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Invasão animada por Lisboa – Parte I

A 10ª edição da MONSTRA deu a conhecer os talentos nacionais e internacionais que “andam por aì”. Resumo dos primeiros cinco dias de Festival.

A MONSTRA é um reflexo do próprio género da animação em si: um transcender de barreiras e estilos. Veja-se, por exemplo, a sessão de abertura: o festival começou com “Aedificandi”, uma obra criada por cinco arquitectos sob encomenda do festival que mistura arquitectura, música e, claro, animação. Uma obra notável, mistura entre Animação em 3D, animação tradicional que chega a ser nada abaixo de poética, e um dançarino a interagir directamente com o que se vê no ecrã; ou seja, a animação elevada ao que, efectivamente, é: uma maravilhosa mistura de artes. “Aedificandi” é uma obra de interesse profundo feita de propósito para um dos mais únicos festivais de Lisboa; logo na sua primeira noite, o festival deu-nos algo único.

E o festival acaba por ser isso mesmo: um festival ele mesmo único no nosso panorama, e que ao longo de dez anos foi gradualmente crescendo até se afirmar como um dos mais prestigiados festivais do país. A sala cheia do São Jorge em noite de abertura bem o confirmou.

Este ano o país homenageado foi Portugal e a primeira noite reflectiu isso mesmo: belas curtas da década de 60, 70 e afins encheram a tela, num momento profundamente nostálgico que conviveu com momentos da mais pura beleza de animação. “Várzea”, obra de José Xavier a partir dum poema e música de Amando Servais Tiago foi um desses momentos; trabalho de uma fluidez imensa, com animação abstracta que cativa facilmente.

Seguiram-se curtas de tais nomes como Sérgio Luís, Servais Tiago, Artur Correia e Ricardo Neto, grandes nomes da animação portuguesa tanto do antes como do agora. Perante tais obras de animação das décadas de 60, 70 e 80 (e uma delas até dos anos 40), vemos bem a originalidade destes autores e, claro, a representação de uma herança pouco falada. Afinal de contas, o cinema de animação português sempre ali esteve: nós é que nem sempre olhamos.

Muitas destas curtas eram obras de publicidade, sendo profundamente divertidas e até irónicas. O público mais jovem riu-se do puro poder cómico das curtas. Ao falar com uma amiga minha mais velha no final da sessão, ela dizia com um sorriso na cara que ainda se lembrava de uma ou outra das curtas que foram passadas, e pude ver esse mesmo sorriso na face de muitos outros que abandonavam a sessão. A nostalgia certamente invadiu grande parte do público que nunca se restringiu a uma simples faixa etária (muito contente e orgulhoso terá ficado Fernando Galrito ao ver tantos pais com os seus jovens filhos, algo que se manteve pelo resto do festival).

Entre cada curta, ouviam-se os aplausos que apenas se podem ouvir de um público de festival (aqueles aplausos de pura satisfação), aplausos esses que no final se ouviram novamente em versão intensificada, com a saída de um público satisfeito que tinha à sua espera um bar e um DJ mesmo à saída da sala. Perante tais aplausos e tamanha recepção, adivinhava-se já o sucesso que esta edição do festival teria.

Nessa mesma semana passou aquele que era, talvez, a obra mais esperada do festival: “Mary and Max”, de Adam Elliot. Quem gosta de animação certamente conhece a famosa curta de animação que deu a Elliot um Óscar: “Harvie Krumpet”. Uma verdadeira pérola. Esse trabalho mostra um realizador de notável talento dentro do género, definitivamente confirmado com “Mary and Max”, filme magnífico que fez rir e chorar um São Jorge praticamente cheio. Apenas com uma ou outra falha na narrativa, que por vezes deambula um pouco (um problema minúsculo), “Mary and Max” foi do que de melhor passou pelo festival e, se estreasse nas nossas salas (algo extremamente improvável), certamente entraria em muitas listas de melhores do ano. Com as vozes de Phillip Seymour Hoffman e Toni Collette (Collette está optima, mas Hoffman está simplesmente genial) e o estilo visual em stop-motion já conhecido do realizador, este é talvez um dos mais notáveis exemplos do poder do cinema de animação nos últimos tempos. Repleto de humor negro e com uma dupla de personagens com a qual é impossível não sentir uma ligação, esta comovente história sobre uma australiana e um americano com síndrome de Asperger que estabelecem uma forte amizade através da troca de cartas é, ao fim de contas, uma comovente história sobre ligações humanas. Lindíssimo.

