München

"fala mongue" (ed. Bor land, 2006)

Os acordes iniciais de “Fala Mongue” dão-nos a sensação de estarmos perante sons que já ouvimos. Seja de uma música antiga que nos vem à cabeça ou simplesmente de um filme visto numa qualquer TV.

Mas rapidamente essa ideia é desfeita, a música começa a descoser-se e conseguimos ver fio a fio cada uma das naturais influências do grupo e também como se cose o azulejo sonoro que os München decidiram criar.

Começa logo com «Bonga 1», com cinco minutos iniciais num tema agridoce onde o tempo/beat aparece, assim como desaparece e, onde esperávamos por algo mais rápido, o silêncio ocupa a parte que não é dele. Mas mesmo assim soa bem e veio mesmo a tempo.

Parece que não se contentam só com o som em si e neste aspecto, o silêncio tem muita importância, demasiada até… saber esperar é uma virtude e saber esperar pelo som também o é, e em “fala mongue” os Müchen fazem-no muito bem.

À medida que avançamos no álbum, descobrimos as tais trilhas sonoras que vagueiam na nossa cabeça, chegando até a parecer-nos que o fado realmente anda por ali. Os instrumentos que usam e abusam para a composição do álbum são também uma viagem ao antigamente, através dos brinquedos que servem para tudo.

Sono-plasticamente os brinquedos são de uma beleza infindável e mesmo misturando esses sons com instrumentos tradicionais, o resultado é uma parafernália de ideias e situações musicais.

Os München decidem acelerar um pouco mais em «Professional», um tema um ‘pouco mais rock’, mas no fundo sabem que até aquele barulho um pouco mais alto faz parte do silêncio que virá a seguir. Não o silêncio natural, mas a pausa necessária na música. O acordeão, a viola, o ukele, violoncelos, etc, nada é deixado ao acaso assim como tudo nos parece.

E a linha que os München seguem é de facto vísivel e, embora saibamos que não estão aqui para agradar ninguém, sabem também que o fazem muito bem. Rir ou chorar, quem escolhe é quem ouve.

Percorrendo as músicas no coração do disco, encontramos músicas de nove minutos intercaladas com faixas de um só minuto. Caixas de ritmos, sons de brinquedos enfeitiçados, cordas de violas que soam desafinadas…

Os pormenores de cada faixa são trechos que o tempo juntou. Bruno Duarte chamou  Mariana Ricardo, João Matos, João Nicolau, Paulo Amorim e Nuno Morão ao estúdio e nada deixaram por fazer. O disco conta ainda com as participações de André Ferreira, João Lobo e Fernando Ascensão e o tempo que os München tiveram na gravação deste disco diz-nos isso mesmo. Entre 1998 e 2005 foram sendo gravados os temas deste disco e, calmamente, penetravam novas ideias, resultando num disco com uma frescura de Inverno, para ser ouvido debaixo de água, a dormir, sonhando com bolas de sabão. Ou não…

É obrigatório escutar este disco, nem que seja para apurar um bocadinho mais a nossa vida. E por mais que se possa falar sobre os München… a única coisa a fazer é não dizer nada sobre eles. Deixem-se levar com “Fala Mongue” e com as 14 faixas-surpresa deste álbum.



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