Morrer

A grande revelação nacional do IMAGO 2006.

É a principal função de um festival de cinema: o de revelar e dar a descobrir novas cinematografias, novos autores e novas formas de expressão. Claro que depois há as sempre agradáveis retrospectivas, homenagens ou secções dedicadas a personalidades já bem conhecidas do mundo da sétima arte.

A edição do IMAGO deste ano não foi nenhuma excepção. Recuperou a carreira inicial de Clint Eastwood enquanto realizador, homenageou Alejandro Jodorowsky e Dave McKean e apresentou o trabalho de Nicolas Provost. Contudo, a parte mais importante do certame foi a apresentação do melhor cinema jovem do ano e a consagração dos melhores autores.

De entre a lista de vencedores, apenas um título português: “Morrer”, filme de Diogo Camões, que arrecadou o prémio para Melhor Filme Nacional Under 25 , deixando para trás os dois favoritos, “Rapace”, de João Nicolau, e “História Trágica Com Final Feliz”, de Regina Pessoa, que chegaram ao Fundão com um palmarés já bem recheado de prémios.

Apesar de inscrito na secção Under 25 (que, como o próprio nome indica, é direccionada a todos os realizadores com menos de 25 anos), “Morrer” é um documentário que aborda um tema bastante polémico – a morte. Apesar de noutras culturas ser encarada de forma diferente, para a civilização ocidental a morte continua a ser um tema tabu. Diogo Camões esqueceu todas estas restrições e realizou um documentário realista e bem forte, mas sem nunca perder a subtilidade ou enveredando pelo sensacionalismo, acerca do último estádio do ser humano.

Diogo Camões é estudante de cinema do 3º ano do curso de Cinema, na Universidade Superior de Teatro e Cinema. Apesar desta condição, Diogo Camões já iniciou o seu percurso no mundo da sétima arte, experimentando inclusive a realização, com a curta-metragem “Pós_”.

Depois de ter sido distinguido no Festival de Curtas-Metragens de Vila do Conde, “Morrer” foi a grande sensação do IMAGO devido à “forma seca, austera e directa” como representava “a realidade da morte”. Por outro lado, é ainda uma enorme vitória perante todas as limitações que o cinema encontra no nosso país, provando aos mais cépticos que não são necessários grandes meios para fazer um bom filme: apenas uma boa ideia, qualidade e muita força de vontade.

A Rua de Baixo foi conhecer Diogo Camões, um apaixonado por cinema que tem um futuro promissor na sétima arte à sua espera.

Quem é o Diogo Camões?

Nasci a 11-06-1984, em Lisboa. Desde que me lembro, sempre fui viciado em filmes. Devorava todos os filmes que podia porque tinha parabólica em casa e os meus pais nunca me impuseram restrições quanto aos filmes que podia ou não ver. A vontade de fazer cinema dever-se-á a vários motivos. O meu avô (Luís de Camões, como o outro) foi o primeiro correspondente da RTP em Angola e toda a vida foi fotógrafo. Como tal, sempre que passava férias em casa dos meus avós paternos era comum encontrar-me rodeado de material fotográfico, ampliadores e máquinas, o que despertou logo alguma curiosidade para a fotografia.

Quando tinha cerca de 10 anos, estava de férias com a minha mãe e ela queria ir ao cinema numa sessão da noite. Como não tinha onde me deixar, convenceu a empregada da bilheteira a deixar-me entrar num filme para maiores de 18 anos, garantindo-lhe que eu iria dormir durante a sessão. O filme era “O Silêncio dos Inocentes”. A minha mãe tapou-me com um casaco e, tendo em conta a hora tardia, achou que eu iria adormecer. Obviamente, vi todo o filme por uma fresta do casaco e foi nesse momento que fiquei irreversivelmente obcecado por cinema. Outro filme decisivo foi “JFK”, que vi vezes sem conta e, infelizmente, me levou a acreditar que queria ser advogado. Após 6 penosos meses na faculdade de Direito, anulei a matrícula e tomei conhecimento das candidaturas para o conservatório (Escola Superior de Teatro e Cinema).

Frequento agora o 3º ano do curso de Cinema. Durante o curso realizei uma curta-metragem de ficção (intitulada “Pós_”) com Canto & Castro e Patrícia Andrade, co-realizei uma curta-metragem de ficção (“KINE”) no âmbito do Canon HD Challenge e desempenhei função de Assistente de Realização três vezes, entre outras funções (como Director de Produção, Argumentista, Assistente de Som, Art Direction e Produção). O meu objectivo a curto/médio-prazo é o de experimentar o máximo de funções/áreas possíveis, pois acredito que apenas com um conhecimento aprofundado de todas as áreas da actividade cinematográfica podemos construir uma “carreira” minimamente sólida em realização.

