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NOS Alive! 2019 | Dia 3 (13.07.2019)

Houve os Idles e depois as restantes bandas.

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Podem encontar a reportagem do primeiro dia aqui e do segundo dia aqui.

Quando chegamos ao recinto os The Gift já tocam há pouco mais de 30 minutos no Palco NOS. O recinto ainda está um pouco despido a esta hora. Na zona estão os fãs da banda de Alcobaça e aqueles que querem assegurar uma boa posição para o que se seguirá. Sobre o palco, e com a energia que a caracteriza, Sónia Tavares canta «Love Without Violines», canção de “Altar”, o primeiro dos dois álbuns que conta com a produção de Brian Eno. Até ao final temos ainda oportunidade de escutar «Music», «Big Fish», «Question of Love» e «The Singles».

Da Austrália chegam-nos os Rolling Blackouts Coastal Fever. No Palco Sagres a receita é rock com pinceladas de punk. Nada de novo, por isso. Batemos o pé, abanamos um pouco a cabeça porque já é automático, e decidimos regressar ao Palco NOS. Os espanhóis Vetusta Morla, não são estreantes no NOS Alive!, e por isso fazem por sentir-se em casa e por conquistar novos fãs. O rock é uma linguagem universal, seja qual for a língua em que cantamos, e a verdade é que nem se saiem de todo mal. Canção após canção vão ganhando mais e mais adesão. É caso para dizer que é um “work in progress”.

O melhor concerto que vimos no Alive! foi dos Idles. Pronto, está dito. Só há um sítio para se ver um concerto com a intensidade que os Idles imprimem (sempre!): junto à grade, bem lá a frente. Alguns minutos antes do início do concerto a ansiedade é palpável. Qualquer movimento em palco pelos elementos da banda que vão ultimando os preparativos é celebrado efusivamente. Quando «Heel/Heal» se faz ouvir, à hora marcada (como sempre!), Lee Kiernan não perde tempo para fazer a primeira investida para tocar guitarra no meio de toda a gente. Deste momento em diante, não paramos mais. Em «Never Fight a Man With a Perm», canção sobre o passado de Joe Talbot, gritamos a plenos pulmões “Concrete and leather”. Já se sua em bica. «Mother» leva-nos de volta a “Brutalism”, de 2017, (tinhamos começado por aí) e vai desde à política até à temática do assédio sexual. Sempre a cortar. Os Idles têm esta capacidade de no meio do caos abordarem e falarem dos temas com uma honestidade e frontalidade que é pouco habitual. E isso torna-os realmente únicos. Saltamos para  «I’m Scum» e, a correr no lugar a palavra de ordem é “I’m scum / I’ll sing at fascists ‘til my head comes off”. «Love Song» é uma bonita canção de amor com um toque de sarcasmo e com referência a Dirty Dancing (“I carried a watermelon”) e pelo meio dá também para Joe Talbot e Mark Bowen cantarem bocados das letras de «Up Where We Belong», «Nothing Compares 2U» e «Never Loved Before» ou «Someone Like You». Foi amor a rodos! Seguiu-se «Divide and Conquer», porque por terras de Sua Majestade, o Serviço Nacional de Saúde, NHS, também tem dado muito que falar. «Danny Nedelko» é e sempre será um hino pró-emigração. Serve, pode e deve ser escutado por todos, em qualquer país mas, naturalmente, encaixa que nem uma luva em Inglaterra. E também nos agradecem por os fazermos sentir-se em casa. O corpo já está um pouco dorido nesta altura mas queremos mais. A sequência final começa com «Samaritans», numa crítica contundente (mais uma) à muita masculinidade tóxica que existe por aí. “The mask of masculinity / Is a mask, a mask that’s wearing me”. Continua ao som de «Benzocaine» e de «Television» desta vez de armas apontadas aos media e aos esterótipos vigentes. “I go outside and I feel free / ‘Cause I smash mirrors and fuck TV”. «Rottweiler» encerra um concerto épico e memorável. Uma canção anti-fascista que não deixa pedra por virar.

Bon Iver está a arrancar com «Blood Bank» quando alcançamos o Palco NOS. Para trás ficaram quatro ou cinco canções mas os Idles retiveram-nos até ao último suspiro. Ainda hoje tenho dificuldade em pronunciar os títulos das canções de “22, a MIllion”. Parece que têm todos rasteira. «29 #Strafford APTS» começa com o som de uma guitarra acústica. Suave e delicada, que a voz de Vernon complementa na perfeição e eis que pelo meio injecta o vocoder, tornando a canção num objecto híbrido. «666 ʇ» e «8 (circle)» seguem uma matriz semlhante. Uma estrutura clássica que depois se reinventa e, sobre o palco, ainda mais porque Justin Vernon não é pessoa de se acomodar muito. «____45_____», assim mesmo com quatro ‘_’ primeiro e cinco ‘_’ depois do 45, é tocada com um instrumento que Justin Vernon criou e está repleta de simbologismos. É simples e intensa ao mesmo tempo. «Heavenly Father», gravada para a banda sonora de “Wish I Was Here” de Zach Braff, foi a maior surpresa num alinhamento que não contou com nenhuma das canções já conhecidas que irão integrar o próximo álbum de originais, com data de lançamento marcada para 30 de Agosto. Depois escutam-se de seguida «Skinny Love», «Creature Fear» e «Holocene». São emoções à flor da pele. Vividas por muitos ali e  de forma intensa. Caiem lágrimas, umas serão de tristeza e outras de alegria. Maravilhosas são as canções que têm este resultado em nós. Três consecutivas não está, de todo, ao alcance de qualquer um. Depois há «Calgary» e segue-se «33 “GOD”» e 33 seria a idade de Cristo quando morreu, um crente dirá. «The Wolves (Act I and II)» é uma sucessão de murros no estômago. É incrível como, ano após ano, esta canção contínua a desarmar qualquer um. É perda, tristeza, sofrimento e dor, condensados numa composição de beleza ímpar. Tudo em pouco mais de cinco minutos. A última canção do concerto é «22 (OVER S∞∞N)» mas se tivesse fechado com a anterior é que teria sido perfeito. Mesmo.

