MONOS

“Monos”

a alegoria da guerra sem terra ou tempo.

“Monos”, o filme do realizador colombiano Alejandro Landes, deu que falar no cenário do cinema internacional e foi o candidato da Colômbia à edição dos Óscares deste ano, para além da nomeação aos prémios Goya para melhor filme Ibero-Americano.

Esse percurso não é claramente um acaso, já que a sua representação simbólica e a enorme qualidade tanto da fotografia como da banda-sonora fazem dele uma rara pérola, mesmo tendo em conta as aproximações a referências conhecidas.

Tem vindo a ser associado, não raras vezes, a influências provenientes de “O Senhor das Moscas”, a obra de William Golding ou, numa alusão ou homenagem muito mais óbvia, a “Apocalypse Now”, mas é preciso ter muito presente que “Monos” é obra em nome próprio que não vive de recortar e colar referências.

Em “Monos”, o contexto nunca é totalmente explicado e o espectador é convidado (obrigado?) a envolver-se com o grupo de crianças e adolescentes que sobrevive no seio de um constante conflito armado. A localização exacta não é declarada, mas as paisagens, alguns traços fisionómicos dos atores e as características do terreno podem remeter para a Colômbia e o seu quase eterno conflito e paz adiada.

O grupo que protege uma refém norte-americana sem nome, é designado indistintamente por Monos e trabalha para uma entidade obscura chamada Organização. Nenhum deles tem nome próprio e a refém também não e, portanto, todo o cenário em que se desenrola o filme sugere uma grande invenção ou alucinação colectiva.

A estética introduzida pela fotografia ajuda a intensificar a sensação tensa, estranhamente claustrofóbica e ao mesmo tempo onírica da trama, remetendo para uma realidade que parece existir apenas na cabeça de quem a vive. Será que estas pessoas existem mesmo nesta guerra que parece inventada? – numa alusão à já enorme falta de sentido do próprio conflito real.

“Monos” sugere um outro tipo de conflito no centro da sua trama e socorre-se desse contexto para falar da complexa teia das relações entre os adolescentes sem nome, a guerra é um pretexto para falar de relações de amor e amizade, intensas lutas pelo poder, pela identificação e pelo posicionamento dentro de um grupo.

Praticamente todos os atores são estreantes, excepto, entre outros nomes, Moises Arias e Julianne Nicholson, e interpretam um conjunto de personagens que são tratados pelos seus nomes de guerra, todos eles inspirados em personagens ficcionais. Rambo, por exemplo, é uma personagem feminina com nome de herói de cinema e sofre pelo destino dos que a rodeiam e Big Foot ou Pé Grande é o candidato a líder do grupo que se perde no conjunto, diluindo-se na sua própria raiva e ambição.

“Monos” é sobre uma guerra que parece a brincar, uma simulação levada a cabo por crianças que são guerreiras, mas não se apercebem na realidade do seu papel, estão demasiado ocupadas a tentar aproveitar as poucas coisas boas que conseguem agarrar ou a descobrir todos os seus próprios conflitos e identidades.

Em busca da infância que vão perdendo, não deixam de ser crianças que choram quando têm medo, que tentam perceber como funciona o seu corpo, que tentam criar laços impossíveis de manter, na tentativa de chegar a porto seguro e encontrar conforto e validação.

“Monos” é um belo e trágico exercício de cinema, uma cruel alegoria de um conflito armado que já perdeu o seu significado e se arrasta sem tempo e espaço. Uma guerra a brincar feita por crianças que deviam ocupar-se em construir um futuro diferente, mas aprendem o significado das suas vidas na constante insegurança de nem sequer saberem qual é o objectivo do conflito que travam.

A obediência cega a um líder sem questionar absolutamente nada sobre a existência por parte daqueles heróis trágicos faz com que o espectador se questione por eles. É nisso que “Monos” se destaca, pois para lá da aparência inócua envolta no hiper-realismo berrante que a sua fotografia lhe confere está um filme que se questiona e faz perguntas.

Pergunta-se qual pode ser o futuro de qualquer território quando as suas crianças estão hipotecadas, qual o sentido de o presente se encontrar estagnado e de a paz tantas vezes prometida ainda não ter chegado.

Ao mesmo tempo, “Monos” fala sobre a normal evolução daqueles mesmos intervenientes, as suas aspirações, os seus desejos individuais, a incompreensão e as suas próprias perguntas sem resposta porque apenas têm o propósito de obedecer a uma entidade cuja natureza não questionam directamente.

As crianças que pegam em armas no filme são só crianças e a guerra que travam é a de se poderem tornar adultos, não se apercebendo na totalidade de como a sua missão pouco clara lhes torna o caminho pedregoso e do horizonte vislumbram pouco mais do que uma névoa espessa. Nessa distância curta era suposto caberem os seus sonhos, mas as ansiedades e tensões mundanas e individuais farão questão de tentar tudo para quebrar essa barreira pela força das balas.

 

O filme irá estrear a 23 de Abril nos Videoclubes das Televisões e Plataformas VOD (FILMIN, MEO, NOS, NOWO, VODAFONE)



Também poderás gostar


There are no comments

Add yours

Pin It on Pinterest

Share This