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Nicotine’s Orchestra

Nick Nicotine parece que anda entre nós desde sempre. Nos Ballyhoos, nos Act-Ups, nos Los Santeros, à frente do festival Barreiro Rocks…

Em 2006 lançou-se a solo: eis a Nicotine’s Orchestra. Enquanto one-man band, Nicotine cantava, tocava bombo, guitarra e teclas e, às vezes, ainda arranjava tempo para bater palminhas. Começou com um mini-álbum chamado “6 Songs” e depois veio um disco a sério (e que disco!) com um título pomposo, em francês, “La Trahison des Sons”. E, agora, chega-nos um novo registo de originais. Um não, dois! O primeiro é “Ghosts and Spirits” e o segundo, lançado (ainda mais) recentemente, é “Open Water”. Este não tem edição física, mas em compensação também não custa nada. É só ir à página pessoal da Nicotine’s Orchestra e baixá-lo gratuitamente.

O projecto tem crescido e o formato one-man band tornou-se limitado para Nick Nicotine. Assim, apesar de continuar a gravar tudo sozinho, no seu estúdio, o King, no Lavradio (Barreiro), Nicotine convocou uma banda de carne e osso para o acompanhar em palco: a Mystical Orchestra. A Rua de Baixo viajou até ao Barreiro para conversar com Nick Nicotine sobre todas estas coisas. E sobre a mudança do horóscopo como nós o conhecíamos.

Anunciaste no teu myspace, ainda meses antes de sair “Ghosts and spirits”, que andavas a ouvir fantasmas e que decidiste gravá-los também. Esses fantasmas sempre existiram na Nicotine’s Orchestra e limitavas-te a ignorá-los ou só apareceram agora?

Na contracapa do “Ghosts and Spirits” está uma frase que, se ignorarmos o carácter machista da mesma, explica tudo isso. “Ghosts, like ladies, never speak till spoken to”. Em suma: somos nós que provocamos os fantasmas, que os invocamos, que vamos à procura deles. No meu caso foi o que se passou, passei a estar mais atento aos sons que, não existindo, fariam parte de determinada música. E gravei-os.

Confessa lá: eram mesmo fantasmas que andavas a ouvir ou era apenas a consciência a martelar-te por andares a enganar a malta e a Nicotine’s Orchestra não ser nada uma orquestra e ser apenas um tipo que tocava tudo?

Eram fantasmas do áudio, espectros sonoros. Estão dentro de mim mas só saem se eu lhes der ordem. E têm a capacidade de pegar num ponto de partida musical e levá-lo para locais desconhecidos. Depois vou atrás deles e trago-os para a minha zona de conforto, mas a música já não volta a ser a mesma. A minha consciência, no meio disto tudo, não tem palavra. Já a minha inconsciência tem andado muito atarefada.

Deixaste o imediatismo do one-man band, onde tocavas guitarra, bombo, teclas e cantavas, e gravaste um disco de estúdio, mais produzido, com arranjos, segundas vozes e essas coisinhas. O que tens a dizer se eu te disser que te tornaste no Brian Wilson do Lavradio?

Não tenho muito a dizer. Suponho que o Brian Wilson também gostava muito de coisinhas, como eu.

Que principais diferenças apontas entre a Nicotine’s Orchestra one-man band e a Nicotine’s Orchestra formato banda tradicional?

A principal diferença são, precisamente, as tais coisinhas. Vamos a ver se eu consigo explicar. A Nicotine’s Orchestra é o meu projecto a solo, onde vou gravar tudo o que me apetecer sozinho. Porquê? Porque posso e tenho vontade. Sempre foi isso. Eu nunca gostei muito de me ver no formato one-man-band. Eram os tais fantasmas que ouvia nas canções. Eu estava a tocar um tema e haviam ali uns harmónicos, umas outras coisas que eu achava que ouvia, mas quando ia ver e ouvir as gravações achava tudo muito pobre. Entendo que a coisa funcionava para quem via mas, tal como a maior parte das one-man-bands, a atenção estava mais focada no factor “macaquinho do circo a tocar tudo ao mesmo tempo” do que propriamente nas canções. Quando descia o tempo no meio de um concerto e tocava uma coisa mais calma (sou um romântico) o factor visual desaparecia e sentia-me um bocado perdido.

