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“Muito Barulho Por Nada”

O regresso de Shakespeare às ruínas do Convento do Carmo.

O Teatro do Bairro, juntamente com a Ar Filmes, volta a instalar-se nas ruínas do Museu Arqueológico do Carmo e traz novamente uma peça de William Shakespeare. Em 2020 apresentaram o drama histórico Rei João e agora, com menos tragédia e mais comédia, trazem-nos Muito Barulho Por Nada, texto que nos convida a entrar neste espaço histórico para apreciar um jardim de romances conflituosos e de pensamentos contraditórios, levados a cena por António Pires, através de doze atores e a partir da poética tradução de Sophia de Mello Breyner Andresen.

Escrito na época do Maneirismo – vanguarda artística com forte influência italiana que quebrava com o renascimento para destacar o estilo ou, descortinando a etimologia da palavra, a “maniera” de cada autor – a ação situa-se precisamente na capital da Sicília, em Messina, aqui representada por um jardim inclinado cujo verde se destaca harmoniosamente entre os tons cinza e acastanhados das altas paredes deste gótico monumento de Lisboa. Este dispositivo cénico revela ainda a leveza textual que podemos esperar desta obra de Shakespeare com a cuidada tradução da poetisa portuguesa. A escolha desta tradução deve-se ao gosto que António Pires tem pela palavra, enquanto elemento teatral, imprimindo assim a sua “maniera” enquanto encenador. Apesar de ser um romance, os desejos de demonstrações afetivas destes casais ficam subentendidos na primazia que é dada à intervenção palavrosa das personagens.

Hero e Claúdio podiam ser dois homens, mas trata-se de um casal cis heteronormativo, uma vez que a encenação é fiel ao tempo da ação. Estes jovens apaixonam-se entre olhares e rapidamente ficam noivos por intervenção do príncipe casamenteiro D. Pedro que também conspira para juntar o casal Beatriz e Benedito que ora se detestam ora se amam. O protagonista é um conceito, o casamento, e não nenhuma personagem em particular como acontece em muitos outras obras deste autor. Porém,
os monólogos recaem sobre Beatriz e Benedito, aqui interpretados por Carolina Serrão e Eduardo Frazão, que refletem sobre as contradições da reputação individual à luz da sociedade isabelina. Ambos renunciam ao casamento e à ideia de compromisso para acatar os ditames sociais mas acabam por se converter em bobos e elementos de riso quando se deixam apanhar pela seta do cupido que os une. Quanto ao outro casal, estes veem-se vítimas do impacto que os rumores e a falta de confiança podem ter e como a mulher sai sempre mais prejudicada. Se eventualmente somos passíveis de encontrar sinais de feminismo é através da sororidade entre as personagens femininas e de serem os homens os culpados do infortúnio delas.

As falhas de comunicação tornam-se obstáculos recorrentes nos enredos deste autor, por vezes até mais ameaçadores dos que os próprios vilões, denunciando a incapacidade para confiar. Talvez seja aqui que esta obra de Shakespeare se encontra com a nossa atualidade. A facilidade em aceder às notícias, novidades e informações tornou-se de tal modo vulgar que surge cada vez mais desinteresse em escrutinar a verdade. A verdade torna-se dúbia e todo o pensamento relativo e, desta forma, como podemos nós confiar uns nos outros? Shakespeare será sempre atual por ter sido genial a decifrar a debilidade da consciência humana que tanto pode ser trágica como autenticamente cómica.

Cuidado com o “diz que disse” e em “desdenhar o que se quer comprar” são avisos subliminares que se podem retirar deste Muito Barulho Por Nada nas próximas noites deste verão, de segunda a sábado até dia 20 de Agosto, às 21h30.



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