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Alexander Mc Queen, Siza Vieira, Balenciaga, Dior, Chanel, Kenzo, Souto Moura, Frank Gehry, Givenchy, Gucci, Jean Pouvé e Le Corbusier juntam-se para dar vida à Baixa Lisboeta. Conversa com Bárbara Coutinho, directora do MuDe.

Lisboa, Antuérpia, Glasgow, Montreal, Saint-Éttiene, Estocolmo e Nova Iorque (Times Square) foram as sete cidades que, em 2004, deram origem ao livro “New Design Cities”, resultado de um simpósio internacional no Montreal’s Canadian Centre for Architecture. A publicação foi, na altura, tão reaccionária quanto inspiradora. No seu interior, constavam testemunhos de presidentes de Câmara, designers e cidadãos de cada comunidade, bem como teses de especialistas em cidades e design – François Barré (Paris), Saskia Sassen (Chicago), e John Thackara (Amsterdão e Bangalore) – que colectaram estas cidades, consideradas case studies, e examinaram como se estavam a tornar design metropolis. A fama dos seus designers, os eventos que recebiam e as suas instituições, bem como o compromisso com um desenvolvimento criativo, apuraram as New Design Cities, que se destacavam pelas suas comunicações, media events e um envolvimento municipal no campo do design. Se, na altura, esta se apresentava como uma probabilidade, hoje, quando percepcionamos os movimentos culturais lisboetas, verificamos que mais se tratava de uma profecia.

O MuDe, agora na Baixa, surge como a cereja no topo do bolo dos desenvolvimentos criativos na nossa capital, dos quais o ExperimentaDesign, o Santos Design District by Norman Foster, o Lisboarte, a Trienal de Arquitectura (agora agendada para 2010), o Lx Factory, a transformação da Fábrica do Braço de Prata, bem como as ruas do Chiado e do Bairro Alto que se renovam com concept stores, galerias e boutiques, são bem representativos.

A localização do MuDe, Museu da Moda e do Design, na Rua Augusta, definida em Novembro passado, marca o ponto de viragem numa história atribulada.

Uma nova história para o MuDe

Com um orçamento de um milhão de euros, suportado pelo Turismo de Portugal, o MuDe abriu no mês de Maio por duas razões: é o mês do Dia Internacional dos Museus, e é, também, o mês em que o Museu do CCB tinha aberto, há dez anos. É uma nova história, mas, segundo Bárbara Coutinho, directora do MuDe, “tem raízes, e foi uma relação que a organização quis criar com essa mesma história”. Iniciada durante a década de 1990, com mais de 1000 objectos de design de equipamento e 1200 peças de moda, na sua grande maioria alta-costura, a Colecção Francisco Capelo dá a conhecer a história do design e da moda desde a década de 1930 até à actualidade e é um acervo de excepção tanto em Portugal como no panorama internacional. A primeira exposição foi baptizada de ante-estreia, e apresenta cerca de 180 objectos icónicos da transformação de mentalidades, dos hábitos de vestuário e de habitabilidade do espaço marcantes do que foi o século XX e do que está a ser o século XIX. A moda é protagonista, a par com o próprio local e ambiente; sem barreiras visuais, de forma a que o visitante possa escolher vários percursos.

História desconstruída

Nesta primeira página que se apresenta aos visitantes, o antigo edifício do Banco Nacional Ultramarino (BNU), que nunca sonhou em tornar-se um espaço tão alternativo, surge aos olhos dos visitantes como um ambiente descontruído, onde as paredes foram esventradas e os tectos falsos destruídos. O chão, esse, é de um branco puro, coberto de pequenas ilhas de madeira, onde as obras de arte estão expostas. Sentada à mesa de cortiça preta que ocupa o bar do Museu, Bárbara Coutinho esclareceu que “há um ano e meio, gostámos da personalidade deste espaço. E decidimos, numa primeira instalação, por esta ocupação do piso térreo e do piso um, tirando partido das pré-existências”. O tecto, as colunas e o espaço semi-destruído deixa perspectivar o edifício e a sua integridade. “Um diálogo com a modernidade das peças e com a qualidade dos gestos dos diferentes criadores foi desde sempre uma intenção que tivemos, e que agora concretizámos”, explicou.

