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Nelson Carvalho

Um dos (co)produtores e engenheiros de som mais respeitados da cena musical actual.

Do gosto e cultivo, no início da sua juventude, pelos sons do pós-punk e pop-rock de vanguarda, de, entre muitos, Bauhaus a Chameleons, até à sua entrega ao meio musical de um modo mais envolvente e activo, foi um caminho que, embora paulatino, começou a ganhar impulso e forma desde cedo. Do gosto por tocar, que absorvia em miúdo através do pai, à tentativa de descortinar o lado mais puro e técnico, das ideias postas à prova e em prática, do áudio, foram passos que, mesmo que não visionados previamente, acabam agora por fazer sentido, não só na sua trajectória como nas compensações que tem daí retirado.

Ainda na faculdade, foi assistente do músico/produtor Mário Barreiros (integrante de Sexteto de Jazz) , com quem faria alguns dos discos mais emblemáticos da década de 90 – “Lustro” (Clã) e “Monstro” (Ornatos Violeta) são exemplos de um percurso que tem ganho cada vez mais reconhecimento, especialmente por parte de músicos marcantes, de antigas e novas gerações, com quem tem trabalhado.

Mas, do currículo de Nelson Carvalho contam-se discos de projectos distintos entre si, que têm firmado convictamente condutas de alguma perseverança num terreno, que parece de antemão já tão viciado como viciante. Lufa Lufa, Wraygunn, Legendary Tigerman, Sean Riley & The Slowriders, Orelha Negra, Deolinda, Virgem Suta, Samuel Úria, David Fonseca, Clã, Humanos, Mão Morta, Rita Redshoes, Frankie Chavez, mas também, e desde há algum tempo, entre alguns mais, a dupla de jazz Bernardo Sassetti e Mário Laginha, Maria João, Sérgio Godinho, etc.

A RDB foi até Paço de Arcos, ao seu estúdio na Valentim de Carvalho, motivada em conhecer melhor este técnico/produtor, o modo como encara as noções e handicaps do meio, os músicos e sua música.

Como todos os caminhos de um modo geral, este, nesta agradável conversa de início de tarde, também se moveu por vias curiosas, não fechadas, onde não foram esquecidas personagens que lhe incutiram o gosto e o querer saber mais para além dos interesses que ia já assimilando (o caso do radialista António Sérgio), uma sucinta abordagem ao modo como opera neste vasto circuito e o apreço e considerações a nomes e artistas com que se rodeia.

Se em inícios da anterior década e finais da precedente tocar em salas entretanto extintas por todo o país, nomeadamente em Lisboa (Johnny Guitar, Oceano), Coimbra (Le Son), Porto e Gaia, era algo que ajudava não só na divulgação e conhecimento de novos valores como nos meios técnicos dispostos para o efeito, agora o quadro não é, na opinião de Nelson, assim tão animador.

“Acho que se queimaram muitos recursos. O facto das Câmaras pagarem, em tempos, os concertos todos, de já ter havido mais dinheiro gasto na música do que alguma vez era suposto ter sido gasto, até porque isto não é uma actividade supostamente assim tão subsidiada, não tem ajudado no presente. Julgo que o rock e a pop deviam funcionar por si próprios. Esta é uma actividade rentável, ou devia ser se não se tivesse viciado o jogo logo à partida” revela com algum desânimo acrescentando, “acho que já foi mais fácil isso funcionar do que agora. Tudo isto, junto com os hypes que só funcionam nas capitais e não têm tradução no resto do país, deixa-me sempre de pé atrás quanto ao futuro risonho das bandas, independentemente do valor de algumas delas”.

