Most People Have Been Trained To Be Bored

Será o aborrecimento uma imposição?

Artista: Most People Have Been Trained To Be Bored
Albúm: Sucess in Cheap Prices
Editora: Bor Land

O aborrecimento é um estado de espírito que materializa o cansaço, a incerteza, a confusão perante o excesso, a apatia perante o vazio. Será que é a sociedade que nos impõe tal condição, ou somos nós próprios que nos desenhamos de formas enfastiadas? Há quem acredite na intenção global de nos treinar a sentar no sofá, olhando para o rectângulo ou quadrado magnético, tornando assim mais frágeis as tentativas de questionar as tendências generalizadas, de confrontar a direcção do poder mundial. Desta deambulações surge o nome de artista Most People Have Been Trained To Be Bored e o seu respectivo albúm, “Sucess in Cheap Prices”.

O Portuense Gustavo Costa encarna uma personagem irreverente, provocando-nos com música activamente desafiante. As suas inspirações surgem do estudo de percussão com Miguel Bernat, de Produção e Tecnologias da Música na Escola Superior de Música e das Artes do Espectáculo do Porto e, no Instituto de Sonologia em Haia, Holanda, de Sonologia com Paul Berg, Konrad Boehmer e Clarence Barlow.

A edição que nos apresenta surpreende-nos com conteúdos sonoros profundamente intrigantes, contrastando momentos de puro arrepio com outros de calma e conforto. Por vezes o ruído é tremendo, como no início de «Repealed, 1997», em «Poverty in the first world» ou «Tools that are no good». Mas depois da tempestade vem a tranquilidade! Com «Non Infringement Recertain Designs» e «Global Cleansing/Massive Sterillity» Gustavo acalma-nos, construindo faixas ambientais, constituídas por desenhos de espaços misteriosamente relaxantes, repletos de temáticas limpas. Resumidamente, uma autêntica viagem, esporadicamente revitalizada por referências caóticas.

«Success in Cheap Prices», que deu o nome ao álbum, é uma fábula orquestral que mantém o ritmo de um verdadeiro contador de histórias, iniciando e finalizando em tons brandos, mas nunca deixando de abranger momentos de solicitada confusão. As três últimas músicas demonstram uma maior estabilidade, mantendo, obrigatoriamente, a constante motivação por extremo espírito crítico. Nesta últimas, mas não menos importantes peças, é sublinhada a indiferença pelos perfumes «Becoming indifferent to perfume», a intolerante falta de duração deste mundo, «Intolerable World Undurable» e o ponto quando tudo se derrete «Aural Melting Point». De salientar ainda os ruídos, silêncios e instrumentos entrecortados que inclui ao longo da sua narração.

Desde 1989 que Gustavo Costa participa e colabora com diversas personalidades musicais ligadas ao rock underground e à música experimental como Genocide, Stealing Orchestra, Três Tristes Tigres, Drumming, Gregg Moore, Ethos Trio, Damo Suzuki ou John Zorn. O experimentalismo é uma constante na sua produção alternativa. Os barulhos electrónicos e acústicos servem de matéria-prima na materialização das suas várias influências: Luc Ferrari, Keiji Haino, early Napalm Death, James Plotkin, Iannis Xenakis, John Zorn, Giacinto Scelsi, entre outros. A sua editora portuense Bor Land, já conhecida dos nossos ouvidos, faz aqui uma corajosa aposta, mesmo que fora do seu habitual contexto indie.

Para quem está farto de música aborrecida e previsível, esta edição surge como um autêntico revigorante de mentes criativas. Prepare-se para não conseguir prever o final! Só uma única certeza se destaca – o orgulho que temos em anunciar este tipo de produto nacional, demonstrador de destreza estilística e de um espírito musical empreendedor. Gustavo Costa não caí em redundâncias rítmicas. A sua personalidade artística demonstra uma independência e autonomia a preservar, situando-se como “um cidadão que se recusa a ficar num casulo de tédio a carcomer as próprias asas”. Desafio para os nossos ouvidos!



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