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Muvi Lisboa’14

“E se a música pudesse ser vista?”

Este foi o desafio a  partir do qual nasceu o MUVI Lisboa’14, o primeiro festival de cinema específico sobre música. Nesta primeira edição do MUVI Lisboa foram exibidos 34 filmes, cerca de 80 vídeos e, em paralelo à programação principal, decorreram ainda palestras, showcases, atuações de djs, exposições e “Sessões Especiais” de canais de entretenimento

Do primeiro dia trazemos no coração os acordes da Sessão de Abertura, “Our Vinyl Weighs a Ton (This Is Stones Throw Records)”, assinado por Jeff Broadway e que  veio mostrar-se ao público pela primeira vez no palco do São Jorge.

Um documentário sobre a editora discográfica Stone Throw Records, e cujo nome vai beber inspiração ao álbum “My Vinyl Weighs a Ton”, de Wolf, que é também alvo de uma belíssima homenagem através desta Odisseia Musical.

Com início na década de 90, este é um filme que documenta de uma forma muitíssimo interessante a evolução da discográfica, sem problemas em assumir a vulnerabilidade e as controvérsias associadas a este que é o fervilhante universo da música. São 93 minutos que têm início na época em que Charizma era ainda vivo, passando pelo seu assassinato e por uma série de outros obstáculos que pautaram o difícil caminho que a editora teve de atravessar para se manter viva até aos dias de hoje.  É um documentário que nos propõe um reencontro muito particular e íntimo com todas as figuras que marcaram o percurso da editora, conseguido através de uma série de textos, entrevistas e episódios essenciais. Aos amantes do rap e do hip hop foram muitos os bombons oferecidos, já que pela grande tela vimos desfilar nomes como Kanye West, Mayer Hawthorne e Snoop Dog, e muitos outros.

Outro dos momentos altos desta primeira noite, e que espantou qualquer réstia de cansaço, foi o primeiro showcase do MUVI. Foi um concerto fantástico aquele com que o NBC nos brindou: intenso, com um rap eloquente cantado com todo o máximo do talento, entrega e energia positiva que podíamos pedir. Para um showcase que se queria intimista, o difícil foi mantermo-nos quietos na cadeira nomeadamente quando ouvimos alguns dos seus maiores êxitos, dos quais destacamos aqui o tema “Mudar o Castigo”.

Para gastar as energias que ainda trazíamos a pairar depois deste momento, fomos até à secção DJ sets, no Foyer do Piso 1 do Cinema São Jorge, na qual a protagonista da festa de abertura foi a PHIZZ.

No segundo dia destacamos, em primeiro lugar, a curta Oblivion, realizada por Paulo Segadães e Paulo Furtado, a competir nos Sonetos Cantados. Com interpretações do próprio Furtado (sob a identidade de The Legendary Tiger Man) e de Iris Cayatte, esta é a história de dois ex-amantes cujo amor aparentemente insiste em ficar e permanecer, mesmo que sem corpo terreno. São dois pequenos filmes noir que preservam uma certa tonalidade clássica em vários aspectos mas que combinam de uma forma explosiva aquilo que é um excelente trabalho de fotografia, com uma realização à qual não escapou qualquer detalhe de luz, cor, planos ou velocidade de ação. Como se não bastasse, ainda lhes faz companhia uma grandiosa banda sonora assinada por Paulo Furtado, que em tudo cumpre as expectativas suscitadas. Esta é, sem dúvida, uma grandiosa homenagem às curtas-metragens e ao potencial que as mesmas podem ter se forem encaradas da forma estupenda como o são neste filme.

