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ModaLisboa Freedom #4

É o culminar do evento de moda mais aguardado do país. Andrez, Marques’Almeida, Dourado, Pedro, Moura e Faísca apelidam o programa de encerramento do ModaLisboa Freedom. Porque tudo o que é bom acaba depressa, frases feitas à parte.

Os bastidores, aos quais a Rua de Baixo tem acesso, vibram de energia, vivendo-se um ambiente entre o ofegante e o descontraído – torna-se viciante observar todo este movimento. Perdem-se de vista os estojos de maquilhagem e a beleza dos reflexos em espelhos iluminados. Paira no ar um cheiro perfumado bastante ténue e o ruído dos secadores que tantas madeixas de cabelo vêem passar. Aqui fazem-se os sonhos de quem está sentado nas bancadas, acentuam-se perfeições e, no fundo, produz-se toda a imagética espelhada do outro lado.

RICARDO ANDREZ

O universo de Rock Hudson é homenageado nesta colecção. Os índios e a natureza contornam as criações de uma forma bastante exequível, gerando um wearable masculino com resultados muito apetecíveis ao olhar. Constam detalhes interessantes, como misturas de padrões maioritariamente quentes e peças longas (túnicas e casacos ao nível do joelho). Destaque para um poncho salmão com aplicações reflectoras e brilhantes, a peça-chave imediata da apresentação. A leveza dos tecidos, as cores bem demarcadas e o recurso a várias camadas (como collants com calções) trazem uma nova liberdade ao vestir. Andrez traz-nos uma lufada de ar fresco para o próximo Outono.

MARQUES’ALMEIDA

Partimos de uma flutuação conceptual – Marques’Almeida procura a sua identidade apresentando uma colecção jovem, cool e irreverente. Trata-se de uma continuação lógica das propostas de Primavera/Verão 2012, agora remetendo-nos para elementos naturais no seio de um ambiente suburbano conspurcado. As peças caracterizam-se claramente pela silhueta oversized, pelos desfiados na ganga com esporádicos detalhes amarelo ácido (que privilegiam as costas descobertas) e, aqui com algum destaque, pelas riquíssimas texturas de malhas mohair feltradas e surde com efeito desgastado. O calçado, em cunhas graves, plataformas acentuadas e com forros em pele de salmão, são um acessório certamente a ter em conta na próxima estação.

RICARDO DOURADO – “Rioters”

Numa estética subtilmente vanguardista e industrial, camuflada numa agressividade contida, a colecção de Dourado é o espaço de riots e anomia exasperada materializada no vestuário. Joga-se com a proporção em longas túnicas masculinas e braços ou ombros descobertos, a textura em acolchoados determinados e transparências ocasionais ou a silhueta com recurso a fechos dourados e vistosos bolsos exteriores. Os ombros alargam, as golas debatem-se e estruturas libertam-se ou aproximam-se, remetendo para uma desconstrução bastante propositada e pertinente. Nota especial para o uso de tecidos brilhantes e de cores intensas em padrões militares esbatidos ou para as sapatilhas de plataforma unissexo. São propostas de revolução, mudança e liberdade ilimitada.

PEDRO PEDRO – “Urban Mix”

Do workwear à couture é o desafio da colecção Outono/Inverno 2013 de Pedro Pedro. Denota-se o conforto e a operacionalidade dos outfits, que ao mesmo tempo vivem uma elegância inquestionável. Tudo isto se materializa em propostas demi-couture muito femininas, tweeds e brocados de brilho lacado, estampados fotográficos em tons florais ou blusões blue collar work que conferem um certo equilíbrio e fazem justiça ao desafio conceptual do criador. A conjugação de materiais tradicionais com acabamentos sofisticados confere uma personalidade própria à colecção, com cores do azul royal ao tijolo ou ao bege. Os acessórios complementam as propostas em perímetros bastante modernos, salientando o vigor de toda a mixagem.

ALEXANDRA MOURA – “Agri… Doce”

Sublinham-se antagonismos e manipulam-se dualidades, porque é disso que a experiência é também ela composta. No fim têm-se jogos de diferentes campos estéticos, das estruturas mais rígidas às românticas mais fluídas, da cidade ao campo numa união em tudo harmoniosa. No agri provamos as linhas sólidas urbanas, estruturas de negro ora mais leve, ora mais pesado nos seus diversos estados: lustroso, mate, seco ou sedoso. Em doce saboreamos o romantismo nos motivos florais que se assemelham a magníficas pinturas a óleo com um impacto além da primeira impressão. Aqui vê-se a vertente mais rural e mais suave da colecção de Moura, marcada por oposições que se reúnem numa silhueta cuidadosamente bipolar e, ainda assim, tão equilibrada.

FILIPE FAÍSCA – “Eu Luto”

O pesar e a mágoa do luto circunscrevem as ideias de Faísca. A colecção que encerra a ModaLisboa Freedom é, provavelmente, a mais bela, quer pela sua apresentação dramática e teatral, quer pelo requinte das propostas do criador. A silhueta estruturada e a persistência do preto, com algumas apostas no nude, cinza, verde e azul anil, num padrão folha tão bem concebido, geram peças que falam por si mesmas. Cria-se uma linguagem que se dilata em denotações de uma feminilidade chic e blasé nunca ela em demasia. Os vestidos, produzidos em materiais como a mousseline, o crepe georgette, o jersey de viscose, a renda de algodão, entre outros, adquirem um carácter singular provocando reacções de um arrebatamento merecido – os padrões dripping usados são um detalhe que só por si mesmo nos levariam a outros tantos espectros da estética.

A edição ModaLisboa Freedom diz-nos, entre inúmeros aspectos, que o público português vive a moda de forma cada vez mais fervorosa, num âmbito em que os criadores nacionais deram asas à sua liberdades criativa e provaram que são inesgotáveis as formas de pensar o mundo e projectá-lo naquilo que nos rodeia. Vestir não é somente usar vestuário – passa por nós mesmos a liberdade de mostrarmos aos outros quem aparentamos ser ou de obliterar aquilo que não somos mas podemos parecer. É nesta lógica relacional que devemos encontrar espaço para sermos nós mesmos sem senãos ou limitações.

Fotografia por Graziela Costa. Reportagem fotográfica aqui.



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