Natacha Atlas

Em versão unplugged na Casa da Música.

A Sala Suggia da Casa da Música recebeu Natacha Atlas na apresentação do mais recente trabalho, “Mish Maoul” (2006). Acompanhada por oito músicos, a líder dos extintos Transglobal Underground apostou num espectáculo calmo e intimista, tanto em termos cenográfico, como musicais, que fez recordar as célebres sessões da MTV Unplugged. A aposta em instrumentos acústicos – o piano, os instrumentos de corda, as flautas, as precursões e, claro, a voz –, bem como um enorme palco iluminado com a ajuda de inúmeras velas e uma decoração sóbria, em muito contribuíram para este cenário, afastando em definitivo todas as recordações da fusão das sonoridades árabes com música electrónica que celebrizou o trabalho de Atlas desde o início dos anos 90.

Embora todos os músicos se mantivessem sentados, durante praticamente todo o espectáculo, a verdade é este foi um concerto bastante informal. Natacha Atlas é muito comunicativa, tendo conversado com o público logo desde o primeiro momento, ora em inglês, ora em castelhano, apresentando as canções, ajudando a decifrar as mensagens, contando pequenas piadas. Tal acabou por se revelar bastante útil, tendo em linha de conta que a maioria do repertório apresentado é constituído por temas tradicionais, cantados em árabe arcaico. A excelente voz de Atlas parece adaptar-se perfeitamente a este contexto musical, ficando clara a sua qualidade e experiência, revelando uma artista segura de si própria que prefere assumir uma postura mais contida ao invés de procurar evidenciar-se enquanto solista.

Importa ainda sublinhar, por outro lado, que os acompanhantes de Atlas eram óptimos, um trunfo que a cantora soube bem aproveitar. Revelam-se versáteis, viajando por paisagens musicais tipicamente arábicas (sempre salientada nos arranjos para violino e violoncelo e no canto em árabe, por exemplo) e outras mais ocidentais e tropicais (ouviram-se traços de bossa nova, folk music e blues). A versão de «Black is the colour of my true love’s hair» (Nina Simone) ou «Bossa Nova Theme» são exemplos da forma como a herança do crossover que celebrizou os Transglobal Underground foi agora reapropriada pela cantora, adequando a uma postura mais calma e madura – Natacha Atlas envelheceu e a sua música acompanhou-a.

Abordando maioritariamente temáticas em torno do amor, a cantora evocou ainda as questões da guerra e dos fanatismos religiosos, intimamente relacionados com a sua própria vida. De facto, como afirmou durante o concerto, a cantora e ex-Embaixadora da ONU para a Boa Vontade viveu de perto a cruel realidade de um quotidiano de guerra. Num outro tema, Atlas evoca o célebre «Avé Maria» para o refrão de um tema cantado em árabe, apelando a uma maior união entre os povos e as culturas.

O concerto terminou em apoteose, após mais de uma hora e meia de espectáculo, com a cantora e seus companheiros a serem obrigados a regressarem por três vezes ao palco principal da Casa da Música!



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