NBC, pioneiro do hip-hop Português

NBC, pioneiro do hip-hop nacional

“Tive de remar contra a maré”

Pioneiro do hip-hop lusitano, NBC ajudou a desconstruir alguns estigmas deste género musical, que diz ser “demasiado catalogado”. Já com 21 anos de carreira e perfeitamente consciente da sua identidade, promete manter-se fiel a si próprio e cantar até que a voz o permita.

NBC não é um nome familiar aos mais distraídos consumidores de música portuguesa nem é cabeça de cartaz dos festivais mais mediáticos. Mas essa não é a missão deste Português convicto nascido em São Tomé e Príncipe. Timóteo Santos veio com a família para Portugal aos cinco anos, para acompanhar o pai nos estudos. Apesar de ser a única criança de raça negra em Torres Vedras, local onde se fixou, tentou “não fazer disso um drama muito grande” pois, estando numa fase de descoberta, aprendeu a adaptar-se. “É daqui que eu sou”.

Numa fase da adolescência em que admite ter-se sentido revoltado, rapidamente tomou consciência das diferenças culturais, acabando por se adaptar naturalmente ao País, apoiado pela família, que o ajudou a definir a sua própria personalidade. Nessa altura, a música surgiu com um papel determinante, como explica: “Ainda bem que a música me veio colocar novamente no caminho, porque de certeza que iria ser uma pessoa diferente”. Mesmo não tendo a possibilidade de regressar ao País que o viu nascer com muita frequência, o músico mantém-se ligado às suas origens. “Tento estar próximo, gostava de fazer muito mais por S. Tomé”.

Descoberta da música

Aos 39 anos, Timóteo Deus Santos é um homem convicto. Apesar de ser um admirador confesso de Soul, Jazz e Blues, foi o movimento hip-hop que despertou a sua atenção na adolescência, no princípio dos anos 90. “Um dia acordei, liguei a televisão e vi uma coisa com a qual me identifiquei. Queria fazer alguma coisa que me pudesse libertar de mim próprio”, conta o músico. Hoje é considerado um dos percursores deste movimento em Portugal, com o qual não se identifica actualmente. O grupo que fundou com o seu irmão, Filhos D1 Deus Menor, foi um dos primeiros em Portugal: “Ainda que o que escrevêssemos nas nossas músicas estivesse ligado à discriminação, era sempre dito de uma forma positiva, sem reprimir os outros, também devido à nossa educação”. Após lançar um álbum de originais, o grupo terminou devido a um “conflito interior” de NBC, que procurava outras dinâmicas – “estava demasiado fechado dentro de uma caixa”- apesar de gostar e respeitar as ideologias do seu irmão, que diz serem “as verdadeiras premissas do hip-hop como ele é”. O irmão, Black Mastah, não guarda remorsos pelo grupo ter acabado: “o meu irmão será sempre a primeira pessoa que eu vou apoiar neste jogo”.

Numa época em que o hip-hop se começava a afirmar em Portugal, primeiro através dos sons tribais de General D e depois com a compilação “Rápublica”, onde figuraram nomes como Black Company e Boss AC, NBC cedo marcou a diferença pelas suas rimas eloquentes. “Tive de remar contra a maré”, confessa o músico, reconhecendo a ajuda de DJ Bomberjack no início da sua carreira. O seu nome artístico NBC, além de estar ligado às suas raízes, surge no seguimento da sua educação cristã e de um rei de Israel, “de que gostava particularmente”, chamado Nabucodonosor.

Cedo percebeu que para passar a sua mensagem teria de falar de si. “É impossível captar a atenção de alguém se acusamos a pessoa”. Admite que o ponto de viragem tenha acontecido com o seu tema «Bem Vindo ao Passado», em 2003, que marca a reviravolta entre o seu eu de antes e o seu eu depois, que é a “Maturidade” (álbum lançado em 2008). Naquilo que considera ter sido uma altura de transição num género musical fútil, NBC quis cantar, num registo mais soul, sobre as suas influências dentro do género com o qual cresceu.

Perfeitamente consciente das suas convicções, rejeita os estereótipos e as comparações infundadas, sendo esse um dos motivos que lentamente o vai distanciando do hip-hop. Além disso, e ainda que tenha tido várias oportunidades, recusa completamente cantar em Inglês. “Apesar de ser mais fácil dizer algumas coisas”, diz não fazer sentido exteriorizar os seus sentimentos noutra língua que não o Português. Não costuma ouvir os seus trabalhos, mas sim os de outros artistas que o inspiram. “Sou muito saudosista mas com os discos dos outros”. Embora não seja um artista da nova geração, admite que a internet oferece outras possibilidades de projecção e divulgação do seu trabalho. Apesar do crescente reconhecimento que o cantor tem tido ao longo dos anos e do impacto positivo que a sua obra tem no seu público, “é quase impossível viver do hip-hop em Portugal”, diz. “Eu não trabalho de todo com fórmulas de sucesso”. Dentro do género musical em que se move nos dias de hoje, NBC confessa que gostaria de colaborar com Sara Tavares e Dino D’Santiago, por exemplo, “pois são pessoas de alma lavada”.

Não é cantor a tempo inteiro, porque para isso teria de abdicar, musicalmente, de certos valores, mas NBC não vê esse facto como uma desvantagem. “Eu tenho uma missão e só quero ter a possibilidade de a cumprir”. Os Dealema, um dos mais antigos grupos portuenses de hip-hop, confirmam a paixão com que o músico encara aquilo que faz: “trabalhar com ele é uma experiência gratificante, pois além de companheiros na arte somos amigos há muitos anos e o apreço musical é mútuo. Tudo flui de uma forma muito natural”.

Outras paixões

Além da música, outras áreas despertam o seu interesse, como a fotografia, rádio e cinema, admitindo um dia vir a trabalhar numa delas, “ou até mesmo como escritor, seria interessante”. Timóteo Santos participou inclusive no “Filme do Desassossego”, em 2010, do cineasta João Botelho. Conhecido pela sua versatilidade, admite que o único medo que tem é o de um dia subir ao palco e não conseguir fazer aquilo que quer fazer. Sendo a persistência uma das suas principais qualidades, acredita que conseguirá alcançar os seus objectivos; “sou bastante convicto, faço tudo de coração aberto”.

Consciente da importância da adolescência na definição da sua personalidade, o cantor faz questão de ser um exemplo para os mais jovens. “A minha mensagem para a juventude, que está toda nos meus discos, passa por ter noção com quem ando. Na altura em que nos estamos a descobrir, ter a capacidade de dizer não quando a maior parte dos amigos diz que sim, saber que posso muitas vezes ficar sozinho, num pensamento ou numa ideia e ter que ter forças para saber lidar com essa solidão e perceber que a minha felicidade não é a felicidade do meu melhor amigo, por mais amigos que possamos ser.”



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