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Need for Speed: Payback | Análise

Um bom jogo de corridas comprometido por um ingrato sistema de progressão

Quando Need for Speed Payback foi anunciado na E3 deste ano, pensei: “Até que enfim! É desta que a série volta à ribalta.” Terminado o frenético trailer que ofereceu aos jogadores um vislumbre do que estava ainda por vir – uma jogabilidade “rápida e furiosa”, claramente inspirada noutros jogos do género, como Forza Horizon e Burnout (que saudades!) – mal podia esperar por lhe deitar as mãos acima. Com a oportunidade de analisar este título, a minha espera terminou finalmente e depois de largas horas em visita a Fortune Valley chega a hora de partilhar convosco a nossa experiência. Apertem bem o cinto porque daqui até à recta final, vai ser prego a fundo!

Claramente com uma vibe à Fast and Furious, a história de Tyler e companhia é de traição… e vingança (Payback). Enquanto que a equipa de rebeldes que protagoniza o jogo travava uma frenética luta por livrar as ruas das malhas da sombria organização The House que monopoliza toda a cidade de Fortune Valley, a cada diálogo desinspirado, a cada estereótipo… também eu lutava mas para manter o meu interesse, corrida após corrida, desafio após desafio. Ainda assim, o enredo conduziu-me a alguns momentos memoráveis. Falo sobretudo daqueles em que a acção me convidou a alternar entre os protagonistas (ao estilo de GTA V), cada um com o seu estilo de condução e com uma perspectiva diferente do que estava a acontecer. Infelizmente estes momentos foram apenas pontuais mas verdade seja dita que não é a história o principal pecado deste jogo.

Desde Burnout Paradise que nunca fui lá muito fã do formato open-world no género mas Fortune Valley, com a sua cidade inspirada em Las Vegas, os seus áridos desertos e percursos de terra-batida, tem o seu charme e um enorme potencial para entreter durante horas a fio. Desde cartazes para derrubar, mediante saltos vertiginosos ou auto-estradas e túneis para percorrer a altas velocidades, com algumas secções a desafiarem-nos a fazer melhor do que os nossos amigos (a la DriveClub), para além disso há ainda coleccionáveis por descobrir e carros abandonados para encontrar e aperfeiçoar, transformando-os em verdadeiras “bombas” (mais uma clara inspiração na série Forza). Se a isto aliarmos as várias corridas, desafios e veículos que o jogo tem para oferecer, no que toca a conteúdo estamos bem servidos.

De facto, parecia que a diversão estava mais do que assegurada… Só que, infelizmente, Need for Speed Payback provou que não é o passo em frente de que a série tanto precisava e isso deve-se ao seu sistema de progressão. Race, Off-Road, Drag, Drift e Runner, a cada uma destas categorias corresponde não só o respectivo leque de “bólides” que poderemos desbloquear mas também de missões e corridas nas quais poderemos participar com eles. Acontece que, quanto mais progredimos em cada um destes eventos, mais difícil se vai tornando participar nos seguintes. Cada corrida faz-se acompanhar por um nível recomendado ao qual o carro que estamos a utilizar terá de corresponder. Como não queremos dar por nós numa clara desvantagem em relação aos outros participantes, o melhor a fazer é assegurar que a nossa “bomba” está bem afinada. Só que, em Need for Speed Payback, ao invés de podermos controlar todos os aspectos que podem melhorar a performance do nosso carro, seja no asfalto ou em terra-batida, todo o desempenho do nosso carro é melhorado mediante a aquisição de Cartas.

No final de cada corrida, se ficarmos na primeira posição, temos direito a uma carta que pode ou não melhorar o desempenho do nosso carro. Podemos também comprá-las em várias das lojas espalhadas por Fortune Valley mas notem que estas cartas são específicas para o carro que estamos a utilizar e não para a categoria a que correspondem. Por isso, as cartas que receberem e que não melhorem o desempenho do vosso veículo, podem ser trocadas por “partes”. Este “material” pode ser aplicado num sistema ao estilo de uma “Slot-Machine”, que por sua vez também nos pode dar uma carta que nos sirva ou não…

Confuso e extremamente ingrato, este sistema de progressão compromente severamente toda a experiência de Need for Speed Payback. Ganhar uma corrida, com vários níveis abaixo do recomendado é aliciante mas, a partir do momento em que sou premiado com apenas uma carta e um evento seguinte com um nível de diferença ainda mais gritante, faz-me sentir que Need for Speed Payback recompensa mais a nossa sorte do que a nossa habilidade ao volante. Mesmo o dinheiro que recolhemos obriga-nos a pensar se o iremos utilizar a comprar cartas, ou um novo carro que também ele irá precisar de subir de nível e a dada altura torna-se inevitável que tenhamos de repetir eventos passados para aumentar os atributos do nosso veículo. Em prol de uma maior longevidade, a progressão de Need for Speed Payback mostra-se como uma incómoda pedra no sapato que nos recorda constantemente que as micro-transacções do jogo são bem mais viáveis do que o moroso “grind” a que o jogo nos obriga.

Online é onde este problema mais se destaca. Poucos dias após o lançamento do jogo, decidi experimentar o modo multijogador mas os carros que levamos para lá são os que temos já desbloqueados no modo single-player e o matchmaking depressa me fez ver o que é preciso fazer ou gastar para ser competitivo. O dia estava solarengo em Fortune Valley nesse dia e o pó tinha um sabor amargo…

Apesar de tudo isto, tanto os veículos como a jogabilidade (ainda que algo simplista) de Need for Speed Payback são definitivamente os pontos que, apesar de tudo, ainda me fazem voltar ao jogo. Este não é um mau jogo mas, a partir do momento em que perdi mais tempo a explicar um sistema de progressão que praticamente nos empurra para micro-transacções, sabemos que algo não está bem. Visualmente Fortune Valley não desilude, ainda que por vezes evidencie algumas falhas de optimização e já no que toca à jogabilidade, facilmente o jogo vos confere uma agradável sensação de velocidade que só se torna mais intensa à medida que vão trocando para um novo carro. Se conseguirem contornar o ingrato sistema de progressão, à vossa espera está um jogo de corridas competente com imenso conteúdo á vossa disposição, capaz de vos prender durante horas a fio.



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