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Mogwai

Regresso a Portugal no dia 5 de Fevereiro na Aula Magna, em Lisboa.

O festival Paredes de Coura, em 1999, foi de revelação para muita gente. No último dos três dias do certame, uma então desconhecida banda escocesa subiu a palco para maravilhar muitos dos festivaleiros que ali estavam não apenas para ver os Guano Apes, cabeças-de-cartaz nesse dia. As memórias desse concerto aparecem sublimadas por exageros próprios do tempo, que têm o hábito de hiperbolizar os bons momentos em detrimento dos menos bons. Bem mais claras são, no entanto, as recordações de como a banda quase que foi forçada a abandonar o palco pela limitação do tempo, quando, claramente, ainda tinham mais para dar, assim como os apupos dos festivaleiros que aguardavam impacientemente pelos Guano Apes. Nesse mesmo dia, troquei a minha atitude de total indiferença para com a banda da Sandra Nasic por uma de ódio de morte.

Os Mogwai haviam-se formado quatro anos antes, em 1995, na capital escocesa de Glasgow, pelo guitarrista Stuart Braithwaite, o baixista Dominic Aitchison e o baterista Martin Bulloch. A eles juntar-se-iam o guitarrista John Cummings (que por vezes também se aventura nas vozes e nas teclas) e o baterista dos Teenage Fanclub, Brendan O’Hare, que apenas gravou o álbum de estreia da banda, “Mogwai Young Team”. Mais tarde, após a edição do segundo disco, ”Come On Die Young”, Barry Burns juntou-se oficialmente ao grupo; ele, que já havia tocado ocasionalmente com eles ao vivo, tanto ao piano como na flauta, fechando assim a actual e oficial formação do grupo.

Apesar de serem uma banda de guitarras, os Mogwai são um dos mais emblemáticos representantes do relativamente recente pós-rock, sub-género característico por utilizar instrumentos tradicionais para propósitos pouco habituais no próprio rock. Carregados por melodias complexas, feitas por camadas de guitarras com distorção, riffs de baixo e efeitos prolongados, os Mogwai são capazes de cruzar a mais tranquila paisagem sonora com cenários da mais desesperada fúria niilista, cheios de guitarras-doom. Os Mogwai são os mesmos que acreditam, simultaneamente, que a essência do pós-rock não é apenas capturar os sons pós-apocalípticos de um fim do Mundo, mas também os sons subliminais do nascimento do mesmo.

Apesar de raramente recorrerem aos extractos vocais, os Mogwai conseguem ser mais dinâmicos que muitos dos cantautores da nossa praça, que se esforçam por quererem dizer tudo e mais alguma coisa em meia dúzia de versos forçados e carregados de presunção. Provando que um som pode ser mais expressivo do que mil palavras, a banda escocesa consegue alternar os temas mais intenso-temporais, em territórios onde os Godspeed You! Black Emporor continuam a ser a referência, com a estrutura mais acessível do convencionalismo rock-pop.

Seis álbuns de originais depois – o último, “The Hawk Is Howling”, viu a luz do dia no ano que agora terminou –, os Mogwai são, actualmente, um dos expoentes máximos do pós-rock, citados como influência máxima dos mais excitantes nomes na área, dos Broken Social Scene aos Anticon. No entanto, antes de serem influência, os Mogwai também foram influenciados. Obviamente que os Slint, pioneiros do pós-rock, são um nome incontornável, mas é impossível falar dos Mogwai sem falar do shoegaze, dos Jesus and The Mary Chain, dos My Bloody Valentine, do pós-punk, dos Joy Division, ou dos Dirty Three. Também a experimentação sonora dos Sonic Youth ou mesmo dos Pixies, banda para quem fizeram a primeira parte na digressão internacional de 2004, são incontornáveis na música mais expansiva dos escoceses, assim como o sadcore pós-folk-indie dos conterrâneos Arab Strap.

Não deixa de ser curioso analisar os Mogwai na cena musical de Glasgow, que nos últimos anos tão interessantes bandas tem oferecido à música internacional. Provenientes de um país caracteristicamente calmo e sem mexericos mediáticos no universo musical, os Mogwai fogem à tradição folk que gente como Donovan havia deixado como legado, partindo para novas experimentações do género. No entanto, ao contrário dos já citados Arab Strap, dos Belle and Sebastian ou dos Sons and Daughters, o caminho dos Mogwai é traçado pela emancipação astral da projecção rock.

Depois da estreia em território nacional em 1999, os Mogwai já tornaram Portugal num ponto de passagem regular das suas digressões, tendo a última vez acontecido em 2005, durante o festival Lisbon Soundz, onde também actuaram os compatriotas Franz Ferdinand. Agora, o reencontro está marcado para o dia 5 de Fevereiro, no cenário bem mais acolhedor da Aula Magna, com o intuito de apresentar “The Hawk Is Howling”, o mais recente registo da banda. Tal como o anterior “Mr. Beast”, este disco também foi recebido com entusiasmo refreado pela crítica internacional, que foi unânime em reconhecer uma certa dificuldade em tentar reinventarem-se como pop atmosférico, talvez à boleia da influência que bandas como os Sigur Rós têm tido para com o pós-rock nestes últimos anos.

Talvez em resposta a estas críticas, os Mogwai têm no arranque do disco um par de canções que valem quase o próprio álbum. Apesar de ainda longe de épicos como «X-mas Steps» ou «Like Herod», o inicial «I’m Jim Morrison, I’m Dead» catapulta a banda para as suas raízes, dois minutos de piano trespassados pela guitarra, pelos sintetizadores e a bateria musculada, ultrapassando de vez os problemas com os crescendos que se haviam verificado no disco anterior. E, logo a seguir, «Batcat», uma bombástica explosão orgânica que troca os sintetizadores pelos riffs de guitarra. O restante do álbum é caracterizado pela tal linhagem pós-rock escocesa («Scotland’s Shame» será uma indirecta a quem? Gordon Brown?), mais etérea, mais cinemática e mais shoegaze.

O nome de baptismo da banda surge por influência das adoráveis criaturas do filme “Gremlins”, felpudos ursinhos que, quando alimentados depois da meia-noite, se transmutavam em pesadelos destrutivos. Em cantonês, a palavra também recebe a tradução directa de “fantasma” ou “demónio”. Apesar do guitarrista Stuart Braithwaite sempre ter afirmado que a escolha do nome não teve nenhum significado especial, o certo é que só este curto parágrafo diz mais acerca da música dos Mogwai do que grande parte do resto deste texto.



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