, o seu lado de beatmaker e a AMR Crew, o colectivo que também nos deu a conhecer Virtus

Ainda este Verão, lançaste o teu primeiro EP, “Distracções”. Como te sentes ao seres convidado, pela RDB, passado tão pouco tempo, para pisar a Baixa-Chiado PT Bluestation no dia 2 de Novembro, sexta-feira, e, no dia seguinte, o Hard Club [festa Vicious Hip-Hop]?

É indescritível. Confesso que, na execução do EP, pensei várias vezes em como seria apresentá-lo ao vivo, e de que forma o faria. Estes convites são, de facto, a materialização dos pensamentos que tive, e embora tenha pensado numa ou outra forma de o apresentar, é a singularidade de cada um dos eventos que me leva a fazer uma “adaptação” à medida da ocasião. Mas, respondendo ao que me perguntas, fazê-lo em dois eventos tão exigentes como estes, com um trabalho tão recente, é espectacular e tem um grande significado.

O teu nome tem sido associado à nova escola do Porto, juntamente com os de Deau, Virtus, Keso ou Enigma. O que pensas que esta geração tem de diferente relativamente à geração que iniciou o género na década de 90?

Em primeiro lugar, tenho-os como referências. Depois, como em tudo, é normal haver um “refresh” de estilos e artistas. Mas, de um modo geral, estamos todos unidos pelo mesmo: fazer do hip-hop um movimento de respeito e uma escola motivada na partilha e crescimento!

Que feedback tens recebido? Uma simples incursão pelo youtube diz-nos que os elogios são mais que muitos…

O feedback tem sido incrível. Confesso que não esperava uma avalanche de críticas tão positiva. Estou plenamente satisfeito com o EP e sinto que as pessoas têm prazer em ouvi-lo.

Distracções é o nome do EP onde és letrista e produtor [apenas a produção de uma faixa, «Juntos ao Luar», ficou a cargo de Virtus]. Na primeira faixa («Antes da música»), fazes um balanço da tua vida antes e pós música. O que mudou? E porquê tão tarde o primeiro mergulho a sério no meio?

É uma questão de assiduidade. Eu recordo-me que, quando era um pouco mais novo, contava a amigos com quem partilhava uns beats e umas rimas que o meu objectivo era simplesmente fazer as coisas para mim, sem grandes planos de “conquista”. O balanço que faço no tema é sobre isto mesmo! Sobre o facto de, a determinada altura, ter sentido a necessidade de conviver mais proximamente com a música e de a oferecer à escuta de qualquer ouvinte interessado. Com isto, deparei-me com alguns conflitos, emocionais e outros que englobam muitas questões relacionadas com o tempo e a dedicação, que são de difícil gestão – esta [ser músico] não é a minha profissão e, como tal, a gestão teve de ser feita no sentido de que nenhuma, a música ou a minha profissão, saísse prejudicada.

«Juntos ao Luar» e «Sobes e Desces» são faixas com uma componente fortemente política e social. Como jovem e cidadão, como olhas para o País? E como artista?

Um pouco inquieto e assustado, confesso! Entendo de política apenas o necessário a fazer de mim um cidadão consciente, embora esteja sempre atento ao panorama. A minha forma de manifesto é a música! Como artista, vejo um País divido entre cidadãos que se acomodam, infelizes, e insaciáveis lutadores, sempre fiéis às mais justas causas.

Aderiste a alguma das manifestações de rua recentes?

Não, embora tenha um olhar atento sobre as manifestações que em grande número se têm vindo a realizar. Estou consciente do porquê e do que, infelizmente, nos conduz a elas, mas a minha preocupação e manifesto assume a forma musical, onde me pronuncio sobre atitudes mais facilmente corrigíveis.

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O teu rap notabiliza-se por uma evidente carga poética. Não achas que o rap, nacional mas não só, tem maltratado a poesia na última década?

Sem querer ser “frio” ou arrogante, reparo que, infelizmente, a exigência do público tem vindo a decrescer, no que à questão poética se refere. Consequentemente, surge a despreocupação por parte de alguns letristas, que se focam agora em novos métodos e técnicas. Preferências, descuidos? Ou novos públicos e novos ouvintes? Mas, na música, há espaço para todo o tipo de composições, e é nesta diversidade que a arte vive.

A tua música, reflectindo sobre temas menos explorados no rap, retira-o das prateleiras-cliché do costume: o gangster, a música de intervenção, etc. Para ti, o hip-hop moderno é uma genuína expressão artística? Já não faz sentido associar o hip-hop única e exclusivamente a música “das ruas”?

Como ouvinte e praticante de hip-hop, sinto que, artisticamente, me interesso mais por expressões alternativas ao cliché, embora não apague os conceitos de “rua” e “intervenção” do meu dicionário. Nunca achei que se devesse associar o hip-hop a nada específico. O hip-hop tem ganho vida a falar pelas ruas e a contestar ideias, mas também tem vindo a expor-se nas mais variadas situações como um “parágrafo” a ter em atenção. Já não faz sentido prender o hip-hop a hipóteses categóricas redutoras.

