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Invasão animada por Lisboa – Parte II

Terminou mais uma edição de sucesso da MONSTRA. Mais uma vez, Lisboa foi invadida pelo bom cinema de um género subvalorizado. Resumo dos últimos cinco dias.

Os últimos dias continuaram a dose de bom cinema a que nos habituou o festival. Cada vez mais escolas aderiram à MONSTRINHA, e cheguei a ter pessoas a perguntar-me o que se passava no Cinema City Alvalade para lá estarem tantas crianças de manhã. Efectivamente, em termos de público este ano parece ter, no mínimo, ter superado o anterior. As masterclasses com sala cheia, tal como as retrospectivas e sessões de competição, são sinais disso mesmo. A de Bill Plympton, por exemplo, praticamente encheu a sala 2 do São Jorge, mesmo apesar do horário (sete da noite). Até aqui, na retrospectiva de um autor que pouco tem de infantil, foram visíveis imensas crianças no público. O mesmo se pode dizer da que foi feita à Suécia que, apesar de tudo, em termos de qualidade foi a que deixou mais a desejar; curtas que, apesar de algum interesse, não conquistaram. Já as dos restantes países, no seu geral mostraram o enorme talento existente em cada canto do mundo.

Os maiores acontecimentos destes últimos cinco dias foram, no entanto, a masterclass de Priit Pärn e de Normand Roger. Priit é, simplesmente, dos mais criativos e complexos autores no cinema de animação actual. O realizador da Estónia usa uma animação de visual básico mas que mergulha a história em símbolos e metáforas; “Hotel E”, filme que passou na retrospectiva dedicada ao realizador, é talvez o maior exemplo disto. O seu mais recente trabalho, “Divers In The Rain”, viria a ganhar o grande prémio do festival. A sua masterclass debruçou-se sobre “Estratégias Criativas na Animação”; algo em que o autor é perito. O seu estilo de animação pode não ser dos mais impressionantes, mas aquilo que é retratado no ecrã é do mais criativo possível.

Normand Roger esteve também presente no festival e talvez tenha sido, juntamente com Bill Plympton, o nome de maior relevância e prestígio internacional que o festival nos trouxe este ano. Com décadas de carreira a criar bandas-sonoras para curtas de animação, o autor teve uma bela retrospectiva (apresentada pelo próprio, tal como foi com os restantes autores), e deu uma masterclass intitulada “A Música e o Som no Cinema de Animação”, onde falou com a eloquência mas acessividade de quem realmente faz disto uma vida.

“É sempre difícil fazer uma masterclass ou um workshop sobre estes temas: afinal de contas, é tudo tão subjectivo”, começou por dizer ao seu público. E é verdade; é necessário saber distinguir o necessário e o objectivo do subjectivo.E Roger fez isso mesmo, falando dos vários papéis que o som (não só a música) pode ter no cinema de animação. Mostrando algumas das suas curtas como exemplos (algumas delas verdadeiramente geniais, como a grandiosa “História Trágica com Final Feliz” – na imagem deste artigo – de Regina Pessoa), o músico ensinou algumas noções de como usar a música e o som para criar ambientes, tons e, claro, para contar histórias. “Por vezes o que interessa mais é mais a estrutura da música que esta em si; a forma como pode ou não dar uma noção de continuidade”. Lições dadas por um mestre, portanto. No final, Roger disponibilizou-se para responder a perguntas. A reacção foi entusiástica: quase uma hora de perguntas e respostas.

As secções de competição continuaram e com elas mais talentos revelados. Muita originalidade se viu, e até algumas ante-estreias de séries infantis que irão estrear em breve. Foi exactamente na última sessão de competição que vi aquela que foi talvez a curta que mais me ficou na memória: “Lost and Found”, já vencedora de um BAFTA. História simples e inocente de um jovem que encontra um pinguin e o quer devolver ao local de onde veio, a narração perfeita, o visual imaculado e colorido, e a trama toda ela de uma simplicidade e inocência tocante comoveram e colocaram um sorriso na face do público. Não ganhou nenhum prémio no festival, mas teria sido bem merecido. Magnífica obra de animação.

E, no último dia, chegou a sessão de encerramento. Com cinco ante-estreias e os prémios entregues pelos membros do júri, foi uma cerimónia que decorreu sem precalços, e com Priit Pärn a subir duas vezes ao palco para receber o prémio de melhor curta e de melhor banda-sonora para “Divers in the Rain” que, como Michaela Pavlátová bem disse, foi a curta mais complexa que o júri viu (e tal é, efectivamente, muito provável). “Cândido”, de Zepe, foi eleito a melhor curta portuguesa, e o produtor subiu ao palco para receber o prémio, com um misto de surpresa e satisfação, perante uma chuva de aplsusos (muitos deles obviamente de conhecidos do realizador). O público também teve direito a dar um prémio, e foi possível no final de cada sessão de competição votar numa curta; nesta edição, o vencedor foi “Passeio de Domingo”, de José Miguel Ribeiro. E, como o júri também tem direito, entregaram um prémio especial a “Der Da Vinci Code”, de Gil Alkabetz. Muitas vezes se houviram nomes franceses e portugueses, entre outros, e era óbvia a enorme presença de obras e autores de quatro cantos do mundo no festival.

Viram-se também algumas belas surpresas em primeira mão, como a nova obra de Bill Plympton em estreia europeia absoluta (esta tinha tido na semana passada a ante-estreia americana), a adorável “The Cow Who Wanted To Be A Hamburguer” (que Plympton mostrou também na sua masterclass), a ante-estreia de mais uma nova série infantil que estreará em breve, e excertos de obras que poderemos ver em breve.

No final, Fernando Galrito anunciou já a nova edição da MONSTRA, que decorrerá em Março do próximo ano. Já com um belo poster feito, foi feita a promessa de mais uma grande edição. No final da cerimónia, enquanto se aprecia o cocktail existente perto do bar e se ouve a música lançada pelo DJ, convive-se com quem se conheceu ao longo da edição, ou simplesmente com quem sempre se quis conhecer mas nunca antes tinha havido oportunidade. A festa continuou fora da sala, já com o festival encerrado (ainda que, no dia a seguir, as obras vencedoras passaram no Cinema City Alvalade), e espera-se, efectivamente, que esta continue também no próximo ano.

Mais uma vez, a MONSTRA foi um sucesso; desta vez, talvez até mais que nas restantes edições. Pelo meio de masterclasses, workshops e de todos os filmes vistos, muito se aprendeu e descobriu (tal como bem disse Flipe Duarte ao entregar um dos prémios: “Obrigado pela hipótese de conhecer este mundo do qual pouco sei mas que agora quero descobrir”). Novos autores, grandes obras, e a MONSTRA foi mais uma vez um verdadeiro evento, uma verdadeira experiência que mergulhou Lisboa no poder de um género que nem sempre tem o respeito merecido. Felizmente, graças a festivais e públicos como este, essa situação começa lentamente a mudar, e a MONSTRA é, ao fim de contas, não só um festival: é uma carta de amor ao cinema e a uma das suas mais belas vertentes.



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