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NOS Alive! 2019 | Dia 2 (12.07.2019)

Naquele que foi o dia com menor afluência de todo o festival, os concertos mantiveram um óptimo nível.

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Podem encontar a reportagem do primeiro dia aqui e do terceiro aqui.

Chegamos ao recinto e a boa notícia é que a chuva vai permanecer afastada da área. São 18h35 e os Perry Farrels’ Kind Heaven Orchestra já actuam no Palco NOS, para apresentar a mais recente aventura do carismático vocalista dos Jane’s Addiction (entre vários outros projectos). A sonoridade oscila entre os ritmos mais dançantes com toques de electrónica, ao rock do Jane’s Addiction, ou não tivéssemos escutado «Jane Says» e «Mountains». Em palco Farrel divide o protagonismo com duas vocalistas/dançarinas que, numa atitude sempre provocadora andam por todo o palco. Uma banda como só L.A. nos poderia dar.

A Austrália é uma caixinha de surpresas, de onde está sempre prestes a surgir o próximo caso de amor entre o artista e o nosso país. E neste dia isso aconteceu por duas vezes(!), ambas no palco Sagres. Começou com Ry X e as suas canções repletas de detalhes e ornamentos, ora introduzidos pelos teclados e programações, ora pela guitarra que Ry X tem quase sempre em punho. Canções sempre dançáveis, que encaixam de forma perfeita num final de tarde de Verão. Segundo o próprio, os Pearl Jam e Jeff Buckley são as suas duas maiores influências mas é este último que mais facilmente vamos vislumbrando nas suas canções.

Marinho é Filipa Marinho. É daqueles nomes que vamos continuar a ouvir falar cada vez mais. Sobe ao coreto, de viola em punho e acompanhada à guitarra eléctrica pelo Pedro. Marinho tem uma facilidade surpreendente de conversar entre canções. Seja porque precisa de afinar a guitarra ou seja simplesmente porque sim. Depois tem um folk simples mas que nos agarra, daquele que nos mergulha numa doce melancolia de final de tarde. Das várias canções apresentadas destaque para «Window Pain», que como a própria contou ao introduzir a canção, conta a história de como partiu a cabeça a jogar à apanhada quando tentava apanhar um rapaz que achava engraçado na altura e antes de perceber que preferia as raparigas. A boa disposição foi sempre a nota dominante ao longo de todo o concerto, ao ponto de apresentar uma nova canção, ainda sem título, e por isso pedir sugestões, e acrescentando que não contássemos com qualquer tipo de pagamento. Para continuar a ouvir.

O concerto de Johnny Marr foi uma celebração e o mais perto que podemos estar actualmente de ver os Smiths. Sim, a probabilidade de um concerto de Morrissey ser agendado e depois cancelado é absurdamente elevada! Toda a postura é tipicamente britânica; de Marr e da banda que o acompanha. Sem demoras lançam-se a «The Tracers» de “Call the Comet”. Quando os primeiros acordes de «Bigmouth Strikes Again» se fazem ouvir no Palco Sagres, instala-se a loucura. Marr tem um carisma incrível e torna-se fácil esquecermo-nos que não é a voz de Morrissey que ali está. Ao longo do concerto haverão mais duas visitas à discografia dos Smiths, primeiro com «How Soon Is Now?» e depois, mesmo a fechar o concerto de forma perfeita, mesmo em alta, «There Is a Light That Never Goes Out» dedicada a nós e a apenas nós ali naquele sítio. Uma honra. Um prazer. Delírio colectivo. Pelo meio houve ainda tempo para visitar o catálogo dos Electronic, projecto que Marr dividiu com Bernard Summer dos New Order, primeiro com «Getting Away With It» e depois ao som de «Get the Message». 

Não conhecia Tash Sultana, confesso. Os fenómenos com origem no You Tube tendem a passar-me ao lado, muitas vezes propositadamente, com muitas reservas à mistura. Por vezes pode não ser justo e o caso de Tash Sultana é um bom exemplo disso mesmo. Felizmente que outros não pensam assim, caso contrário não teria estado aquele incrível mar de gente para assistir à estreia da Australiana em Portugal. Sim este é o segundo caso que já tinha referido anteriormente. Tash Sultana encarna na perfeição a ideia de “one woman band”. A parafernália sobre o palco impressiona. Guitarra, teclados, trompete, os inúmeros pedais que lhe possibilitam manter a impressionante coordenação e equilíbrio em todos os momentos do concerto. O alinhamento apresentado incluiu «Seed», tema que abre “Flow States”, editado em 2018, a que se seguiram canções como «Big Smoke», «Free Mind», «Notion» ou, mesmo antes do encore, «Jungle», recebida em êxtase pelo público. O encore trouxe-nos «Blackbird».