Em que âmbito surgiu este projecto, “Morrer”?

O documentário “Morrer” foi realizado no âmbito dos projectos curriculares do 1º semestre do 2º ano (Seminário de Produção de Filmes).

“Morrer” é um documentário sobre um tema que ainda é tabu na sociedade ocidental – a morte. Porquê esta escolha?

Face à oportunidade de experimentar documentário, interessava-me abordar um tema que fosse o mais universal possível, algo que pudesse facilmente comunicar e fazer eco no maior número de pessoas. Queria trabalhar em algo que não se limitasse a um público restrito e que nada dissesse às pessoas na sua generalidade. Por outro lado, foi uma forma de eu próprio enfrentar esse medo que (julgo eu) partilho com todas as pessoas: de morrer. Ou a revolta que todos sentimos por tal ser um facto inevitável.

Perturba-me saber à partida que o tempo que tenho à disposição para viver e exprimir aquilo que é a minha interioridade é limitado. Revolta-me não poder seguir um curso de vida, uma identidade até ao fim e depois poder recomeçar tudo de novo, ser diferente, fazer novas opções e desbravar novos caminhos. Acima de tudo, é esse compromisso irreversível que vamos assumindo todos os dias em que acordamos que me revolta. Inevitavelmente somos forçados a fazer escolhas e construir uma “linha” com as nossas vidas, sem que nunca saibamos o que poderia haver de melhor, pior (ou apenas diferente) se naquele dia tivéssemos interpelado aquela pessoa em vez desta, tivéssemos estudado aquela matéria em vez desta… e por aí fora.

Foi muito complicado filmar na morgue e junto aos cadáveres?

O primeiro contacto, ainda na fase de pesquisa, foi uma experiência muito forte, já que se deu num hospital onde me permitiram que visitasse a morgue durante escassos minutos. Sem qualquer aviso prévio nem qualquer preparação dei por mim numa sala pequena com diversos corpos em macas e um funcionário que pouco ou nada falou, limitando-se a mostrar-me a sala, resumindo em duas ou três palavras o que fazia e acabando por dizer que eu tinha de sair, já que aquilo não se tratava propriamente de uma visita oficial e autorizada. Esse primeiro contacto foi de longe o pior momento de todo o processo, já que após o choque inicial não houve tempo nem oportunidade para que eu estabelecesse uma relação com aquele indivíduo, para que pudesse sair dali mais confortado pelo que ele me pudesse dizer ou partilhar. Foi tudo muito seco e violento.

Já durante a rodagem tudo correu de uma forma muito mais natural, não deixando obviamente de ser um processo duro e perturbante. A nível burocrático foi uma verdadeira epopeia para que conseguíssemos as autorizações e colaborações necessárias que nos permitissem aceder aos espaços e poder filmar. No que diz respeito ao trabalho de campo propriamente dito, sim, foi uma experiência inesquecível. Era muito complicado passar dias a fio rodeado de corpos, caixões e toda a parafernália de utensílios e objectos acessórios necessários.

Olhando retrospectivamente, arrisco até a dizer que pior era quando não estava em rodagem. Quando tinha de estar em casa a comer e conversar com a minha mãe. Ver televisão e fazer todas as pequenas coisas que fazem parte da rotina de cada um. Quando não estava nos locais a rodar, passava o tempo a pensar no que tinha visto, nos inúmeros relatos que tinha ouvido, nos odores, na textura dos corpos, no frio das câmaras frigoríficas, nos sorrisos calorosos das pessoas que lidam com a morte dia após dia. Frequentemente me perguntavam acerca da rodagem (a curiosidade mórbida é algo com que nascemos e não podemos evitar) e me perguntavam se “era nojento”, se “metia medo”. Em nenhum momento senti nojo ou medo, mas apenas um sentimento de profunda tristeza, vazio e inevitabilidade. E foi tendo sempre essa angústia em mente que orientei o documentário para o seu formato final: sem diálogos, sem efabulações, sem intervenções opinativas, enfim, sem tretas. Nada para além daquilo que se pode ver e experienciar.

Surpreendeu-o algo nesse mundo, que permanece tantas vezes nas sombras?