A visão do engenheiro/produtor não é perene, reforçando mesmo que “é muito difícil tocar, ou melhor, crescer em si vai sendo cada vez mais complicado. O pessoal ficará, de um modo geral, naquele patamar porreiro de tocar para os amigos e mais umas pessoas, mas acaba, se não houver algum rendimento, inevitavelmente por procurar outra coisa. A mim chateia-me, por conhecer os dois lados dessa questão. O que vejo hoje em dia é que é muito rápido o processo de aparecerem e ficarem públicos o que se por um lado é bom, tem outra desvantagem grande, que é o facto dos projectos não serem maturados quanto o eram lá atrás. Dantes tinhas de perder algum tempo, dar umas cabeçadas na garagem e depois saías e ias validando aquilo contra as dificuldades, agora é tudo um pouco rápido. Julgo que rápido demais. Talvez o ponto alto tenha sido quando tinhas tudo a funcionar, com qualidades verdadeiramente interessantes para os espectáculos em si. Tinhas o Le Son, na zona industrial da Pedrulha, Porto e Gaia também estavam a funcionar bem, Lisboa ainda tinha o Johnny Guitar e se reparares eram sítios mais capazes que os actuais. Actualmente há de facto sítios com alguma pinta, mas sem as características necessárias para operar e ir controlando todas as variáveis, a menos que invistas nisso. No caso do David Fonseca, por exemplo, tenho essas condições reunidas. Custaram um pouco, já que saem do bolso do artista, mas o resultado é bastante recompensador”, clarifica.

O seguimento da conversa não é de facto linear; é como se, cada vez que se lembra de algo, mais viagens e ideias se intrometessem nesse seu caminho e de súbito parasse para as considerar.

Voltámos ao seu início de percurso, ao trabalho como assistente de Mário Barreiros, à lembrança de António Sérgio e Carlos Bica como responsáveis pelo gosto, procura e alargamento das sonoridades que ia absorvendo.

“Bem, quando conheci o Mário, também já estava a fazer Clã. Ele trabalhava com Clã e Ornatos e estava a precisar de um assistente e eu fui para lá. No início nem ligava muito a este estúdio, até que passados alguns anos acabei por ficar com o gosto pela coisa… Acho que só mesmo quando ficas sozinho é que acabas por perceber”. Acabaria por se tornar freelancer no entretanto.

A exactidão na resposta acerca do momento em que se torna técnico de som, não a consegue dar. É como se na viagem de Nelson, no seu caminho, não fossem precisas datas específicas para entender o modo como o tem vindo a percorrer.

“Carreguei caixotes! É a única maneira de entrar neste meio”, brinca. “Gostava de música e de perceber como é que se faziam as coisas. O meu pai já tocava, daí a ter ficado do outro lado não sei explicar como é que aconteceu exactamente. Tinha um gosto especial pelo underground e pela cena mais pop gótica, que agora está aí a voltar com a reedição de Bauhaus (pausa)… Gostava também de Chameleons, etc. Mas julgo que foi o António Sérgio quem acabou por me abrir os olhos para muitas coisas. Se vais ouvindo e acompanhando vais ficando mais receptivo, juntando-se a isso o facto de ter feito muitos trabalhos em Serralves. Depois vais trabalhando neste meio e vais descobrindo outras coisas e percebes. Espera aí! Afinal não é só isto. Há coisas diferentes para ouvir. O Carlos Bica foi, com o “Azul”, talvez o maior responsável por eu começar a gostar de jazz.” (pausa)

“Fiz discos que foram históricos, com o Mário. Fiz o primeiro de Silence 4, o “Monstro” dos Ornatos, o “Lustro” dos Clã. Muitas coisas engraçadas foram feitas com ele. Depois acompanhei algumas dessas tours e a compensação foi bestial. Só há uma maneira de estares nisto. Ou estás a 100% ou não consegues, porque tem alguns custos a nível pessoal e familiar, como tempo e cansaço. Há alturas de pico e não podes dizer que não aos projectos”, refere.

O dia-a-dia e mecânica das técnicas de som e/ou produção passa por várias fases. Nelson elucida sucintamente: “há uma primeira fase, em que vejo as coisas na sala de ensaios, o que a banda está a fazer, vou sugerindo coisas, outras deixo ficar mesmo que não concorde, pois há uma entidade que tenho, na minha opinião, de respeitar”.

