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Noite em Munique

A capital da Baviera, as suas esplanadas, biertgartens, cafés e clubes. Música da Gigolo Records, Gomma, Great Stuff, Ersteliga acompanhados por uma Weisswürst.

O Nuno tem 21 anos. Até há 6 meses atrás, tinha vivido toda a sua vida em Cucujães, distrito de Espinho.

Ao tomar conhecimento de uma oferta de estágio no departamento de comunicação de uma prestigiosa organização astronómica internacional, o Nuno decidiu arriscar, e pouco tempo depois estava num avião pela primeira vez, rumo à completamente nova realidade de uma estadia prolongada noutro país.

Munido de escasso vocabulário em inglês, pouco mais em português, e nenhum em alemão, o Nuno viu-se pela primeira vez fora de casa dos pais, independente, e livre.

Ao sair pela primeira vez sozinho, deparou-se com a simpatia generalizada das pessoas com quem brevemente trocava palavras. Ao Nuno pouco interessava quem estava, nessa noite, a tocar no Erste Liga (era Tim Sweeney – DFA, Beats in Space). Não era importante saber que era no Die Registratur que o DJ Hell tinha feito os épicos sets de 12 horas nos tempos áureos da sua Gigolo Records. Nem que o Cafe King era uma das “bases de operações” da Gomma Records. Para Nuno, Cucujães, 21 anos, sopa de hormonas, Munique era um sonho tornado realidade.

Uma semana depois de chegar a Munique, o Nuno tinha uma namorada a sério. Claro está que, meses depois, a relação tinha terminado, e o Nuno gozava agora a sua liberdade readquirida.

A única região 100% católica da Alemanha, Munique foi casa para as mais díspares personalidades: Adolf Hitler, Vladimir Lenine, Thomas Mann, o cardeal Ratzinger, Freddie Mercury, Giorgio Moroder e Donna Summer, entre outros. A forte presença da religião católica na conservadora e tradicionalista cultura bávara contrasta, inúmeras vezes, com a tolerância e primazia da liberdade características do povo alemão: nudismo em jardins públicos é permitido, mas é proibido – por lei – utilizar a máquina de lavar aos Domingos, pois o ruído incomoda os vizinhos neste dia sagrado. Munique possui uma das maiores comunidades gay da Alemanha, mas qualquer evento musical é estritamente proibido em feriados religiosos como a Sexta-Feira Santa.

A noite começa depois do trabalho, por volta das 17h. Nos (curtos) meses de Primavera e Verão, as esplanadas e biergartens enchem – tradicionalmente, é permitido e até incentivado que se traga comida de casa, pois o core business aqui é a cerveja. Às 23h todas as esplanadas estão fechadas (a lei assim o dita), e passa-se para os bares. Cafe King, K&K, Favorit Bar, Café Am Hochaus, todos têm uma programação competitiva. As cenas são pequenas e as fronteiras ténues, sentindo-se muitas vezes o efeito “aldeia grande”. É fácil encontrar as mesmas caras do Lido Disco, a residência da Gomma Records no Erste Liga, poucos dias depois, no Rote Sonne, sede não-oficial da Great Stuff. As diferentes correntes estéticas estão marcadas talvez apenas no produto exportado, e não estão contidas em grupos, clubs ou áreas estanques dentro da cidade. Esta dinâmica resulta em colaborações, iniciativas e produtos inusitados.

Neste pequeno grande círculo, o público é informado, exigente, mas não demasiado blasée. Não há arrogância em exagero: a mesma miúda em sapatos Prada que viste no Cafe King ao início da noite pode estar ao teu lado a comer Weisswürst (salsicha de aspecto duvidoso) e a beber uma caneca de cerveja numa qualquer tasca às 7 da manhã, bem antes do meio-dia, como diz a tradição.

De uma forma geral, os alemães são calorosos no primeiro contacto. Numa conversa com alguém desconhecido do sexo oposto, não existe o estigma imediato de segundas intenções, ao contrário do que acontece tantas vezes em Portugal. Estar em Munique por opção acarreta responsabilidades – tais como rendas semelhantes às mais caras capitais europeias – mas, ainda assim, muitos caminhos vêm dar aqui. A economia e o negócio imperam, pelo que é frequente encontrarmos personagens fora do seu meio, à procura de um ocasional fim-de-semana de hedonismo. E conseguem facilmente obtê-lo. O acesso a quantidades absurdas de cerveja e drogas é mais frequente que em Portugal, mas menor que em Berlim – afinal, aqui há pouco minimal.

A Gomma Records é uma instituição na cidade, actuando, em conjunto com a Permanent Vacation, como curadora do reaparecimento do Disco na cidade, nas suas mais contemporâneas manifestações, de há alguns anos para cá. Afinal, foi aqui que Giorgio Moroder conheceu Donna Summer, na altura cantora em musicais, e produziu dezenas de singles que hoje constituem referências obrigatórias para uma legião de novos produtores. A influência deste período, em conjunto com a proximidade com a Toscânia tornam Munique e os seus habitantes mais italianos, mas sempre alemães.

As festas ilegais, residuais quando comparadas com as de Berlim, ocorrem sobretudo nas margens do rio Isar, e no Englischer Garten, gigantesco parque central da cidade. Setas a spray na terra e na relva indicam o caminho. Alguém comprou dezenas de litros de cerveja, alguém obteve um PA, mesa e pratos, discos que não de Trance progressivo, e todos sabem o que fazer ao sinal de polícia. Há, de longe, polícia a mais em Munique, logo, excesso de zelo.

O equilíbrio de uma cidade suficientemente cosmopolita para oferecer cultura e acontecimentos em quantidade saudável, mas que nem por isso sacrifica a ligação com a natureza – os Alpes a uma hora de distância – nem a paz e a segurança absolutas: suficientes para se deixar a bicicleta destrancada à porta do café. Cuidado, não se pode deitar vidro no vidrão ao Domingo: das ist verboten! Mas não há problema algum em apanhar uma bebedeira no comboio, na ida para um qualquer club na cidade.



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