Em segundo lugar, e como não poderíamos deixar de destacar, está o “Good Ol’Freda”. Um dos filmes mais esperados do MUVI Lisboa’14 e que tem como protagonista a própria Freda Kelly, que foi secretária dos The Beatles durante 11 anos. O que mais cativa neste filme é a forma comovente como Ryan White capta os relatos da sexagenária que, muito embora seguisse bem de perto a vida dos Beattles, faz questão de deixar bem claro imediatamente nos primeiros minutos do filme que não faz tenção alguma em entrar pelos pormenores da vida pessoal dos músicos. Já haviam sido muitos os convites para que Freda embarcasse numa viagem deste género mas, a única razão pela qual decidiu finalmente fazer um documentário aos 70 anos, foi o desejo de colmatar a falha de não o ter feito a tempo de o seu filho, já falecido, ver no grande ecrã os grandes momentos que a mãe teve o prazer de partilhar com a amada banda de Liverpool. E sobre amor podemos dizer que impossível é não ficar totalmente enamorado pela adorável Freda que, por entre histórias que vão oscilando entre um registo divertido e um outro que nos traz mesmo a lágrima ao canto do olho, parece ter passado a fazer parte dos nos circuitos sociais findado o genérico.

Foi ao projecto Noiserv, de David Santos, que coube a honra de fechar com chave de ouro este segundo dia de festival. Este era, talvez, o showcase mais esperado deste festival e assim que o David se apoderou do palco foi impossível não nos deixarmos conduzir por ele através do seu universo instrumental tão peculiar. Podem até parecer canções de embalar, mas afiguram-se com significados muito maiores. A conversa com o David foi a prova disso mesmo. Por entre risos soltos e outros olhares mais envergonhados, Noiserv ofereceu aos seus fãs pequenos brindes de curiosidade, tendo contado histórias sobre a forma como realizou alguns dos seus videoclips, a origem do seu nome e outras curiosidades.

 

A noite teve ainda direito à animação dos Beats&News vs Altamont e o David ainda ficou por lá mais alguns momentos a distribuir sorrisos, autógrafos e cd’s.

Do terceiro dia o nosso destaque maior vai para a belíssima homenagem que é prestada a Gualdino Barros através do fortíssimo documentário “The Ninth Life of Gualdino” (“A Sétima Vida de Gualdino”) de Filipe Araújo, e que foi também o grande vencedor das Odisseias Musicais no Palco Nacional. Uma das maiores personalidades do jazz em Portugal, ainda que desconhecida para alguns mais distraídos, Gualdino começou por ser um baterista de jazz que lançou algumas das carreiras dos artistas mais influentes do panorama actual da música portuguesa, entre os quais Bernardo Sassetti ou Jorge Palma.

Esta é a mais do que merecida homenagem a uma das personalidades mais importantes da música em Portugal, acompanhando não só os episódios da sua vida de artista (de entre os quais merece destaque o facto de ter tocado com a lendária Nina Simone), mas dá-nos também a conhecer alguns dos músicos por ele lançados e a forma como as suas vidas se foram cruzando de uma forma tão orgânica. A Filipe Araújo gabamos a forma como consegue captar a nossa atenção por entre episódios absolutamente caricatos (como o dia em que Gualdino nos conta que acordou totalmente pintado por um grupo de raparigas com as quais terá passado a noite) e que nos roubam gargalhadas à desgarrada, com outros momentos notoriamente difíceis de digerir e que retratam as fragilidades de Gualdino, notoriamente magro, débil e doente, após ter sofrido um acidente vascular cerebral.

Gualdino, do alto dos seus 75 anos, subiu ao palco do São Jorge e, se já nos sentíamos surpreendentemente inebriados e envolvidos pela sua personalidade, tê-lo ali por perto só veio intensificar mais o turbilhão de sentimentos que se foram amontoando. Só temos pena que este documentário não tivesse sido feito antes. Gualdino merecia-o desde há muito e é quase incompreensível que ainda exista quem não saiba quem foi o homem que afirma na primeira pessoa: “Eu tenho 100 anos, pá! Sou muito mais velho que o Manoel de Oliveira e do que o Papa”.

O filme mais esperado deste terceiro dia era, claramente, o documentário The Winding Stream de Beth Harrington, cuja história vem compensar a não genialidade da obra. Este procura ilustrar o impacto que a família Carter teve na história musical dos EUA, bem como levantar o véu a alguns pormenores mais pessoais sobre a vida de cada um dos elementos. Através de entrevistas variadas que se vão entre-cruzando com testemunhos de outros grandes nomes da cultura norte-americana, dos quais se destaca claramente Johnny Cash (ouviu-se até, pelos corredores do São Jorge, o documentário ser apelidado de ‘onde entra o Cash’), esta é uma história contada num tom descontraído mas que em nada foge aos cânones dos documentários que já estamos habituados. Vale, de facto, pela época e personagens de ouro que desfilam no ecrã, mas pouco mais.