Há tempos, numa entrevista ao jornal i, Sam the Kid queixava-se de que, durante muito tempo, ao hip-hop português foi colado o rótulo de “música de intervenção”, mas que, quando a imprensa se interessou a sério pelo tema – aquando do fenómeno «Parva que sou», dos Deolinda –, ninguém tocou à porta dos rappers para saber o que pensavam. Rap ainda é intervenção, já não é, ou é muito mais do que isso?

Isso é, uma vez mais, uma categorização redutora. Para mim, o rap sempre foi mais do que isso, e será sempre muito mais do que isso! Os rótulos não deveriam fazer deste género algo unicamente capaz de exercer uma função, e a utilização deste género para serviços sociais ou pessoais deveria, na minha opinião, ser mais vezes exposto para todo o tipo de assuntos! Se reparares, qualquer noticiário de “crime” é sonorizado com temas de hip-hop, quando, na verdade, ele tem bandas sonoras para todo o tipo de notícias.

Tiveste algum tipo de formação musical?

Sim. Desde há algum tempo que estudo “Piano Jazz” na Valentim de Carvalho e sinto que essa formação tem sido relevante na minha procura e evolução. Penso que, quando nos sentimos limitados no que fazemos, devemos procurar alternativas amigáveis para uma satisfação musical ou uma abordagem nova sobre o que fazemos. Foi precisamente isso que fiz, e estou satisfeitíssimo. Não ambiciono ser o melhor pianista do mundo, mas sim ganhar mais conhecimento e maturidade.

A produção do EP respira jazz por todos os poros. Quais são os teus gostos nesse campo?

Em primeiro lugar, sou um coleccionador de vinyl, o que me faz procurar muitos discos de jazz, soul, etc. Esta procura tornou-se mais criteriosa e limitada, por questões de gosto, às décadas de 60 e 70, que considero como décadas douradas da música e onde podemos encontrar nomes como o Donald Byrd, o Freddie Hubbard, o StanGetz, Cal Tjader… etc.

Pode dizer-se que és um herdeiro do boom-bap jazzy da escola nova-iorquina? Que produtores mais admiras lá fora e em Portugal?

Sim, consigo enquadrar-me nesse cenário, mas não o quero tornar uma constante, pois gosto de me sentir livre para explorar outras coisas, como o vasto universo da electrónica. Costumo culpar, pelo lado positivo, uns senhores por aquilo que me motivaram a fazer: o Pete Rock e o J Dilla. Existem outros grandes nomes que aprecio, como o Premier, Madlib, Kev Brown, 20Syl, Elaquent, Flying Lotus, Diabise, Tokimonsta, etc.

Que método de composição utilizas? O beat primeiro e só depois a letra? Ou escreves por gosto, ainda antes de compores o instrumental?

Depende! Normalmente, surge primeiro o beat, mas não posso definir isto como sendo um método!

Enquanto produtor, assinas como Mr. Dolly. Tens algum projecto de instrumentais em mente?

Tenho em mente algumas possibilidades de fazer algo nesse campo, mas só quando sentir que os beats têm uma vida própria e que não são só uma base para as rimas. Uma das possibilidades será, em princípio, um álbum de instrumentais em conjunto com o Virtus.

AMR Crew é o nome do colectivo do Porto a que pertences, o qual reúne, além de ti, Virtus, Engima, Paulinho ou DJ Crava. Que valores e gostos vos unem?

A AMR é um colectivo de graffiti e de artistas de rua com o qual eu, os Enigma, Virtus, ou o Paulinho nos identificamos pela atitude, postura e conceitos sobre essas mesmas expressões artísticas.

Por sua vez, a editora 6 Sentido é a responsável pelo lançamento do teu EP e do álbum “UniVersos” (2012), do Virtus. Podes revelar-nos que outros artistas e projectos estão na calha desta editora?

O 6 Sentido conta também, orgulhosamente, com o EP “IntroVersos” (2008), do Virtus, e também o EP “À semelhança de quê” (2010), dos ActivaSom. Fazem também parte do 6 Sentido os Enigma, Caixa Toráxica, Xina, Abone e DJ Crava (DJ dos Enigma). Mas, para além de editora, o 6 Sentido é uma família que nasceu com o Virtus e cresceu com todos.

Depois de teres participado no álbum do Virtus, é ele que participa no teu EP. Mais do que a amizade [oiçam «Maneiras», faixa dedicada por Virtus a Minus], há uma cumplicidade artística e estética entre os dois?

Sim, existe, sem dúvida, um entendimento estético e consciente entre os dois. Claro que a amizade ajuda e enriquece o lado mais artístico, e desde que o conheci que partilhamos de uma personalidade musical muito semelhante! Costuma-se dizer que “o carro não se empresta a ninguém”, e, musicalmente, eu não confio as minhas “tarolas” a mais ninguém que não ao Virtus!

Para fechar: com que rapper português gostarias de gravar um tema?

Sem pensar muito, diria o Nerve. Somos MCs completamente diferentes, mas penso ser esse o motivo do meu estímulo ao imaginar um tema com ele. Quem sabe um dia não surgirá a oportunidade!



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