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Músicos de quarto

Dispensam as grandes editoras, procuram a liberdade criativa. Com caixas de ritmos, sintetizadores, pianos, baixos e guitarras virtuais, com ou sem voz, criam o seu som, sem precisarem de managers. São produtores caseiros, com instrumentos e máquinas ligados a um computador. Combinamos encontros na cidade do Porto com seis produtores. Motivo: a curiosidade. Saber o que os move. O que fazem. E porque o fazem.

(Porto, Café Aviz, quinta-feira,18h30, “três cafés, água com gás, por favor”, tabaco de enrolar, “proibido fumar”)

Rui Veloso nem imagina que construiu uma amizade para a vida – bem, Rui Veloso sabe que fez muitos casais felizes, “roendo uma laranja na falésia”, “junto à Serra do Pilar”, contribuiu para o aumento da taxa de natalidade (estamos certos!), construiu muitas amizades para toda a vida, mas não uma amizade como esta, daquelas à séria, para toda a vida.

“E uma vez encontramo-nos num jantar de um ex-colega nosso e aí começou tudo, acho que a sintonia começou por partilharmos um ódio muito especial ao Rui Veloso”. Amizades há muitas, mas nenhuma como esta. – “Até porque não curtia o Zé. E sei que o Zé não me curtia a mim”. – “Porque ele se andava a fazer à minha namorada”. – “Isso não é verdade. Se eu me estivesse a fazer à namorada dele eu dizia, na boa”. – “Mas parecia…”

Zé, ou José Gomes, e Luís Teixeira. Deixemos as tricas de namorados e centremo-nos no momento actual, recuemos à formação e retenham dois nomes: NIMAI (a dois) e Labrador (a solo). Dois em um (e ainda dizem que os champôs “dois em um” fazem mal ao cabelo!).

“Tudo começou em 2005, tinha pedido um teclado pequenino emprestado, um Yamaha, numa cena totalmente descomprometida. Nunca na vida tinha pensado fazer música”. Luís Teixeira, 25 anos, artista visual (nota: foi ele que pediu para lhe chamarem artista visual!) “Fui de férias, levei o teclado. Nesses quinze dias gravei quatro ou cinco temas”. Foram as primeiras experiências, com pouco mais de 20 anos, com outras experiências “sem resultado” e inveja ao ver os outros com trabalho feito. “Fui influenciado por projectos de pessoas sozinhas. Ouvia músicos que faziam tudo sozinhos e ficava fascinado”.

Mãos à obra. Compra do material, a pouco e pouco. “Comecei por fazer uma coisa mais calma, porque fazia a maior parte das músicas no meu quarto e não podia fazer muito barulho, para não acordar os meus pais. E nessa altura também ouvia muita música depressiva”. Hoje, Luís mudou o ponteiro da bússola para norte. “Agora estou a fazer mais disco, assim dentro de uma cena mais espacial”. Falamos de Labrador, o alter ego isolado de Luís Teixeira, “como o cão ou a simples forma abstracta de o ler” (e pensar que Labrador esteve quase para ser “O Projecto do Quarto”).

Luís diz ter-se cansado dos concertos tristes, da música triste, das pessoas a tremer e de “pêlos eriçados”. “Quis fazer algo que também pudesse curtir”.

Ping-Pong.

“Já eu tenho um percurso muito diferente daquelas pessoas que têm este tipo de actividades”. José Gomes, 26 anos. E isto promete. “Comecei na formação clássica, a estudar piano aos sete anos e fiz tudo direitinho, conservatório e por aí fora. Mas não estava satisfeito a dada altura. Tentei o jazz, toquei durante uns anos com um trio de bossa nova jazz”. A electrónica surge apenas na ESMAE. “Comecei mesmo a apaixonar-me por isso. A música electrónica permite fazer quase tudo por nós. Não estamos dependentes de ninguém. E comecei, a partir de então, a olhar para a música comercial como – ‘isto não é mau, isto é bom!’”.

Depois, o Luís. “Um colega dele pediu se podíamos musicar um filme dele, fizemos, foi engraçado, uma experiência nova”. Estava consumado.

“O Luís apanhou-me numa altura em que estava a deixar o peso clássico.” Juntos criaram Nimai, um projecto que vagueia entre a electrónica mais experimental e a repetição, roçando, nalguns pontos, o noise (comparações com Fuck Buttons será coincidência? Os Nimai fizeram a primeira parte do duo no Porto, no final de Setembro. Ainda acham que é uma coincidência?).

Com um Ep já editado (e podem descarregá-lo gratuitamente no myspace deles, qual Optimus Discos!.. Queremos é Rapidshare!) e outro (quase) a sair, sem ambições, apenas aproveitando o momento: “Em nada na vida gosto de pôr pressão. As coisas têm que ir fluindo. Meter o pé no travão é importante, mas saboreando a viagem. Nimai é parte da minha viagem”. Luís Teixeira. Esta é a filosofia Nimai.

(Porto, domingo, 16h, Esplanada da Leitaria da Quinta do Paço, onde estão os éclairs mais famosos dos Porto?,“Sócrates ou Ferreira Leite?”)

Ela não tem problemas em admitir que só usa um instrumento (e os “entendidos” têm já os cabelos em pé!). Não tem problemas em dizer “isto é só a brincar!”. Ela não tem medo que digam que ela nao percebe nada de música. Já ele não se importa que digam que a música dele é pimba. Não se importa que digam que o seu som faz lembrar qualquer coisa (porque, afinal, até faz).

