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MONSTRA 2010

De assustador, só mesmo o nome. Entrevista com Alexandra Bobolina, estagiária e parte da organização do festival que comemora este ano a sua primeira década.

Não existem muitos festivais de animação. É um género por vezes ainda considerado menor, ou até infantil, e em todo o mundo não são muitos os festivais que lhe dão a atenção merecida. Sim, o “Up” abriu o festival de Cannes… mas é exactamente isso: nas salas de cinema ou há Disney, ou Pixar ou Miyazaki. Nada mais há de animação além disso. Mas, efectivamente, este é um género que se está a transcender e a modificar a si mesmo. O cinema de animação hoje em dia é tão livre e importante como qualquer outro; algo que se vê facilmente por filmes como “Persépolis” ou “Valsa com Bashir”. As regras que antes ditavam a animação, as suas limitações pelas quais muitos o consideravam de género para as crianças, desapareceram.

Hoje em dia, a animação é capaz de tudo.

Em Portugal, somos dos poucos a ter um festival (dois, aliás; também temos o de Espinho) dedicado a este género. Nenhum outro evento celebra este grande género cinematográfico como o MONSTRA, o festival de animação de Lisboa que já há dez anos mostra ao país os grandes nomes do género de todo o mundo. Sendo cada ano dedicado a um país, o desta edição é nada mais nada menos que Portugal. Por isso, muito se verá do trabalho feito por cá, frequentemente tão pouco divulgado, o que por si só torna o festival num evento imperdível. Mas além disso haverão ciclos dedicados a autores, estreias absolutas, e, mais uma vez, cá teremos também grandes nomes internacionais: Normand Roger, grande compositor do cinema de animação, estará presente e dará uma masterclass, tal como Bill Plympton, verdadeiro mestre (um verdadeiro deus, como Matt Groening bem o apelidou…), entre muitos outros.

Ao longo de dez dias o festival passará por vários locais, e não teremos só mostras de filmes: concertos, workshops, masterclasses… Enquanto que por cá vários outros vários festivais se limitam a fazer sessões cinematográficas, a MONSTRA faz o mesmo que o género que representa: quebra regras, transmuta-se. Ao longo de dez longos e atarefados dias, tudo será mostrado e feito, naquele que é indiscutivelmente um dos mais únicos festivais em solo nacional.

Alexandra Bobolina é uma jovem búlgara que se encontra agora a trabalhar na organização da MONSTRA, mas que já passou por outros festivais pela Europa, inclusive o mais importante festival de animação do mundo:  “Estive por duas vezes no festival de animação de Annecy, em França, onde trabalhei para a Associação Francesa de Cinema de Animação. São duas semanas de várias mostras de filmes, vários eventos… Em França eles celebram mesmo este acontecimento, é uma coisa muito importante para eles”.

De um festival para outro (“Gostava de ver os festivais de animação todos!”, diz a jovem a certa altura), de um país para outro, têmo-la agora dentro das nossas fronteiras e no nosso festival. “Após ter estado em França e ter estado tão em contacto com a forma como eles fazem os seus festivais e os seus próprios filmes, quis vir para um país como Portugal, um sítio forte em tradições culturais”.

Concedeu-nos uma interessante entrevista que rapidamente mais se transformou numa conversa informal e amigável (impossível tal não acontecer, dada a simpatia da entrevistada) onde pudemos falar não só da forma como funciona a organização do festival, mas também da própria importância do festival e, claro, da própria experiência que Alexandra, tem tido.

“Isto tem sido sem dúvida muito diferente dos locais onde trabalhei antes. Sinto-me muito mais perto de tudo, muito mais próxima do que se passa efectivamente” diz, com um sorriso. “É sem dúvida muito, muito diferente de um festival como o de Annecy. Aqui, nem sinto como se fosse trabalho”.

Mais tarde pude visitar o local onde trabalha a equipa, e pude confirmar: a equipa do MONSTRA é pequena, empenhada, e vê-los juntos é como ver um grupo de amigos que já se conhecem há muito (dez anos, talvez?) na criação de um festival que parece todo ele feito por puro amor à camisola.

“Surpreendeu-me imenso, porque mesmo sendo uma equipa pequena, eles conseguem fazer todas estas coisas em que pensam, concretizar todas estas excelentes ideias que têm. Isto também se deve muito ao Fernando Galrito, o director artístico… é uma pessoa muito inspiradora, que está constantemente a querer fazer coisas novas. Às vezes parece que não é possível tornar realidade as ideias que tem, mas eventualmente é isso que acaba por acontecer”. Efectivamente, quando cheguei aos escritórios, Fernando Galrito encontrava-se ao telefone a falar com o que me pareceu ser um músico, a discutir a sua actuação na MONSTRA. Mal acabou a chamada, cumprimentou-me e de seguida foi imediatamente falar com um outro artista que o esperava. Humilde e trabalhador, tal como toda a equipa.