O amor e dedicação com que os funcionários do Instituto Nacional de Medicina Legal trabalham. A coragem com que aquelas pessoas lidam todos os dias com a morte, tanto com os corpos como com as famílias a quem têm muitas vezes que participar os óbitos, com quem têm de estar no acto de reconhecimento dos corpos. Mais surpreendente ainda, foi a confiança que essas pessoas depositaram em mim e partilharam comigo muito das suas vidas pessoais, sem quaisquer restrições em darem-se a conhecer. Acima de tudo, o que mais me marcou foi o quão enriquecedora e humana toda esta experiência se revelou e a vontade mais profunda e sincera de um dia, mais tarde, voltar a pegar no tema. Sem restrições curriculares e com liberdade total, para que possa então abordar as vidas de quem lida com a morte dia-a-dia.

No IMAGO, “Morrer” arrecadou o galardão de melhor filme nacional, pela forma como mostrava “a realidade da morte de uma forma seca, austera e directa”. Antes havia sido premiado também no Festival de Vila do Conde. Esperava estes prémios e estas distinções de alguma forma?
Sinceramente não pensei sequer que o documentário fosse aceite em festivais, já que, embora a minha intenção inicial fosse a de comunicar o mais universalmente possível, creio que o resultado é, para mim, quando o vejo projectado, uma experiência pesada na qual me sinto algo desconfortável. É-me complicado assistir a projecções do filme por um pudor que se foi instalando e não consigo explicar. Por isso, não, não esperava de modo algum que o documentário se “popularizasse” quando eu próprio tenho dificuldade em vê-lo. No entanto, isso talvez se deva ao facto inevitável de que, ao vê-lo, eu seguramente tenho uma experiência mais perturbante na medida em que cada imagem me alude para um momento muito concreto e ainda muito vívido na minha memória, o que torna a minha percepção do documentário algo distorcida e hiperbolizada. É bom saber que talvez o documentário não esteja tão pesado e inacessível como temi que estivesse.

Utilizou alguma obra ou autor como referência, durante a realização de “Morrer”?

Ainda na fase embrionária de apresentação de projectos, encontrei uma citação de Kahlil Gibran que se tornou o fio condutor de todo o processo “Vago e nebuloso é o começo de todas as coisas mas não o seu fim.” Embora tenha lido imenso sobre a temática da morte (desde uma perspectiva filosófico-existencial; religiosa e científica), evitei deliberadamente basear-me em qualquer uma dessas abordagens, deixando-me apenas influenciar pelas relações que fui estabelecendo com quem lida diariamente com a morte, ao invés de quem teorizou ou reflectiu sobre o assunto sem nunca o ter realmente enfrentado. Nesta matéria assumi uma postura muito empírica e creio que só tive a ganhar com isso.

Pode ser “Morrer” a prova de que para se fazer bom cinema não é necessários grandes meios e técnicas, apenas boas ideias e muita força de vontade?

Desde que estudo cinema que cedo me apercebi que a falta de “grandes meios e técnicas” é geralmente a desculpa mais vulgar para justificar a inexistência de uma verdadeira indústria cinematográfica em Portugal. Na realidade o que acontece é que a nossa produção cinematográfica padece de um extremo autismo agravado pela falta de humildade com que os ditos “auteurs” se propõem a comunicar com o público. A meu ver, tudo se resume a graves problemas de comunicação. Concordo plenamente que o essencial é sem dúvida uma boa ideia, um bom argumento e uma verdadeira e sincera intenção de comunicar com o público. Sem esta base, condena-se todo o esforço que se segue a um beco sem saída (ou reconhecimento por parte de uma micro elite intelectual, como lhe quiserem chamar). No que diz respeito à força de vontade também diria ser um factor fulcral já que o Cinema (especialmente no nosso país) existe essencialmente numa luta incessante com adversidades!

Antes de terminar, queres deixar uma mensagem a todos aqueles que sonham a vir a ser um dia realizadores de cinema?

Não tendo eu propriamente uma carreira que me tenha permitido usufruir de um conhecimento brutalmente proveitoso para qualquer aspirante a cineasta, apenas posso dizer o pouco (mas muito) de que tenho certeza: Tanto olhar para trás como temer o futuro é uma perda de tempo. Não vivemos actualmente num contexto socio-económico em que haja muitas profissões que garantam um futuro brilhante e despreocupado. Como tal, se o futuro é incerto de qualquer das formas, só se pode ter algo a ganhar em arriscar naquilo que nos dá mais prazer, naquilo que nos preenche e faz sentir vivos. Para quem sente aquela vontade brutal de viver, respirar e fazer cinema, não pode haver pior destino que o de passar o resto da vida a ver filmes pensando no que seria se um dia tivesse tentado. O mais importante é mesmo ter prazer.



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