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Mostra de Cinema de Hong Kong – Preview

Tudo sobre os filmes que podem ver entre 24 e 28 de Novembro no cinema City Classic Alvalade.

A 2ª Mostra de Cinema de Hong Kong, organizada pela Zero em Comportamento, começa amanhã, dia 24, nos Cinemas City Alvalade. Até domingo vão ser apresentados oito filmes oriundos da região que os ingleses devolveram à China em 1997, que no entanto preservou um estatuto especial, conjuntamente com Macau, que lhe garante alguma autonomia do gigante asiático. Os oito filmes foram seleccionados pela Hong Kong Film Society que tem por objectivo a promoção do cinema da região. Esta iniciativa irá ser repetida noutras cidades europeias nos próximos meses.

Se normalmente o cinema de Hong Kong é associado aos filmes de acção, seja na vertente pontapés e acrobacias das artes marciais, seja das pistolas em punho das histórias de polícias e ladrões (e realmente a grande maioria dos filmes cai no género), a Mostra inicia-se com uma obra introspectiva sobre violência doméstica. “Night and Fog” (quarta-feira, dia 24, às 21h45), da realizadora Ann Hui, veterana da nova vaga dos anos 70/80, retrata as várias burocracias que nada fazem para impedir o horror, da Segurança Social que tenta conciliar o inconciliável em nome da Família à Polícia desinteressada em “arrufos” entre marido e mulher. O filme começa (e acaba) em tragédia, a história é contada de vários pontos de vistas, em intricadas analepses, enquanto o espectador assiste à desgraça anunciada e inevitável.

O outro ovni da Mostra é “Written by” (domingo, dia 28, às 19h00), de Wai Ka-Fai, argumentista às vezes, co-realizador outras vezes, algumas vezes as duas coisas, de Johnnie To. Uma história de fantasmas, do escritor como Deus criador e destruidor do seu mundo, a fazer lembrar os filmes escritos por Charlie Kaufman, que abusa dos efeitos especiais gerados por computador e das reviravoltas no argumento e se perde numa confusão irremediável. Uma desilusão se se pensar que o excelente “Mad Detective” de 2007 tem a co-assinatura de Wai. To fez-lhe muita falta, ao que parece.

“Long Arm of the Law” (sexta, dia 26, às 21h45) é a obra mais antiga da Mostra, um óptimo filme de gangsters violento e sangrento realizado por Johnny Mak em 1984 (portanto, anterior ao revolucionário “A Better Tomorrow” de John Woo). Um grupo de malfeitores chineses (a lembrar o “wild bunch” de Peckinpah, se calhar sou só eu, mas até vejo ali um sósia do Warren Oates) são contratados para fazer um assalto a uma joalharia de Hong Hong. Entretanto o assalto é abortado, têm de esperar, percorrem as casas nocturnas como se fossem personagens de Cassavetes, são atraiçoados por um mafiosozito vestido à Peter Lorre, são barbaramente perseguidos por polícias cruéis, estão condenados como as personagens de Du Rififi chez les hommes de Jules Dassin.  O tiroteio final nas vielas e ruelas de um bairro de Hong Kong é soberbo.

Jackie Chan, o famoso actor de comédias de acção que singrou em Hollywood, tem um dos seus papéis mais sérios em “Crime Story” (quinta, dia 25, às 21h45), no qual não se saiu nada mal, tendo sido até premiado. O filme de Kirk Wong, de 1993, seco quando deve ser, sem as excrescências narrativas que costumam diminuir muitos filmes de Hong Kong, não rejeita no entanto o acrobata que Chan é, tem coreografias maravilhosas, autênticos bailados de violência, numa história sobre raptos, polícias corruptos e polícias incorruptíveis, baseada em factos reais.

Em “Invisible Target” (sexta, dia 26, às 19h00) de Benny Chan, um dos protagonistas é o filho de Jackie Chan, Jaycee Chan, que também dá um ar da sua graça no pontapé e murro e saltos para o ar, aliás, este filme, para lá de muitas explosões, tem mais kung-fu do que disparos de pistola. Mais uma vez, os bons e os maus são difíceis de distinguir, no meio da corrupção policial e da honradez dos ladrões, se calhar o filme peca por ser demasiado estiloso, mas nunca chega a cansar.

O que não se pode dizer de “Overheard” (sábado, dia 27, 19h00) de Alan Mak e Felix Chong, a dupla de argumentistas por trás da trilogia “Infernal Affairs”. Depois da primeira cena muito bem engendrada, o filme cai num certo de fastio de tragédia anunciada, quando três polícias especialistas em escutas, muito amigos (a amizade masculina deve ser o tema central de 99 por cento dos filmes de Hong Kong), tentam enganar o mercado bolsista e acabam por irritar um mafioso a sério. As reviravoltas finais são forçadíssimas e desnecessárias.

“Rebellion” (domingo, dia 28, às 21h45), de Herman Yau, destaca-se um pouco dos outros filmes de gangsters pela sujidade das ruas onde os gangs formados por jovens munidos de catanas se digladiam numa luta pelo poder (numa espécie de “The Warriors de Walter Hill” mais violento), depois de um dos cinco chefes mafiosos da zona – que conviviam pacificamente – ser assassinado. O protagonista, que passa o filme embasbacado, anda tão às aranhas como os espectadores nesta teia bem urdida sabe-se lá por quem (sabe-se no fim).

Para o fim, deixo o melhor: “Running Out of Time” (sábado, dia 27, às 21h45), um inteligentíssimo thriller realizado por Johnnie To (que foi Herói Independente no IndieLisboa de há dois anos) que faz corar de vergonha todas as outras tentativas no género feitas tanto a Ocidente como a Oriente nos últimos anos. Aqui não há caricaturas, nem explosões de cinco em cinco minutos, nem tiros por todos os lados, nem sequer lutas corporais, To constrói o suspense, a emoção do filme pela forma como filma, com uma economia narrativa invulgar, deixando também de fora o excesso de palavras. Para tal conta com a ajuda preciosa de dois dos melhores actores de Hong Kong (e não só), Andy Lau e Lau Ching-Wan, o ladrão e o polícia. Não é por acaso que To é considerado um dos maiores realizadores da actualidade, este filme seco, divertido e emocional (e tantos outros) prova-o à saciedade.



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