O concerto de Smashing Pumpkins foi exactamente aquilo que seria de esperar da banda de Billie Corgan, que conseguiu reunir quase toda a formação original (excepção feita a D’Arcy): uma celebração das canções que em tempos os tornaram numa das maiores bandas do mundo. A entrada em palco é feita ao som de «Sarabande» de Handel, compositor alemão do século XVII. No palco, ao fundo, estão três figuras gigantescas, que irão complementar o espectáculo dos Pumpkins, com uma parafernália de efeitos. A primeira canção é «Siva» mas é com a seguinte que se dá a primeira explosão. A primeira de quatro visitas a “Mellon Collie and the Infinite Sadness” «Zero».”She’s the one for me / She’s my one and only”. Billie Corgan, James Iha e Jimmy Chamberlain não estavam juntos na mesma sala há 18 anos. Isso mudou quando se juntaram para gravar “Shiny and Oh So Bright, Vol. 1 / LP: No Past. No Future. No Sun.”, em 2018 e de onde pudemos escutar «Solara» e «Knights of Malta». “The world is a vampire” canta Corgan e a reacção do público não se faz esperar. Eis «Bullet With Butterfly Wings» que avança naquele crescendo marcado pela guitarra e a bateria até desaguar em “Despite all my rage, I am still just a rat in a cage”. Seguiram-se «Tiberius» e «G.L.O.W.» num registo algo morno, até «Disarm» de “Siamese Dream”, em todo o seu esplendor. Anos dourados. Para muitos o ponto de inflexão na carreira dos Pumpkins aconteceu algures entre “Adore” e “MACHINA/the machines of God”. Nem de propósito que se fazem ouvir de seguida «The Everlasting Gaze» e «Ava Adore». “It’s you that I adore / You’ll always be my whore / You’ll be the mother to my child / And a child to my heart”. «1979» é uma das grandes canções sobre a adolescência que foram escritas nos anos 90. Ficar na rua até às tantas à conversa, dar uma volta pelo bairo enquanto se fazia porcaria ou simplesmente ficar fechado no quarto virado do avesso fruto de algum desgosto amoroso ou de uma qualquer injustiça cometida pelos nossos pais perante nós. Podíamos ter feito isto ao som desta canção. Identificam-se? À primeira vista o que torna «Tonight, Tonight» logo diferente é aquela entrada com orquestra mas quando nos deixamos levar pela canção o sentimento que sentimos imperar é a esperança. Era assim há 20 anos e foi o mesmo nesta noite ali, no Passeio Marítimo de Algés. Já na recta final houve nova visita a “Siamese Dream” ao som de «Cherub Rock» e depois houve ainda tempo para ouvir «The Aeroplane Flies High (Turns Left, Looks Right)» da edição de 1996 de “The Aeroplane Flies High”. Os encores nesta edição do NOS Alive! foram escassos e com Smashing Pumpkins foi igual. Não fez falta de todo e escutámos o sarcasmo disfarçado de de «Today». No final aplaudimo-nos mutuamente. Missão mais do que cumprida.

Houve ainda tempo para uma visita rápida ao Palco Sagres para espreitar Thom Yorke. Seria quase criminoso não o fazer. Está à pinha como seria de esperar e Yorke enche o palco, com o cabelo comprido, atado atrás e a barba grisalha. Divide-se entre as programações, o computador, a guitarra e aqueles hipnotizantes movimentos sobre o palco, com uma linguagem corporal única. As aventuras a solo de Thom Yorke parecem verdadeiros campos de experimentação e isso é visível ali. Há liberdade criativa para experimentar e explorar e, o melhor de tudo, depois, é poder partilhar isso com quem o quiser ouvir.

Dos Chemical Brothers esperava-se acima de tudo uma coisa. Colocar toda a gente a dançar. Cumpriram-no escrupulosamente; o Passeio Marítimo de Algés foi garantidamente a maior pista de dança das redondezas durante a actuação de Tom Rowlands e Ed Simmons. Mas o espectáculo da dupla londrina vai para além disso, oferecendo uma experiência imersiva de video e luz, que interagem com a música e connosco a todo o momento.

As datas da edição de 2020 do NOS Alive! Já são conhecidas, bem como o primeiro nome. Os Da Weasel estão de volta e vão subir ao Palco NOS, para um concerto único, no dia 11 de Julho de 2011. Até lá!

 

Texto por Miguel Barba e fotografia por José Eduardo Real.

Podem encontar a reportagem do primeiro dia aqui e do segundo dia aqui.



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