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MOTELx 2010

A realidade é cada vez mais aterradora.

O MOTELx – Festival Internacional de Cinema de Terror de Lisboa arrumou ontem os machados, a fita adesiva, as armas de fogo, as estacas, a carne putrefacta, e os muitos litros de sangue usados nas cerca de 40 longa-metragens que passaram pelo cinema São Jorge nos últimos cinco dias. George A. Romero, a lenda viva, o grande mestre do género que instilou nova vida aos mortos-vivos (ou zombies, como não gosta de lhes chamar), foi o convidado de honra do festival, e o alvo de todas as atenções.

O cinema de terror clama pela escuridão da sala de cinema para ser apreciado em todo o seu horror; os mais pequenos sons, o mais pequeno movimento, a imaginação que se solta, uma porta a abrir-se, um vulto a aproximar-se mantêm a tensão que se alivia num susto comunal, partilhado por todos os espectadores, normalmente seguido de um riso nervoso geral.

Sofre-se por antecipação, a ânsia começa com o cartaz do filme, com o olhar das outras pessoas, e depois as luzes apagam-se. O inteligente truque de James Whale no seu “Frankenstein”: anunciar antes do início do filme que aquilo poderá ser de mais para certas pessoas, que os mais sensíveis talvez devessem abandonar a sala. É remédio santo, é da maneira que ninguém se vai embora, mas instala-se o burburinho, o medo é palpável. É por esse medo que pagamos o bilhete, para durante uma hora e meia nos relembrarem que vamos morrer e que isso pode acontecer de mil e uma maneiras, cada uma mais dolorosa do que a outra. É o exorcismo da morte possível, agora que os velórios e os enterros são assépticos encontros sociais.

Os Filmes

O cinema de terror tem de seguir certos preceitos para ser considerado de terror, mas numa altura em que quase tudo já feito e refeito (a onda de remakes de filmes de terror em Hollywood é verdadeiramente assustadora), não é difícil embocar num beco sem saída. Alguns novos cineastas, como os ingleses Paul Andrew Williams e Gerard Johnson, autores de “Cherry Tree Lane” e “Tony” respectivamente, tentam a todo o custo evitar as fórmulas mais gastas, procurando encontrar um novo rumo numa espécie de “terror realista”.

As diferenças entre esse realismo e o thriller puro e duro são difíceis de aferir – talvez o grande problema com a programação do MOTELx este ano é perceber a aderência de alguns filmes ao género-, mas tanto um como a outro são bons filmes. São estudos de personagens, no primeiro um grupo de adolescentes inferniza a vida de um casal de classe média, no segundo um solitário e aparentemente anódino serial killer, um Travis Bickle gaguejante, com cabelo à tigela e óculos de massa aterroriza a cidade de Londres, numa sátira às instituições como a Segurança Social e a Polícia. Para além de serem baseados em factos reais, não se deixam levar pelo excesso, e fogem da violência gráfica como o diabo da cruz.

Paul Andrew Williams confessa até o seu medo da violência física nos ecrãs, e no seu filme todos os momentos de violência acontecem fora de cena, como numa peça teatral, o que suscita a pergunta: Até que ponto certos cineastas fazem filmes de terror para aprenderem a técnica e assim deixarem ter medo, como os pilotos de avião que têm medo de voar?

Mas não são a nossa imaginação, os nossos medos os melhores condutores de qualquer história de terror? No Hipster Horror (fui eu que inventei a expressão, usem-na à vontade) “The House of the Devil” de Ti West, que repesca as fórmulas e o aspecto dos filmes dos anos 80, passamos uma hora e meia com uma moçoila a abrir e fechar portas, a andar para lá e para cá em corredores, a subir e a descer escadas, o que seria aborrecidíssimo noutro tipo de filme, não houvesse a certeza (o desejo?) de que algo mau lhe fosse acontecer.

No decepcionante “F” de Johannes Roberts, o realizador, que parte de uma premissa interessante, uma espécie de remake do “Assault on Precinct 13” de John Carpenter, não confia totalmente na sua criação de tensão e tenta enfiar sustos a cada esquina, o que os enfraquece pela repetição e previsibilidade. O filme faz parte da corrente inglesa Hoodie Horror (esta não fui eu que inventei), que reflecte o problema bem real da violência dos adolescentes.

Todo o bom cinema de terror serve também para exorcizar medos e anseios mal calcados, desejos inconfessáveis. O sexo é sempre tratado como algo funesto, o incesto, o tabu que ensombra tantos filmes. “5150, Rue des Ormes” de Éric Tessier e o soberbo “The Loved Ones” de Sean Byrne são ambos sobre famílias instáveis, luto, violência doméstica, pulsões animalescas, psicopatias várias, coisas que existem no nosso mundo, não são fantasmas, nem monstros, nem mortos-vivos. O filme canadiano é um thriller psicológico, um enorme jogo de xadrez entre a lucidez e a loucura, entre o bem e o mal. No australiano o excesso de sangue e sujidade escondem dramas familiares e desajeitamentos adolescentes (e ensina-nos a ter muito medo de rapariguinhas que vestem de cor-de-rosa e ouvem música xaroposa).

“The Love Ones”, de longe, o meu filme preferido do festival, usa a violência gráfica de forma cómica e os momentos mais calmos de forma dramática, é um filme completo. O mesmo não se pode dizer de “Primal” de Josh Reed e “The Revenant” de D. Kerry Prior, duas tentativas de coser humor ao prazer sanguinário esforçadas de mais. “Primal” quer dar nova vida ao filme de adolescentes perdidos na floresta com monstros à solta, mas é chato e repetitivo, o mesmo para “The Revenant”, que não começa mal, com um morto que volta à vida e mantém a inteligência, mas quer tanto ser comédia que as piadas acabam por cansar.