Fartei-me, e no segundo disco deixei de me impor esse formato, mantendo a premissa inicial, ou seja, projecto a solo onde gravo tudo. E comecei a meter lá todos os sons que me apetecia ouvir, as tais vozes e coisinhas que falavas. A qualquer momento posso tocar qualquer um dos temas no formato antigo, mas duvido que me apeteça fazê-lo tão cedo. Ao vivo, agora, conto com a ajuda do Tony Fetiche, Pistol Pete e Killer E (The Snake), a minha Mystical Orchestra, banda que eu tenho muita dificuldade em considerar como tradicional. Somos místicos e acreditamos que as novas tecnologias wireless não são mais que um aprimorar da nova escola de telepatia trazida ao mundo por Uri Geller.

Notas que a passagem de one-man band para banda completa transformou a Nicotine’s Orchestra num projecto novo ou continuas a ver as canções da mesma forma?

A premissa, como disse, é a mesma. Só muda mesmo algo que tem vindo a dominar as discussões sobre música nos últimos anos: que instrumentos estão a ser tocados e por quantos músicos.

Sinceramente não percebo qual o interesse dessa questão em particular. É informação que eu considero desnecessária para a fruição musical. Quando oiço música ou gosto ou não gosto. É simples. Ou me toca ou não me toca. Se é um gajo, duas gajas ou uma orquestra de elefantes é completamente secundário. E de há uns tempos para cá, parece que o número de elementos de uma banda e os instrumentos que utilizam determinam, de alguma forma, a qualidade de um projecto. “Eu gosto de one-man-bands” é algo tão vago como dizer “eu gosto de bandas de quatro elementos, dos Beatles aos Metallica”. Ou seja, eu continuo a fazer as mesmas canções, sejam elas tocadas apenas por mim ou por mais cinco ou vinte gajos. A Nicotine’s Orchestra, para mim, é o mesmo projecto que era no início. Agora o que mudou foram os limites que me impunha. Tal como qualquer outro projecto, este também cresceu, amadureceu, já está no ensino secundário. É um adolescente que já tem algumas ideias acerca de para onde vai, mas que de vez em quando muda radicalmente de opinião, rouba o carro aos pais, embebeda-se, vai preso e… estás a perceber.

O “Ghosts and spirits” é um disco que tem vindo a crescer, à medida que a sua exposição aumenta, sobretudo na Internet. E, de repente, lanças um disco novo. Foi um relampejo de criatividade ou é verdade que tens um baú no estúdio cheio de canções e que, se quisesses, lançavas um álbum novo a cada quinze dias?

É o adolescente, estás a ver? Tenho esse baú, meto lá coisas todos os dias e de vez em quando espreito lá para dentro. Normalmente, está tudo como deixei mas, de vez em quando alguém vai lá e arruma-me aquilo, agrupa algumas e deixa-as juntinhas umas às outras. Nesse dia, a adolescência da Orchestra, leva-a a pegar nesse grupo de canções e gravá-las. Tem que ser feito, é um ímpeto demasiado forte. É que este é um adolescente em fase final, quase adulto, que já tem alguma noção de que isto pode não durar para sempre e é melhor aproveitar e ir mostrando o que se tem feito porque a qualquer momento, zau, kaput, pumba, acabou tudo.

Tenho um telemóvel com montanhas de temas lá gravados. A única coisa em que sou mesmo muito organizado na vida é neste processo criativo. Gravo todas as ideias que tenho. Tenho pelo menos duas ou três ideias, daquelas mais sérias, por semana. Como disse o Guterres, é fazer as contas.

Em relação ao “Open Water” ouvi de tudo, nas últimas semanas. A melhor opinião falava-me acerca de suicídio comercial. É o rir. Qual é o problema em lançar um disco a cada três meses? Ainda por cima quando se trata de um download gratuito? Eu percebo que, para uma editora, fazer um investimento num ano e fazê-lo render durante dois ou três é muito melhor que fazer o mesmo investimento várias vezes ao ano. Mas é mesmo só isso. O negócio da música impõe-se à criatividade, todos os dias. Os artistas acham que pensar em timings para criar é algo normal. Não é. Gravar dez temas a cada dois ou três anos é muito pouco. É pouco para o vosso público e, se gostam do que fazem, devia ser pouco para vocês, porque um músico não se mede pelas boas fotos, bons vídeo, boas entrevistas. Isso são tudo coisas muito boas para desanuviar a cabeça mas o foco principal de um músico deveria ser fazer muita e boa música.