Nesta sequência falo-lhe de alguns projectos actuais com um cariz ou apreço pelo lado mais cru ou artesanal, quase lo fi, da gravação. NC explica: “As soluções para captar são diversas e todas válidas, nem sempre as mais fáceis para ter o lado técnico resolvido. A maior graça em trabalhar com esse pessoal mais novo é o que muda, porque fazer sempre o mesmo é uma chatice. Quando acho que a banda está pronta, ou algo o indica por causa dos timings, eles vêm para cá, infelizmente já não há muito tempo para gravar, mas depois deixam-me aqui sozinho. Vou entregando, vendo o que é que eles gostam e o que não gostam, eventualmente se a coisa não estiver bem ainda têm que cá voltar uma segunda vez, não sendo nada bom quando isso acontece (risos) e neste momento tenho cinco ou seis projectos a meio disso.”

Levantando um pouco as ideias de alguns projectos que se intersectaram mais recentemente no seu caminho diz: “normalmente trabalho, em termos de produção, com artistas com uma personalidade forte, já que como engenheiro não tenho latitude suficiente para isso. Ou seja, em termos de produção não posso ajudar os projectos que não entender ou não tiver a mínima afinidade. Como engenheiro é muito fácil, porque já ouvi tantos discos que tecnicamente bastará lembrar alguns deles e a cabeça leva-me lá. Em termos de produção é diferente, tenho de dar muito mais de mim, de estar no mesmo universo ou lá perto da banda, ou pelo menos entendê-lo”.

Sendo sobretudo um engenheiro de som, considerando o facto de que muitas das coisas que produz serem em concordância com as bandas que as incorporam, fazendo dele co-produtor das mesmas, sente neste momento não existirem grandes diferenças com as produções internacionais que as tornem superiores, “têm sobretudo mais experiência, mas aqui há mais tempo para perder com as bandas, outro acompanhamento, conheço o passado deles, de onde é que vêm e para onde vão. Penso que o que neste momento a produção de lá de fora poderá fazer melhor é o mastering.”

É difícil, quase inefável, muitas das vezes, saber de alguém tão directamente relacionado com o meio quais os projectos que mais agradam ao próprio. Nelson começa peremptório “eu gosto de todos em que trabalhei” (risos), mas acaba por expandir os seus gostos e surpresas. “Tive sempre os projectos de jazz, de qualquer modo, à custa de ter trabalhado em Serralves e ter feito muitas coisas com o Quico Serrano… Trabalho já há alguns anos com o Sasseti e Laginha e é um registo em que me sinto igualmente bem a trabalhar. No jazz estás sempre no limite, tens sempre de questionar se é aquilo, daquela forma, que queres fazer e isso agrada-me bastante. Acho que por vezes o mais complicado na música com instrumentistas muito bons é eles tocarem música para o seu umbigo. Gosto mais de trabalhar com pessoal que já passou por aí e que entende o que a música precisa, de um modo simples, sem teres de ouvir aquelas coisas cheias de excessos que, tantas vezes, não fazem sentido para as músicas. Tocar o que a música precisa e isso é mais difícil perceber se não se tiver background, tem principalmente a ver com aquilo que ouviste até lá. A ideia de dez sons ou notas para dizer aquilo que um, com qualidade, faz chateia-me um pouco”.

Nos projectos actuais a boa surpresa foram os Orelha Negra; “estava um pouco receoso em não entender exactamente o que eles queriam, pois não era nada que tivesse feito até agora e gostei muito do projecto. Não é normal estar um hype à volta duma coisa instrumental e é algo muito engraçado isso. O Sam The Kid é uma personagem também muito forte, gostei de conhecer o Francisco Rebelo e o João, e está muito bem conseguido este trabalho.”

Também Frankie Chavez foi lembrado nas boas novas. “É um excelente guitarrista, humilde, funciona como one man band e alguns recursos usados foram semelhantes aos usados no “Femina” de Tigerman, especialmente na junção de vozes.”

A agenda de Nelson Carvalho está bem preenchida no ano que ainda há pouco iniciou. Se num qualquer concerto de David Fonseca, Clã, Virgem Suta, Sérgio Godinho e alguns vultos do jazz atentarem a qualidade sonora despertarão para quem merece tais direitos de reconhecimento autoral.



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