“Jigoku” de Nobuo Nakagawa fica fora destas contas, parte da curta retrospectiva “Japão Retro”, é a mais estranha obra que passou no MOTELx. Um filme puramente visual, alguns planos estarrecedores e belíssimos sobrepõem-se à história um pouco ridícula. De ressalvar que as sequências na Terra são bem mais angustiantes do que a demasiado longa sequência nos infernos. De qualquer forma, para retratar o Inferno é preciso coragem.

O Outro Romero

O cinema de George A. Romero não é só mortos-vivos, o agora cidadão canadiano veio apresentar o sexto filme da saga – “Survival of the Dead” – ao MOTELx, mas é notório um certo cansaço pelo tema tanto nas palavras do realizador como no filme em si. Com “Survival”, Romero tenta empurrar os mortos-vivos para novos territórios, os da comédia mais absurda, os do western mais clássico, no entanto o resultado é tépido, uma obra menor.

Romero não é John Ford nem Howard Hawks, nem mesmo John Carpenter, as suas forças residem na crítica social aguda, no seu pessimismo em relação à humanidade, e, se sempre se ancorou no humor, é melhor quando coloca o Homem em situações limite e estuda o seu comportamento. É esse o supremo poder de “The Night of the Living Dead”, mais do que toda a mitologia zombie (velocidade certa dos mortos-vivos incluída). É esse o poder de “The Crazies”.

“The Crazies” de 1973 é a obra mais parecida com “Night” e não tem um único morto-vivo à vista, tem um vírus à solta, os militares às aranhas (em jeito de sátira da Guerra Fria), os protagonistas/sobreviventes a piorar a situação. Ninguém é inocente, mas no meio de tudo, os infectados que ficam maluquinhos são os menos culpados. Dá para perceber pelos seus filmes, e por um diálogo ou outro demasiado explícito, que Romero não nutre um grande amor pela humanidade. Parece-me que essa é grande marca da sua obra, mais do que provocar sustos, é a condição humana que lhe interessa.

Em “Martin” de 1976 e “Monkey Shines” de 1988 o estudo do Homem continua, mais individual, mais específico, já não é a sociedade que está em jogo, são os impulsos animais que séculos de civilização não conseguiram conter em absoluto. Martin tem cara de miúdo, mas é um vampiro com 84 anos (ou acredita ser, o filme mantém uma ambiguidade interessante), que tem de matar e chupar o sangue às suas vítimas para acalmar os nervos. Allan Mann (subtil, hã?), protagonista de “Monkey Shines”, usa uma macaquinha que se apaixona por ele (isto faz todo o sentido para quem viu o filme) para cumprir os seus desejos mais fundos, as suas ânsias mais violentas. Será que o culpado é o animal que não sabe o que faz ou o Homem que o controla? Apesar do final feliz, o dedo de Romero está apontado para Mann. Como os protagonistas de tantos filmes de Hitchcock, é ele quem se aproveita dos actos malévolos de outrem, sem precisar de mexer um dedo (que de qualquer forma não consegue mexer porque é tetraplégico), e sem quaisquer consequências, numa transferência de culpa perfeita.

“Creepshow” de 1982, por seu lado, é uma carta de amor feita a meias com Stephen King às revistas de banda-desenhada de terror e ficção científica da EC Comics, principalmente as “Tales from the Crypt”, influência de toda uma geração de autores do horror. São cinco episódios escritos e filmados ao estilo dessas revistas dos anos 40/50, com pessoas que se transformam em plantas, pessoas que regressam à vida (sempre os mortos-vivos), monstros que matam quem nos dá jeito e baratas justiceiras.

Os mortos-vivos são a benção e a maldição de Romero, benção porque lhe permitiram uma carreira e permitem-lhe continuar a trabalhar, uma maldição porque é a única coisa que consegue fazer agora, a única coisa para a qual lhe dão dinheiro, a única coisa por que ficará conhecido. E Romero é mais do que isso. A decisão dos directores do MOTELx de apresentarem o “outro Romero” nesta retrospectiva foi a homenagem mais justa que lhe poderiam fazer.


O Terror Português

O cinema de género em Portugal é muito incipiente, as “primeiras” curta e longa-metragem de terror, “I’ll See You in My Dreams” e “Coisa Ruim” respectivamente, são desta década. Claro que isso é esquecer António de Macedo, por exemplo, mas serve para demonstrar a negligência que o género sofreu durante anos.

O MOTELx tenta colmatar esta falta com a competição nacional de curtas-metragens, cujo vencedor foi “Bats in the Belfry” de João Alves, uma animação caseira, com vampiros chacinados por um cowboy de mau-feitio, divertida e bem feita. Das curtas que vi, a melhor.

As outras foram imitativas como o lynchiano “O Tempo é um Caracol com Asas” de Mário Gomes, Matze Schrecks e Karl G., previsíveis como “Consequências” de Luís Ismael, inconsequentes como “Síndrome de Stendhal” de Patrick Mendes ou demasiado reconfortantes como “Breu” de Jerónimo Rocha.

Para terminar pelo princípio, a sessão de abertura ficou encarregue à mini-série para televisão “Noite Sangrenta” de Tiago Guedes e Frederico Serra, autores de mencionado “Coisa Ruim”, que não sendo propriamente de terror retrata um dos episódios mais horríficos do século XX português. Óptima ficção televisiva, muito bem escrita, com belíssimas actuações de Isabel Abreu, Gonçalo Waddington e Ricardo Aibéo (e Nuno Lopes, que, não saindo do seu registo de comédia, aterroriza mais do qualquer um), “Noite Sangrenta” pode servir de mote a outras representações de episódios históricos ou lendas nacionais e a um desenvolvimento de um cinema de género em Portugal.



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