Foram precisas idas a vários locais para apreciar por completo o que o festival tinha para dar. O espaço mais agradável, além do São Jorge, foi talvez o Cinema City Alvalade (a MONSTRA também passou por algumas Fnacs, pela Gulbenkian, pelo Museu Nacional de Etnologia), onde puderam ser vistas algumas longas que não passaram pelo São Jorge. A sessão mais memorável foi talvez a de “Monstros Mutantes”, excelente filme de Bill Plympton, talvez o autor de maior importância e relevância internacional que passou este ano pelo festival. Plympton apresentou o filme e falou a um pequeno público (algo que era de esperar: a sessão foi às nove e meia de um dia de semana, num local que muitos ainda não conhecem, mas que ganha cada vez maior relevância na capital), que no final foi ainda ter com o autor para receber um desenho grátis e, caso desejasse, comprar um dos dvds que o autor tinha com ele.

Plympton é, afinal de contas, um cineasta profundamente independente: planeia os seus filmes para tentar que estes tenham o maior sucesso possível mas sempre, claro, sendo fiel ao seu estilo. E como caracterizar esse estilo? Simples: humor, sexo e violência. Aliás, duas das melhores e mais conhecidas curtas do autor têm como título “Sex and Violence” e “More Sex and Violence”, e são talvez das que mais representam a arte de Plympton. O autor esteve não só nesta sessão, mas também na bela retrospectiva feita à sua obra, com uma sala quase cheia a ouvir as palavras do autor e a brindá-lo no final com uma chuva de aplausos.

Mas, claro, Plympton estava cá não só para isto: foi ele quem deu a primeira masterclass do festival, apelidada de “Como Fazer um Filme Económico”, debruçando-se sobre a forma como um cineasta independente de animação pode sobreviver no mercado.

Plympton é um génio, e sabe bem o que faz. Cativante do início ao fim, presenteou o público (sala cheia) com a história de como tinha conseguido ter sucesso num meio onde a animação ainda é encarada de forma tão limitada. Mostrando curtas como exemplo (uma bela selecção, com alguns dos seus melhores trabalhos), afirmou que uma curta-metragem deve ser, obviamente, não só curta mas também cómica e barata. Ao longo da palestra, desenhou também inúmeros desenhos, com a perícia geométrica de alguém que faz isto há anos. Muito se aprendeu e, no final, a reacção entusiástica fez crer que o público tinha-se facilmente apercebido de um simples facto: Bill Plympton é um dos mais interessantes e mais relevantes mestres da animação contemporânea.

Esta masterclass foi, talvez, o maior evento de todo o festival. Afinal, Bill Plympton é Bill Plympton. Mas viram-se também retrospectivas nacionais (da animação portuguesa, da russa…) e de autores. Começou nesta altura a primeira parte da retrospectiva de Priit Pärn, autor que estava também presente no festival, onde deu uma masterclass e onde viria, também, a ganhar o grande prémio com a sua curta “Divers in the Rain”. A retrospectiva de Michaela Pavlátová decorreu também nesta altura, e esta esteve também presente na MONSTRA, tendo dado uma masterclass. Se a obra de Parn é essencialmente complexa e metafórica, a de Pavlatova é humana e igualmente profunda. Convidar ambos os autores foi, de certa forma, um golpe de génio; ambos dão uma perfeita noção de dois lados muito diferentes da mesma moeda.

Também a secção de competição (tanto a normal como a de estudantes) revelou novos talentos. Ao final destes cinco dias, o espectador apenas ficava com um desejo: voltar e ver mais.



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