Norberto Lobo | “Fornalha”

Norberto Lobo | “Fornalha”

Puro génio

Na capa de “Fornalha” encontramos uma fotografia de António Júlio Duarte, tirada em 1994, no Sri Lanka. Na fotografia, a preto-e-branco, podemos ver um homem que segura um morcego com as asas bem abertas. Enquanto o homem, em segundo plano, fita directamente a câmara, a atenção do morcego prende-se com algo que a câmara não capta.

«Fornalha». A faixa homónima apanha-nos desprevenidos, mesmo em plena curva. Para os menos atentos e incautos até pode parecer que não é uma guitarra o que Norberto Lobo toca, tal é a forma como expande e alarga os horizontes do seu som. «Fornalha», o tema, dá o mote àquilo que “Fornalha”, o álbum, pretende ser. Experimentalismo sem fronteiras, sem qualquer tipo pré-concepção, preconceito ou pudor. Sem regras mas longe de indisciplinado.

«Maryam» não esconde – nem o quer fazer – uma piscadela de olho ao norte do continente africano. Há blues magrebinos, soprados pelos ventos quentes do deserto. A meio, há uma mudança e volta-se à matriz experimental e mais atmosférica/etérea (aqui escolham o adjectivo que, na vossa opinião, melhor se enquadra) que é o fio condutor de “Fornalha”, com as seis cordas da guitarra, sempre levadas aos limites físicos, porque para Norberto Lobo não os há de outro tipo com toda a certeza.

«Fran» faz-nos pensar em bandas sonoras. Começa tensa. A tensão é quase palpável. Depois afrouxa, torna-se mais suave e a melodia vai-nos envolvendo. E mais uma vez Norberto Lobo, munido apenas da sua guitarra, presenteia-nos com uma palete sonora impressionante.

«Pen Ward» é a quarta composição do álbum. É também o nome de um dos desenhadores/criadores/argumentistas mais talentosos da actualidade, e criador de uma série de animação que dá pelo nome de “Adventure Time” (Cartoon Network). Não sei se o título se refere a ele mas é possível estabelecer um paralelo com base na criatividade de ambos. Criatividade nas narrativas que ambos usam. Nas texturas e traços utilizados. Na atenção que dão ao pormenor e ao detalhe.

«Eu Amo» fecha o círculo que “Fornalha” desenha. Mais uma vez o som da guitarra é desconstruído, com uma mui subtil e frágil vocalização que complementa o som das cordas da guitarra de Lobo e confere um precioso equilíbrio.

33 minutos e 56 segundos de música que são pessoais e introspectivos mas que, ao mesmo tempo, estão ali, partilhados connosco. Puro génio.



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