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Entrevista a Lidija Kolovrat

Lidija Kolovrat tem uma visão singular, provocadora, jocosa e interdisciplinar. Designer de moda? Realizadora? Artista Plástica? "Já pensei muito sobre isso, mas as designações não são importantes."

Lidija nasceu na Bósnia Herzegovina em 1962. Em 1979 frequentou a Academia de Cinema de Zagreb (Croácia), mas no ano seguinte decide mudar-se para a Escola Superior de Design Têxtil e de Moda, na mesma cidade.

“Sempre gostei de cinema, mas o processo de fazer um filme é muito lento e eu queria uma coisa mais rápida. Foi por isso que estudei moda e tecnologia têxtil. De certa forma, foi um desafio. Acho que a moda não é o meu talento maior, é uma forma de conseguir ver em que direcção vai a imagem. Há alguns aspectos que me afastam: é vista como uma disciplina pouco culta e, para além disso, é um mundo um pouco aborrecido. Quando penso uma colecção ela não se relaciona só com moda. Como é que é o mundo? Como é que vão ser os próximos tempos? Não só na moda. Um universo tem várias pontas. Eu preciso de falar, de comunicar”. Talvez por isso se continue a dedicar ao cinema. “Tenho vários vídeos que realizo. Coisas interessantes. Vão estar disponíveis na internet em breve”.

Entre outros, dirigiu “Istinizam” (2001) e “Cavalo e Lua” (2006), este último para a Gulbenkian. Para além disso, apresenta frequentemente esculturas e instalações em exposições: “Hair Cut” (2004) e “Glam Hotel” (2007) são alguns exemplos.

Decorria o último ano da década de 80 quando Lidija Kolovrat encerra o Atelier Savitri em Zagreb. Em 1990 vai viver para Lisboa. “Foi uma mudança de vida, o momento em que se forma uma família. Eu formei a minha em Portugal”, comenta. Sobre Lisboa, a cidade onde vive e trabalha, afirma ser um sítio onde tem muita liberdade. “Quando viajo e ando de um lado para o outro, sinto que as coisas estão um bocado formatadas. Hoje, por exemplo, ouvi: Vim a Lisboa e encontrei um povo que nem se governa, nem se deixa governar. É um pouco isto. Por mais que viaje, aqui posso estar muito solta, muito à vontade”.

Em 1996 reabre a Galeria Pedro e o Lobo. Começou por ser o seu atelier, mas com o passar do tempo deu lugar à actual Kolovrat Concept Store, onde Lidija nos recebeu para esta conversa. Um espaço versátil no qual atelier e loja se fundem, apenas as máquinas estão numa outra divisão. Podemos assistir a tudo, nada é segredo. “Temos uma forma muito pouco formal e espontânea de nos relacionarmos. Divertimo-nos! Há muita observação, muita pesquisa, muito movimento. Depois vêm os estagiários, gente de toda a parte da Europa. Alguns colaboram comigo há cinco anos. Vêm e voltam e eu gosto muito de trabalhar com eles”, conta.

Na área do ensino o seu currículo é vasto. Dirigiu o workshop “Moda e Anti-moda” na Aula do Risco, em 1992. Depois dessa experiência, orientou “Geometry and patterns”, no IED-Instituto Europeu de Design em Madrid, “The Walking Creativity”, um Master Class em pesquisa para a Camper com a participação de 13 artistas multidisciplinares e “Manuals for Moments”, um workshop em Viena para a Universidade de Artes Aplicadas de Viena. Em breve estará numa conferência na Faculdade de Arquitectura de Lisboa e está a planear alguns workshops pontuais. “Gosto muito de ensinar, mas sem ser aquela coisa de estar fechada numa sala. É uma partilha e isso interessa-me”.

A marca Lidija Kolovrat estreia-se em 2002 na ModaLisboa/Lab e passa a fazer parte do calendário oficial da LisboaFashionWeek, onde apresenta regularmente as suas colecções. Em Março de 2006 exibe pela primeira vez uma colecção de homem. “Quando começo a desenvolver uma colecção cruzam-se várias coisas: moda, política… Depende do que quero expressar. É subjectivo. Às vezes é por piada ou é um feeling. Para a próxima colecção ainda não sei qual é o feeling, mas vou trabalhar homem de certeza”.

A relação entre corpo e objecto é a base dos exercícios que a levam a um produto. Neste contexto, Lidija foi responsável pela criação de figurinos para as obras “Stop and Start Again” e “Anjos, Arcanjos, Querubins e Serafins” da coreógrafa Olga Roriz, “Noite e Fabrico Próprio” de Amélia Bentes e “Silêncio” de Clara Andermatt e pelos guarda-roupas de várias peças de teatro.

Em Dezembro de 2008, Lidija lança IN-Vento, uma linha de acessórios que a autora tem apresentado em diversas cidades e um aparte nas colecções regulares. “É uma linha de malas de senhora silk and steel baseada na Jeanne d´Arc. A sensualidade de uma mulher feminina e ao mesmo tempo agressiva”.

“De 0 a 8” é o nome da sua mais recente colecção, também ela de acessórios. “O oito é um zero torcido. Representa a mudança. É como uma reacção ao nada. Tudo depende de nós, ninguém nos tira nada. Ainda há muita coisa que quero fazer a partir daqui, tenho muito a explorar neste conceito”, explica.

Quando lhe perguntámos sobre o futuro, a resposta foi pronta e precisa. “Queremos apresentar em Paris. Não há dia em que não digamos: Next season we’ll go to Paris!”



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