O showcase do terceiro dia foi algo de… diferente. Sob o nome artístico de PZ, Paulo Zé Pimenta subiu ao palco de pantufas e pijama e, à exceção dos temas mais conhecidos como o são a “Croquetes” e a “Cara de Chewbacca”, e do momento em que a própria Chewbacca subiu ao palco, pouco ou nada se retirou deste momento musical.

No penúltimo dia de MUVI Lisboa os acordes começaram afinados pelo “Cure For Pain: The Mark Sandman Story”, assinado por Rob Gordon Bralver. Um documentário cujo nome é o também o de uma das músicas mais icónicas dos Morphine, banda cujo último concerto aconteceu nada mais nada menos do que em Portugal.

O filme procura ser um olhar íntimo sobre Mark Sandman, colocando-o no devido pódio de nome incontornável da música rock, mas Bralver nunca descura a importância que tiveram todos quantos conheceram e rodearam Sandam, existindo sempre a preocupação de nos ir conduzindo através de uma série de entrevistas, diálogos e testemunhos sublimes e que surpreendem pela naturalidade das relações que deixam perceber. A banda sonora é outro dos ponto-chave deste documentário, constituído por outras referências musiciais que não apenas os Morphine, e todos os temas parecem sempre estar a par e passo com o que estamos a ler no olhar de Sandman no grande ecrã.

A sessão de encerramento do MUVI LISBOA’14 foi o filme “Anyone Can Play Guitar“ de Jon Spira, um documentário essencialmente bonito e cativante em termos visuais, e através do qual vamos mergulhando no fervilhante universo de algumas das bandas mais importantes de Oxford, como são os Radiohead, os Foals ou os Candyskins. Acaba por ter o seu lado curioso já que parece ser um filme que faz colidir o documentário com um anúncio a uma Agência de Viagens que procura seduzir novos talentos a largarem tudo para iniciar a sua vida de músicos em Oxford mas, tirando esse seu lado algo fascinante, não o consideramos uma obra-prima.

 

Já o showcase da última noite surpreendeu pela positiva. Os jovens First Breath After Coma desceram de Leiria e revelaram uma maturidade musical algo fora do comum para idades tão tenras. Foi vê-los a espalhar magia por toda a sala através do talento inegável de todos os membros (dos quais falhou Rui Baixista no baixo, que não marcou presença) e, por entre um alinhamento que tinha tanto originais como alguns temas covers, renderam todos quantos estavam na sala.

A encerrar a secção DJ sets, tivemos a Hello Kinky, que animou a festa até às 2h00.

O domingo foi um dia mais calmo pelos lados do São Jorge e todo o alinhamento foi preenchido pela repetição dos filmes vencedores, anunciados no dia anterior numa pequena cerimónia no São Jorge. São eles:

 

Odisseias Musicais – Palco Nacional – Grande Prémio Jameson
“A Sétima Vida De Gualdino”, de Filipe Araújo

Odisseias Musicais – Palco Internacional
“Que Caramba Es La Vida”, de Döris Dorrie

Sonetos Cantados – Palco Nacional
“Oblivion”, de Paulo Segadães

Sonetos Cantados – Palco Internacional
“12 Years Of DFA”, de Max Joseph

Canções Com Gente Dentro – Palco Nacional – Grande Prémio Antena 3
“This is maybe the place where trains are going to sleep at night” (Noiserv) de We Are Plastic Too

Canções Com Gente Dentro – Ficção – Palco Internacional
“Singing Man”, de Sander Van de Pavert

Canções Com Gente Dentro – Animação – Palco Internacional
“Moving On”, de Ainslie Henderson

Prémio do Público – Grande Prémio Canal Q
“Mudar de Vida”, de Pedro Fidalgo e Nelson Guerreiro

 

 

Fotografia de Catarina Sanches.

 



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