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Motelx 2012 – Reportagem

O Terror dos dias de hoje

Foi de braços abertos que, pelo sexto ano consecutivo, recebemos o MOTELx, Festival Internacional de Cinema de Terror de Lisboa, que visa trazer-nos o melhor dos últimos lançamentos internacionais do terror, bem como estimular a produção de filmes nacionais, havendo assim espaço para a mostra de curtas portuguesas, em que, além dos realizadores verem o seu trabalho exposto, competem também para o prémio MOTELx – Melhor Curta de Terror Portuguesa.

Num ano em que estamos especialmente afectados com tudo o que nos rodeia, nada melhor que presenciar o terror no grande ecrã, para “fugirmos um pouco ao terror que se vive nos dias de hoje”, palavras de um dos membros do júri do prémio MOTELx de 2012, o músico e também realizador Paulo Furtado. E, para isso, cinco dias preenchidos pelo mais especial e intrigante género de cinema, o terror, que nesta sexta edição tinha um mote bastante estimulante, o rei do cinema de terror italiano, Dario Argento.

Mas comecemos pelo início, o dia de abertura, em que filmes como o misterioso “The Butterfly Room” e o coreano “The King of Pigs” fizeram parte de um início de tarde, daquele que seria o primeiro dia, de muitos momentos únicos. O festival começou a todo o gás, com a sessão de abertura e a projeção de “REC 3, Génesis”, o filme do realizador espanhol Paco Plaza.

Após dadas as boas-vindas a mais um ano de festival e feitos todos os agradecimentos por parte da produção do MOTELx, foi apresentada uma mostra das curtas portuguesas deste ano, contendo também a presença de Paulo Furtado e Filipe Melo no grande palco, para algumas palavras de agradecimento e opiniões acerca de todo o festival.

Com sala cheia, “REC 3, Génesis”, o terceiro filme da saga “REC”, conseguiu soltar inúmeras gargalhadas de um público que, embora estivesse preparado para um terror especial e entusiasmante a que “REC” e “REC 2” nos tinham habituado, se deparou mais com uma comédia do que qualquer outra coisa. A realização e dedicação por parte da produção de todo o filme é sem dúvida de louvar, mas todo o diferente ambiente e “luz” que o rodeia, desilude comparando com a obscuridade em especial do primeiro filme.

Com uma história complemente diferente do que estávamos habituados e um cenário totalmente oposto aos dois primeiros filmes, este “REC 3” deixou toda a sala satisfeita porque, apesar de quase parecer um filme único, sem qualquer ligação aos restantes, consegue também ter aspectos bastante peculiares, que fazem dele um filme diferente do habitual.

No segundo dia de festival, a secção Serviço de Quartos concentrava-se em filmes como o tailandês “Laddaland”, “The Pact” e “Sleep Tight”, filme do co-autor de “REC”, Jaume Balagueró, mas também iniciava as secções dedicadas às retrospectivas dos grandes mestres de terror, Dario Argento e Nobuo Nakagawa.

Na secção Japão Retro, Nobuo Nakagawa, brindou-nos com três dos seus filmes: “Black Cat Mansion”, “Ghost Story of Yotsuya” e “The Living Koheiji” e, no Culto dos Mestres Vivos, filmes como “Deep Red” e “Mother of Tears” fizeram com que Dario Argento trouxesse uma lufada de ar fresco a esta edição do festival.

Ainda neste segundo dia, “The Tall Man”, de Pascal Laugier, responsável pelo conhecido “Martyrs”, ofereceu-nos provavelmente um dos melhores momentos de todos estes dias. Não o considerando uma película de terror, “The Tall Man” consegue ser um thriller misterioso, focado no obscuro e enigmático cinema nórdico, em que, apesar de ter Jessica Biel como actriz principal, consegue ser um filme que foge de todas as maneiras a um êxito de Hollywood. E foi isso mesmo que Pascal Laugier explicou, no fim do filme, numa conversa agradável, que se tornou por momentos uma espécie de debate, com perguntas e respostas por parte do mesmo e do público.

Sexta- feira, o terceiro dia de festival, focava-se na secção “Quarto Perdido”, um espaço em que o cinema português é valorizado e que este ano nos presenteou com dois filmes: “O Território”, em que foi feita a primeira colaboração com o realizador Raoul Ruiz e o produtor Paulo Branco e que foi rodado em Sintra e “O Estado das Coisas”. Entre os dois filmes, Paulo Branco esclareceu os mais curiosos, com uma sessão de perguntas e respostas, na sala 3 do Cinema São Jorge.

“Suspiria” foi sem dúvida o êxito de Sábado, um momento em que, para além de recordarmos este clássico filme dos anos 70, com uma sala a abarrotar de pessoas, Dario Argento fez a sua primeira aparição pública no festival, surpreendendo com a sua boa vontade e simplicidade, perante os deliciados que o aplaudiam de pé.

“VHS” e “Emergo” fizeram também parte deste dia, sendo que o primeiro esgotou praticamente de imediato, vendo-se a organização “obrigada” a realizar uma sessão extra, marcada para o dia seguinte. “VHS” faz parte do género de terror “found footage”, conhecido em filmes como “REC” e “The Blair Witch Project”, e explora o terror de uma forma quase documental, em que as filmagens são feitas pelos próprios actores, tornando assim estes filmes numa espécie de realização caseira.

“Emergo” é considerado também um filme do mesmo género, mas com menos momentos de verdadeiro susto e surpresa. Com um argumento que muito pouco tem de novo, apesar dos diversos fenómenos inexplicáveis, que nos fazem recear por alguma aparição relacionada com espiritismo, o filme nunca chega a ter nenhum momento de real receio, conseguindo assim tornar-se até aborrecido e sem motivos de grande interesse.

No último dia de festival Dario Argento brindou-nos com uma deliciosa Masterclass, na Sala Manoel de Oliveira, onde que nos falou um pouco mais sobre a sua longa carreira, as motivações que o fazem continuar a trabalhar até aos dias de hoje e a importância de elementos como a arquitectura e a música nos seus filmes. O público teve a oportunidade de questionar Argento com algumas das suas dúvidas, mas também teve o prazer de conseguir um autógrafo deste enorme realizador italiano.

“Demons”, um filme com o argumento de Dario Argento, ofereceu-nos um óptimo momento deste último dia de festival, trazendo o rock e o terror gore dos anos 80. “Babycall”, o filme norueguês de Pal Sletaune, deixou muito a desejar, tornando-se num filme confuso e com poucos momentos interessantes.

Também neste Domingo, além da sessão de encerramento, mais uma vez esgotada, com o filme “American Mary” e a curta vencedora “A Bruxa de Arroios”, o destaque foi também para a Aula de Mestre Capitão Falcão e a Masterclass Clones, que conseguiram trazer muita animação e boa disposição a todo o São Jorge.

Um balanço extremamente positivo para esta 6ª edição de MOTELx, em que as salas estiveram bastante cheias, muitas vezes esgotadas e em que se notou que o cinema de terror está a ganhar cada vez mais popularidade e mérito, não só para quem é amante desta arte, mas também para curiosos ou apenas amantes de cinema em geral.



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