Mas tendo em conta que a equipa é, efectivamente, pequena e com todos os eventos e tantos convidados, não será complicado gerir tudo? “Bem, acho que a equipa tem já uma grande experiência, e a divisão de tarefas e de responsabilidades é toda ela muito bem feita. Há uma grande coordenação, e todos têm responsabilidades, mas ao mesmo tempo cada um tem a sua própria independência; há um grande equilíbrio. E além disso, como muitos de nós são jovens, como eu, que chegam aqui já com alguma experiência e algumas ideias, a equipa assegura-se de que cada um aprende o que tem de aprender e faz aquilo que tem que fazer mas ao mesmo tempo, como já disse, dá a cada membro uma certa liberdade”.

O meu comentário, perante tais afirmações, foi simples: “Agora quero trabalhar no MONSTRA”.

Efectivamente, perante a forma como Alexandra se apresentou de forma tão alegre na entrevista e perante a forma como fala do local de trabalho, dá vontade. “Não sei mesmo o que farei a seguir a isto, mas se pudesse voltar a trabalhar com o MONSTRA, seria óptimo. É realmente um festival que te ajuda a entrar em algo que realmente gostas, e em estar constantemente em contacto e sempre muito próximo com tudo o que se passa porque, basicamente, toda a gente que trabalha no festival simplesmente adora o cinema de animação”.

Em termos de ambiente e organização, o festival parece único. E é, mas não só por essas características: “Acho que o festival é importante não só pelos grandes nomes do mundo da animação que consegue trazer, mas porque tudo se passa de forma muito amigável e informal. A forma como estas próprias estrelas acedem a vir, muito graças aos conhecimentos do Fernando Galrito… creio que todo este ambiente é algo que realmente transparece no festival em si, e que o próprio público, espero eu, vá sentir. As próprias mostras dos filmes conseguem ter uma grande mistura de público; adultos, profissionais, estudantes, crianças… toda esta amálgama consegue mesmo criar um ambiente informal e amigável, permitindo até ao público interagir com os convidados”.

Mas não são só estes convidados, estes grandes nomes (já disse que o Bill Plympton vem?) que estão presentes… os grandes novos talentos também são representados, e este ano existe até um júri de estudantes e uma mostra dedicada a esta mesma categoria. Algo único e exemplar, que ajuda a descobrir os novos talentos e a dar mais relevância e valor a uma grande arte, já que este é, para todos os efeitos, um evento que já tem um público base.

“O MONSTRA é óptimo e importante porque, sendo num local como Lisboa (a capital  e onde, imagino eu, se passam imensos eventos culturais), o festival é realmente importante para todo o país. A animação é muitas vezes considerada como um género menor, e acho que o festival ajuda realmente a mudar isso”.

E há a própria ambição e dimensão do festival. O MONSTRA decorre não só no São Jorge (o local principal), mas também no cinema City Alvalade, no Museu da Marioneta, no Teatro Meridional, na Gulbenkian… e além de todos estes locais, o MONSTRA terá vários eventos além de simples mostras de filmes, como já se mencionou aqui. Foram encomendadas obras de propósito para o festival, e a música também estará presente, tal como a dança.

“Acho óptimo que tentem fazer essas coisas.Tentar fazer tudo isto pode ser um risco mas, com dez anos, o festival consegue ser jovem e ao mesmo tempo ter já uma boa dose de confiança, e demonstram isso todos os anos tentando fazer algo único. Acho que isso é parte da própria imagem do festival. O facto de ter sobrevivido dez anos dá uma certa base e uma certa coragem que lhes permite correr estes riscos. As pessoas aqui são muito mais abertas a estas coisas”.

A Monstrinha, evento da MONSTRA onde são passados filmes que os pais podem levar os filhos a ver, resume por si só o espírito do festival. “Acho que é uma parte importante do festival, de qualquer festival até, mas principalmente num deste género. Desta forma as crianças podem ter acesso a géneros de animação que de outra forma não teriam, e desde cedo começam a ver coisas que as ajudam a perceber até onde a animação pode ir. Há filmes de animação que tentam verdadeirmente comunicar algo importante, e acho que é isso que a MONSTRA também tenta mostrar às crianças desde cedo”.

A MONSTRA acaba, portanto, por ser um festival também de formação. Não só com as masterclasses e os workshops, mas também com a ligação que cria com pais e filhos. Realizado por uma equipa pequena, custa a acreditar que tudo seja tão organizado e que tudo esteja pronto a tempo. Mas está, e o festival já tem até um programa definitivo.

Ao falar com Alexandra e depois ir com ela visitar a equipa, fica-se com a ideia de que é, efectivamente, um festival de amigos feito para amigos. Fazem o que bem querem, e têm-no feito ao longo de dez anos. E, ao que parece, é tão bom poder trabalhar no MONSTRA como é poder visitá-lo. Melhor que isso talvez mesmo só ter um festival de um género tão frequentemente esquecido a decorrer aqui tão perto.

O festival terá início dia 11 de Março.



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