João Marçal aka Marçal dos Campos vs Vera Mota. Conversa em dia de eleições e nenhum dos três tinha votado até então.

“Tudo começou há dois anos e meio.Por curiosidade. Por ver pessoas à minha volta que faziam isso”. Vera Mota, artista visual, 27 anos, diz que isto “é apenas um desvario”. “É apenas a curiosidade de perceber se tenho sensibilidade para criar aquele tipo de som”.

Tipo de som = calmo, piano isolado, qualquer descomprometimento com métricas e melodias, brincadeiras com distorções. “Se há alguma influência, eu diria que seria a clássica, apesar de ser uma coisa distante”.
Usa habitualmente o GarageBand, “o mais básico dos programa de produção musical”. (os entendidos, aqueles de quem falávamos lá em cima, ainda estão aí?) Será por isso que uma música demora, em média, três horas a ser composta? “Não sei, começo e fico ali uma data de tempo a experimentar”. Num simples pianinho.

Já João Marçal, 29 anos, artista plástico… Ah, ok! Não confundir! É outra coisa, é Marçal dos Campos, ok, ok, “foneticamente com ligações a Marcel Duchamp, tal como a Zé dos Bois tem a ver com Joseph Beuys”. Tudo começou quando entrou para a faculdade, há oito ou nove anos, quando comprou um Macintosh, “deixei de ter jogos de computador e passei a ter programas de música”. Tornou-se um viciado.

Lançou um EP em 2006, depois um álbum onde  recriou os hinos dos 27 países da UE à sua maneira, três singles, o último, “Cubo Mágico”, apresentado em festa no Passos Manuel, no Porto, há uns meses. Agora, em breve, uma box especial. “Vou lançar a 24 de Outubro, no Maxime, por altura de um concerto, uma ‘box’ especial com todas as músicas editadas, pra aí umas 50”. O novo álbum sai também nesse dia, novos temas, com novas ideias.

(Porto, segunda-feira, 19h30, Matéria Prima, “Kompakt”, “Wire”, scsi-9 a ambientar, uma “dama aflita” que não pára de olhar)

“Tira a Mão do Meu Deserto”. Um produtor a trabalhar numa loja de música, música a rodar, a rodar novidades atrás de novidades, novidades e mais novidades. “Tira a Mão do Meu Deserto”. E tudo começa assim (e esta era uma bela tirada de engate…)

“Tudo começou num dj set numa festa com esse nome. O nome era horrível, era muito longo”. Segiu-se TMD. “Parecia uma coisa pastilhada”. Ficou TAM. “Fui cortando coisinhas”. E hoje TAM é João Santos ou João Santos é TAM (risquem o que não interessar), um produtor independente que num estúdio caseiro produz a sua música.”Começou por ser uma coisa mais experimental, agora ando mais contido”. São electrónicas ambientais, ritmos sincopados e, muitas vezes, etéreos/deslizantes. “Prefiro as coisas mais calmas, mais serenas”, admite. Edita pela Variz, uma editora independente, “que quando têm dinheiro editam alguma coisa, quando não têm não editam” – e esta é a filosofia da coisa.

Na mesa algo completamente diferente. Alguém completamente diferente (nada de electrónicas ambientais e melodias pouco agressivas ao ouvido). Eis Pedro Augusto, 26 anos, o g(h)una mais conhecido da cidade do Porto. Começou em 2001, por um amigo que era “colado em breakdance”, um “geek”. Na altura ouvia noise e, “porque não?”, experimentou e gostou. “A minha primeira música  foi algo misturado com partes da emissão da Antena 2, usando uma pessoa a falar”. Nada de noise, hoje o que faz é “beat. Beats lentos e beats pesados.”

Em casa, um pequeno estúdio, como tantos outros; um computador, como tantos outros; e muitas máquinas. “Eu só uso máquinas, sintetizadores e caixas de ritmos, pedais de efeitos. Depois é que passo para o computador”. Muita electrónica abstracta. Influências da mítica Warp. Há uma descoberta dos sons da pequena Run Riot Records, editora norte-americana. Mas o que faz é, assume, “R&B, com cenas mais rápidas, cenas mais lentas mas que são duplicadas, até porque o bombo toca sempre duas vezes”. Acho que já ouvi isto antes, mas acho que não era bem um bombo.

Ghuna X, o alter ego do produtor – que antes já teve outros, que agora tem o “acid da semana” (não vos lembra nada?) – , surge d’“a cena do guna, que  tem muito a ver com o Porto e com os gunas. Acho que é uma coisa relativa á cidade do Porto”. E, tcharan, nunca antes tínhamos ouvido tal declaração de amor: “Tenho uma grande admiração pelo Porto, sou capaz de ficar por aqui muito mais tempo, sou muito estimulado pelas coisas que vejo, ao andar na cidade, e faço isto [a música] para retribuir isso”.
Criou, com amigos, em tempos, a Marvellous Tone, uma editora que lhe permitia lançar as suas edições. Talvez a falta de estruturas como a sua justifiquem o que TAM lança para a mesa: “Acho que há pouca animação para esta cidade, são as mesmas pessoas há cinco ou seis anos, não há uma renovação das pessoas”.

TAM tem agendado um novo projecto, “Música para Museus”. Ghuna X prepara um novo trabalho… “sobre magia”. A magia de tentar reproduzir o talento contido em apenas cinco ou seis na cidade do Porto.



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