A última visita dos Vampire Weekend ao nosso país tinha sido há seis anos, no Campo Pequeno, durante a tour de promoção a “Modern Vampires of the City”. Muito tempo. A sede para este reencontro era mais do que muita e de parte a parte, atrevo-me a dizer. O arranque acontece ao som de «White Sky» e de «Unbelievers» para deixar toda a gente em polvorosa. «Cape Cod Kwassa Kwassa» leva-nos de volta ao álbum de estreia de um já longínquo ano de 2008. Por momentos, algumas memórias do concerto de estreia dos Vampire Weekend, que ocorreu nesse mesmo ano no Alive! mas no palco secundário de então, passam pela cabeça. «Bambina» e «Sunflower», que arranca com um magnífico diálogo entre guitarras, marca a primeira passagem pelo mais recente “Father of the Bride”, num alinhamento que se pautou pelo equilíbrio no que aos álbuns visitados diz respeito; nenhum ficou esquecido. Em palco os Vampire Weekend demonstrar ser uma máquina muito bem oleada, com as guitarras e o baixo a demonstrarem um entrosamento e cumplicidade fantásticos. Talvez por “Father of the Bride” estar ainda muito fresco, foram as canções dos três álbuns anteriores que realmente incendiaram a plateia. «Run» começa no seu ritmo galopante e nós seguimos atrás “But changing roles, it struck me that the two of us could run”. Mais tarde iríamos escutar «Hanna Hunt» que, segundo Koening está relacionada com «Run» e com direito a dedicatória para a pessoa que nesse mesmo dia a havia pedido no Instagram. Ganhámos todos o dia. «Sympathy» é naturalmente desconcertante, “Let’s go / Sympa”. «This Life» e a contagiante «Harmony Hall» encerram as canções do último álbum. O que se seguiu foi alucinante. Notem só. «Diane Young», com um trocadilho ridiculamente bem sacado. «Cousins», e mentalmente voavam confetis por todo o lado. «A-Punk», que contínua a ser daquelas canções pelas quais os anos passam mas o brilho continua todinho lá. «Campus», que nos coloca de imediato a saltitar de pé em pé a entoar “How am I supposed to pretend / I never want to see you again?”. E «Oxford Comma», que nos deixa descansar o pouco enquanto fechamos os olhos e cantamos em uníssono com Ezra Koening: “Who gives a fuck about an Oxford comma?”, mesmo cá do fundo. Finalmente, antes de fechar o concerto com um retorno a “Modern Vampires of the City, houve ainda tempo para «Jokerman», um cover de Bob Dylan. «Worship You» e «Ya Hey» surgem de seguida e exactamente nesta ordem e casam realmente bem juntas. O regresso dos Vampire Weekend já tem data marcada. Anotem aí: 26 de Novembro, no Coliseu dos Recreios.

A Jamaicana Grace Jones, era agurdada por muitos com muita expectativa. Jones tem uma carreira ímpar, marcada de forma incontornável pelo carisma que emana e é isso que salta imediatamente à vista quando chegamos ao Palco Sagres, já com o concerto a decorrer. Do alinhamento fazem parte vários covers, porém Jones tem a capacidade de pegar nas canções, torná-las suas e como que assumindo uma persona distinta a cada canção, com mudança de visual incluída. «Williams’ Blood» do álbum “Hurricane” de 2008 está a terminar quando nos estamos a instalarmo. Segue-«Amazing Grace», sim essa mesmo que estão a pensar, seguida de «Love Is the Drug» dos Roxy Music de Bryan Ferry. A terminar a actuação, e para regozijo de muitos ali presentes, há «Pull Up to the Bumper» e «Slave to the Rhythm» de “Nightclubbing”, e do disco homónimo respectivamente, obras maiores de Grace Jones editadas ambas na década de 80.

Os Gossip tinham um palco grande mais para eles. Não quer isto dizer que não ofereceram um concerto muito para além de compentente (a voz de Beth Ditto continua fantástica!), mas quer dizer que num palco mais pequeno teria tido potencial para ter sido memorável. Com “Music for Men” no centro do alinhamento acabaram por ser, «Standing in the Way of Control» e «Listen Up!», do álbum “Standing in the Way of Control”, que geraram mais entusiasmo, momentos estes apenas rivalizados pela canção que fechou o concerto (já lá chegamos). Imediatamente antes de «Standing in the Way of Control» se fazer ouvir, e talvez para colocar toda a gente em ponto de rebuçado escutou-se um cover de «Smells Like Teen Spirit». Entre canções houve sempre muita conversa e boa disposição por parte de Beth Ditto, inclusivamente com um dos operadores de câmara no palco para esclarecer algumas dúvidas de português, sem grandes resultados, diga-se. Não foram poucas as vezes em que disse que o seu português era mau. Na recta final escutou-se  «Careless Whisper» de George Michael, seguido de uma passagem por «War Pigs», dos Black Sabath. «Heavy Cross» foi a derradeira canção do concerto. No final, apesar dos muitos sorrisos não deixava de pairar no ar aquela sensação que ficou a faltar algo mais…

 

Texto por Miguel Barba e fotografia por José Eduardo Real.

Podem encontar a reportagem do primeiro dia aqui e do terceiro aqui.



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