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Que Noite é esta?

Há qualquer coisa viva quando a noite cai no Porto. Habituada a divertir-se por pólos, nunca a cidade viu tanta articulação entre a oferta. Os portuenses andam orgulhosos – recuperaram a noite da cidade.

Depois de 2001, ano de Capital Europeia da Cultura, o Porto entrou aos olhos da generalidade dos seus habitantes numa modorra existencial. Falar da cidade era invariavelmente deprimente. Deserta, decadente, sem nada para fazer. Cumpriu-se o adágio: não há fome que não dê em fartura. Menos de 10 anos depois a cidade parece outra. Não é só o Clubbing na Casa da Música, não é só Serralves. É sobretudo a baixa, o orgulho cinzento virado granito iridescente. E, para melhorar as coisas, os portuenses não estão sozinhos nos elogios. A agitação dos últimos meses é indesmentível e quase consensualmente bem recebida. Para cúmulo, coincidiu com iniciativas de promoção da cultura como motor de desenvolvimento e prosperidade. Este texto não quer ser conversor de ninguém a verdade nenhuma. É apenas um passeio por alguns dos locais obrigatórios no roteiro nocturno do Porto. Um retrato introdutório, ainda que precário, do organismo vivo para o qual a noite portuense evoluiu.

A noite começa quase sempre no centenário Piolho, café e proto-restaurante com esplanada num enclave universitário. Em 2006 o Piolho fechou para obras e mais recentemente prolongou a hora de fecho. Historicamente ligado ao mundo académico, recebe grandes multidões nas noites de fim-de-semana, gente que se vai espraiando pelo largo passeio e cafés adjacentes até à hora de sair mais a sério. O Piolho é o ponto de encontro perfeito: preços académicos, central, bem servido por transportes públicos, parque público nas imediações e a meio caminho entre o circuito dos Clérigos e a baixa de maior altitude. O público é o mais diversificado possível, o que não é necessariamente um elogio. O Armazém do Chá, café-bar na Rua José Falcão, de frente para o Café Lusitano, é uma alternativa viável. Apresentando uma decoração simples, mas não simplista, o Armazém do Chá abriu em 2008 e desde então é um espaço convidativo para tomar um café, beber um copo, petiscar, conversar. Se for mais tarde também se pode subir para a pista de dança.

Depois dos aperitivos, alimento mais substancial. Na Rua de Passos Manuel, epicentro do anterior deserto e depois original pólo de agitação nocturna na baixa portuense, há muito por onde escolher. Colado ao Coliseu do Porto, instalado num antigo cinema, está o Passos Manuel. Aberto em 2004, o Passos Manuel é  refém do pouco espaço: no piso térreo servem-se bebidas e dj sets, a cave tem uma vocação mais clubber. Há ainda o auditório onde passam filmes e se fazem concertos. Acossado pelo movimento nos Clérigos, o Passos Manuel reagiu em duas frentes. Em conjunto com os outros dois bares da rua organizou o Alta Baixa, mini-festival de um dia sob o lema “uma noite, três casas” em que, sob o pagamento de 5 euros, o cliente pode passear-se por todos os espaços. Internamente, criou as noites Passos de Aeróbica de regularidade mensal, apoiadas por uma publicidade intensa junto ao público, estratégia pouco comum do bar com nome de rua. Mais abaixo, e atravessando a rua, está o Pitch, aberto desde 2006. Quando abriu foi muito bem recebido, entretanto caiu na lista das prioridades de quem sai à noite, mas mantém o seu espaço decorado com bom gosto nos dois pisos, bar no piso térreo e discoteca na cave. O Pitch é outro dos vértices da Alta Baixa, noites que apostam em (re)promover esta zona da baixa para que o público regresse e os neófitos a passem a conhecer (e a gostar). Regressando para junto do Coliseu, os bons vícios são Maus Hábitos. No 4.º andar do número 178, o café-bar de “intervenção cultural” tem uma galeria, uma esplanada para fumadores, uma sala mais lounge (a Sala Nobre, agradável quando a música não está excessivamente alta) e uma sala de espectáculos. O Maus Hábitos nasceu em 2001 e é um projecto multifacetado q.b., organizando ainda workshops, alugando o espaço, servindo refeições, fazendo amigos e co-organizando as noites Alta Baixa.

Esgotada a artéria, descemos até ao eixo dos Clérigos, o dínamo maior da reanimada noite do Porto. Na Rua da Galeria de Paris, a mais badalada, já há vários bares. A Casa do Livro é um deles. Localizado no número 87, onde em tempos houve uma livraria de respeito, é um lugar privilegiado para, por exemplo, tomar um café ao longo da semana. Nos fins-de-semana a rua acolhe grandes enchentes, espalhadas pelos vários espaços de diversão nocturna, e o convívio mais calmo sai prejudicado. Na Casa do Livro podemos ir instalar-nos na esplanada, na sala de entrada ou na biblioteca (herança da encarnação anterior de decoração imaculada) – não importa onde estamos, a sensação de bem-estar é constante, sobretudo se houver espaço e silêncio de quarta-feira para contrapor ao rebuliço de sábado à noite. Depois é ir acompanhando a conversa com um café, um cocktail ou simplesmente assistindo a um concerto ou apresentação. Na rua paralela, a Cândido dos Reis, mora o Plano B desde 2006. Moram também outros bares (há planos para pelo menos mais um) e até lojas, como a Mezzanine ou a Take Me. O Plano B não é só um espaço de lazer, é todo um programa cultural que se desdobra e é mais visível em eventos como o “Se Esta Rua Fosse Minha” e o “Natal Feito À Mão”, ambos me parecendo tristemente epidérmicos. A real mais-valia está dentro de portas. No piso de entrada somos recebidos por um hall que também serve de galeria expositiva ou espaço de performances e por um café, ornamentado com confortáveis sofás. No piso de baixo há dois bares e duas salas de espectáculos, uma mais vocacionada para a música ao vivo e a outra dedicada a dj sets. A decoração do Plano B é um requinte triunfal, uma espécie de urbanismo bucólico.

Abandonando a antiga rua dos armazéns de tecidos (ainda sobram dois), não precisamos andar durante muito tempo até chegar ao Gare Club na Rua da Madeira, mesmo ao pé da Estação de S. Bento. O Gare abriu na primeira metade do ano passado e assume-se essencialmente como um local de abrigo para novas tendências e música electrónica. Mais club (no sentido britânico do termo) do que discoteca, o local está dividido em duas metades: uma zona para fumadores que é um wine bar competente, mas de apresentação deficiente, e a zona livre de fumo onde há mesas, um bar e a pista de dança, claro. O ambiente é escuro e granítico, apetece dizer industrial. O Gare abre às sextas e sábados além de uma quinta-feira por mês.

É um retrato razoável do que é a baixa do Porto à noite. É importante perceber que a cidade oferece outros motivos de interesse para conviver, não necessariamente à noite ou na baixa do núcleo duro. Basta pensar na Casa do Chocolate Arcádia na Avenida da Boavista, óptimo sítio para se lanchar. Ou no Lobby, café acolhedor na Rua Adolfo Casais Monteiro com o melhor capuccino para o período pós-jantar acima do Mondego. Ou no Doce Ritual, pequeno café na Rua da Torrinha onde o pequeno-almoço vira realmente a principal refeição do dia. É importante que o Porto se saiba oferecer por inteiro, com equilíbrio, sem amores assolapados que se limitam a comichões. O último a chegar é cabeçudo.



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