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Norberto Lobo e Marco Alonso no Club Setubalense

“Cheira a guitarradas”. Sábado, 10 de Abril 2010.

Foi assim que alguém antecipou a noite de concertos que estava prestes a se realizar.

Uma organização da Experimentáculo, no Club Setubalense. Clube fundado em 1855, por meia dúzia de filantropos, de pé direito muito alto e um vão de escada sombrio, que fazia imaginar as longas tertúlias e jogatanas de cartas, até às tantas, da então altura do antigamente. Hoje, nesse mesmo local, pratica-se a esgrima, aprende-se a dançar, lê-se o jornal e na televisão passa a SportTV. Lá dentro, no salão, dão-se os últimos retoques no espaço para que se possa iniciar o espectáculo.

Entra em palco Marco Alonso, a solo, guitarrista de flamenco. Este filho da terra, menino pródigo, já há algum tempo que se anda a mostrar e a fazer jus à reputação que tem vindo a criar. De guitarra no colo, melodicamente bem definido e harmonicamente bem estruturado, Marco Alonso vai-se apresentando às cerca de sessenta pessoas presentes na sala. E entre frenéticas divisões rítmicas, afirma um estilo de imponência fresca sem o tradicional peso do flamenco maçudo e aciganado.

Feita a apresentação do primeiro momento da noite, eis que chegam os restantes músicos que o acompanham, Hélder Pereira, na guitarra, alaúde e harmónica, e João Branco na precursão. E de repente a coreografia manuscrita da guitarra ganha cor.

A boa captação acústica fá-los tocar com convicção e certeza. Criando crescentes dinâmicas rítmicas e melodias apetecíveis. Afirmam-se ao longo do concerto, fazendo-nos ver e ouvir que o flamenco não é um estilo, mas uma forma de estar na vida. E voltam a fazê-lo quando tocam «Maestro Lucia».

Por fim, voltam ao palco para tocar o single «Tu aroma, tu sabor», do álbum de estreia com o mesmo nome, e por momentos esquecemos que só estão três músicos em palco.

Feitos os aplausos, as apresentações e uma pequena pausa, a sala volta a compor-se para não perder o cabeça-de-cartaz. Norberto Lobo.

A expectativa sentia-se no ar. Talvez pelos poucos apetrechos disponíveis no palco, uma guitarra, um microfone, uma cadeira e dois ou três pedais de efeitos, era no mínimo curioso imaginar o que é que alguém iria fazer com o modesto aparato técnico.

Quem conhece a música de Norberto Lobo, sabia bem ao que vinha. E vinha por isso mesmo, a música de Norberto Lobo. Esta seria a apresentação do seu segundo álbum, “Pata lenta”, em terras do Sado. E na espera, o público já composto, inquieta-se. O pessoal não pretendia esperar mais, queria a música. E alguém na primeira fila grita: “Norberto!” E depois em plenos pulmões: “Norberto! Vem Norberto!” Breves instantes depois…

Norberto Lobo. Franzino e de imagem simples, ajeita com pormenor a acessibilidade aos recursos técnicos, uma última confirmação na afinação e começa a viagem da guitarra folk dedilhada.

Aos primeiros sons, o público, que até estava já calado e a ouvir, passou a escutar. Com uma afinação diferente da standard, a lembrar os primeiros acordes de «Bron y aur», a guitarra de Norberto Lobo, dedilhada à la Leo Kottke, é de suspiro leve e com a sua técnica de fingerstyle, óptima coordenação, a solo e sem medo, mostra-nos uma música apetecível, simples e que se auto-sustenta.

Enquanto toca, a surpresa mantém-se suspensa e quem escuta depressa se evade mentalmente do espaço e do tempo para deambular em caminhos que vão sendo sugeridos pelas notas que brotam da guitarra pelos movimentos de uma soberba mão direita. De um lado a simplicidade que contagia, do outro a objectividade dos movimentos de valor musical que nos trespassa os sentidos, para depois terminar com um canto melódico que vai construindo com a guitarra, para o apogeu de um coro harmónico possibilitado pelo seu pequeno arsenal técnico.

Agradece, retira-se, mas tem de voltar pois o público gostou e pediu mais. E pediu bem.

De regresso volta a hipnotizar a audiência com mais música e a finalizar o seu concerto, que foi um óptimo espectáculo.

No calor dos aplausos finais, ouve-se o comentário: “É outra alma, outro calor”.

Muito bem dito.



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