Isto é a minha afirmação: vou criar quando quiser, com quem quiser, gravar quando quiser, fazer as bandas que quiser, da maneira que eu quiser, e vou divertir-me mais que todos enquanto o faço. E meto a língua de fora a quem não pensar como eu (este adolescente de vez em quando tem laivos de infantilidade brutais).

Por entre os teus vários projectos, como é que te organizas no que diz respeito à composição? Quando começas a escrever um tema já sabes previamente que vai ser para a Nicotine’s Orchestra, para os Act-Ups ou para os Singing Dears, ou compões e depois é que vês onde é que o arrumas?

Depende de onde andar com a cabeça na altura. Se estiver a pensar gravar algo com os Act-Ups, por exemplo, é natural que ande à procura de algo e é provável que vá encontrar algo que lá se encaixe. Se não houver projecto de gravar em breve, tenho a ideia e tento relacioná-la com a voz própria de uma das bandas que eu tenho. Há coisas que são chapadas: isto é claramente para esta ou para aquela banda. Tenho muitas bandas mas sei bem qual é a personalidade de cada uma. Devo dizer que, nos Singing Dears, o meu papel é o de um baterista básico e antipático, preocupado mais em tocar bateria do que propriamente em fazer canções. Isso é com eles, e safam-se muito bem, acho.

Este ano que passou assistimos à elevação do Barreiro como capital nacional do rock, com direito a capas de suplementos culturais e tudo. No entanto, tu próprio, a Hey Pachuco e, basicamente, o rock’n’roll, já existem há uma catrefada de anos no Barreiro. Que se passou para o pessoal deixar de olhar sempre para Coimbra e passar a olhar também para a Detroit portuguesa?

Passaram-se dez anos de muito trabalho. Gerimos bem a coisa e o festival ganhou uma presença própria na Europa. É natural que após tudo isto as pessoas começassem a reparar no que se tem feito e no potencial que existe. O facto da Pachuco e de muitos barreirenses ser um grupo de pessoas que sabem receber e que gostam de se divertir até ao limite ajudou muito a passar uma determinada imagem do Barreiro. Há aí um lado positivo e um lado negativo. O positivo tem a ver, claro, com o destaque que temos recebido. É óptimo ver o Barreiro com notícias positivas na imprensa. A parte pior, tem a ver com os preconceitos. As pessoas jogam muito com as zonas de segurança, as capitais do rock, as Detroits, e isso por vezes faz com que vejam coisas que não existem e fiquem cegas à diversidade do que existe. Como em tudo, acho que o que é preciso é haver suporte para o que se fala e isso só acontece com organização e trabalho. Vamos continuar a dar o melhor.

Regressando a “Open Water”: foi lançado em edição digital. Porquê? E é processo para continuar ou vamos continuar a ter discos da Nicotine’s Orchestra em edição física?

A primeira parte é fácil. Não somos ricos. Não dá para editar um disco de três em três meses. Para já sai em digital. Estamos a pensar fazer uma edição mais caseira deste disco, um artigo de colecção (ou seja, algo artesanal e barato). Para o futuro logo se vê. Gostava sempre de editar tudo em todos os formatos.

Última pergunta: e agora? O que é que vem aí?

Depende daquela cena dos signos. A Orchestra começou em Outubro, é Balança. Se continuar a ser Balança, sei que o futuro será sorridente, cheio de luz e alegria, saúde, uma Penélope Cruz e um euromilhões. A paz no mundo também não é descartável, neste cenário. Se a Orchestra mudar de signo temo pela saúde deste planeta. Certezas: irá começar a cair chuva do céu, as florestas arderão no verão, os nossos governantes transformar-se-ão em pessoas ignorantes, o Verão não durará mais que três meses, o suficiente para que ardam bastantes florestas. Não gosto dos fogos florestais, acho que eram perfeitamente evitáveis. Bastava pararem com a idiotice de quererem mexer nos signos.



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