Um coração a pulsar no centro da cidade

Outra das intenções do MuDe foi que “fosse um coração a pulsar no centro da cidade, e que esse significasse uma reanimação da Baixa, um envolvimento desta a nível de nomes públicos, de novas actividades e de novos hábitos culturais”, afirmou Bárbara Coutinho.

Os projectos que o MuDe vai abraçar, como é o caso do Combo, fazem parte das estratégias que pretendem trazer o público jovem para a Baixa, mantendo uma relação com aquilo que esta zona da cidade foi, e é, com aquilo que ela tinha na sua forma de agir e a sua importância. “Queremos levar isso a um novo público, mas respeitando essa herança, actualizando-a e trabalhando-a”, sublinhou a directora.

Design em diálogo

O MuDe pretende dar um contributo para uma cultura de projecto, uma disciplina que engloba o design de moda, o design de equipamento, o design gráfico, o webdesign, sempre com o design como a grande disciplina. Com a arquitectura, o cinema, a música, as artes plásticas, ou a ciência. “Consoante o programa, vão existir sempre diálogos no museu, algo que já é visível nesta ante-estreia, que vai ter um suporte visual, de filmes, numa boa relação com a arquitectura do próprio espaço. Mas a nossa área de trabalho vai ser, evidentemente, o design, numa perspectiva de abertura”.

Mudar

O MuDe está empenhado em contribuir para novos hábitos culturais: uma maior sensibilização e maior consciencialização para o lugar do design na sociedade da criatividade contemporânea. “Que mude também a nossa forma de olhar para o conceito de design, e que seja um espaço de debate, de discussão, de lazer, de prazer, e que as pessoas descubram aqui, e que descubram nos outros espaços que o MuDe irá ter, já enquanto Museu na sua forma final”, sublinhou Bárbara Coutinho, “o prazer de frequentar este lugar, descobrir uma peça para dar a um amigo, um diálogo com um objecto que nunca tinham encontrado, nunca tinham visto, e que se deixem fascinar e deslumbrar pelo museu”.

Sinergia tradicional-inovador

O MuDe está associado à EGEAC para o projecto Combo. “Convidámos uma jovem designer/estilista que nos tinha apresentado um projecto, e nós quisemos ampliá-lo, porque é itinerante”. São 13 lojas que vão estar animadas pelos objectos da Sara Lamúrias, na Baixa, e que correspondem às principais tipologias do comércio tradicional. “Achámos que era um projecto interessante para cruzar os públicos: o público tradicional que passa a olhar para um objecto de design no local que habitualmente frequenta, e o público de design, que pouco frequenta essas lojas, e que vai atrás da peça da criadora”.

MuDe como um sistema aberto

Os criativos podem entrar em contacto com o MuDe de formas muito diferentes. “Agora sabem onde estamos, conhecem-nos, sabem quem é a equipa por isso sabem, e devem, apresentar os projectos que considerem de qualidade”, convidou Bárbara Coutinho. Além de se definirem disponíveis para se associarem a novos projectos, a equipa do MuDe organizou uma sala de ensaios que é, no fundo, uma residência de artistas, designers, criadores, concebido para o desenvolvimento de projectos mediante uma avaliação, e da execução do projecto, seguido de exposição. Há ainda outras formas de colaboração, como conferências, debates ou workshops.

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O novo espaço acolhe ainda uma livraria, que há 13 anos trouxe à cidade um espaço destinado aos livros de arquitectura. Agora, o desafio é a abertura de uma nova livraria, especializada em design, uma referência para designers, estudantes da disciplina e o público em geral.

O MuDe está aberto de terça a domingo, das 10h às 20h (encerra às 22h, à sexta e sábado). No primeiro mês, a entrada é grátis.



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