NOS Primavera Sound 2015 | Dia #2 (05-06-2015)

NOS Primavera Sound 2015 | Dia #2 (05-06-2015)

O algodão não engana

A Banda do Mar transborda simpatia. Tem dois letristas de enorme qualidade e que transbordam cumplicidade a cada olhar que trocam. É amor e é sempre bom de se ver. As canções vão desfilando quase sempre com o álbum homónimo em pano de fundo com um sol agradável que é contrariado de tempos a tempos por um vento incómodo.

Yasmine Hamdan tinha uma surpresa reservada para si, que não imaginava de todo. Mas lá chegaremos. O palco ATP, onde o concerto da libanesa teve lugar, prima pela diversidade, uma das características dos senhores por detrás da label conhecida como All Tomorrow Parties. A música de Yasmine funde elementos de indie e electrónica com música árabe, o que lhe confere uma sonoridade única. As canções, cantadas em libanês e com uma estrutura circular, em crescendo e sempre com a voz de Yasmine a comandar. Uma surpresa muito agradável.

Giant Sand é Howe Gelb. Mesmo que rodeado de músicos de qualidade inquestionável, é em torno dele que tudo revolve. É um senhor. Um verdadeiro contador de histórias de uma América profunda mas não menos actual. Cada canção encerra em si um conjunto de vivências que o mesmo faz questão de partilhar. O resultado é um concerto intenso e magnífico que nos deixa a salivar por mais, mas há que prosseguir.

Os canadianos Viet Cong têm um som sujo e por vezes as vocalizações de Matt Flegel surgem quase de uma forma visceral e é isso que lhes confere um toque único. O som da guitarra, a forma como a bateria marca um descompasso relativamente aos outros instrumentos, criam uma sensação de incómodo que, em simultâneo, nos mantém ali, com os olhos grudados em palco e com os ouvidos bem abertos a escutar. Depois há também «Continental Shelf», que é uma enorme canção. Uma boa estreia.

O algodão não engana. É assim com José González; sabemos ao que vamos. Embora seja autor de excelentes canções como «Lovestain» ou «Cycling Trivialities», é com os covers que José González acaba, em muitos casos, chegar a um público mais vasto e ali, no palco Super Bock, isso não foi excepção: «Hand On Your Heart», de Kylie Minogue, «Teardrop» dos Massive Attack e «Heartbeats» dos também suecos The Knife foram das canções que arrancaram mais aplausos. Uma actuação simples e segura, tecnicamente perfeita e equilibrada, mesmo que tenham ficado em falta algumas canções de “Veneer” e de “In Our Nature”. Cumpriu aquilo a que se propôs; canções delicadas acompanhadas pela sua voz suave.

Mark Kozelek tem uma capacidade única (eu pelo menos não conheço mais ninguém com igual ou semelhante) de pegar em qualquer texto e moldá-lo como uma letra de uma canção. Até a bula de um medicamento tinha um certo potencial de conseguir tornar-se a letra de uma canção, como tão bem observaram durante o concerto. Os Sun Kill Moon são uma das partes visíveis desse talento. O concerto não desiludiu, antes pelo contrário. Teve episódios caricatos e excelentes momentos, sempre com o mais recente “Benji” no centro da actuação, embora as canções tenham surgido todas elas mais encorpadas, fruto da banda que acompanha Kozelek, onde se incluía uma bateria adicional para o senhor Steve “Sonic Youth” Shelley e Vasco Espinheira dos Blind Zero (sim, esses mesmo!) a acompanhar na «Micheline», ou não fosse a forte afinidade do vocalista dos Sun Kill Moon com Portugal sobejamente conhecida. Talvez por isso não tenha perdido as estribeiras com ninguém durante o concerto e tenha mesmo brincado com isso: “What’s the name of that band bleeding into my set? Just Kidding!!” (eram os Replacements, só para que saibam). Porém, a maior surpresa foi a chamada de Yasmine Hamdan ao palco, numa situação que teve tudo menos de planeado. Em primeiro lugar, Yasmine nem estava perto do palco quando foi chamada por Kozelek, que gritava o nome dela a plenos pulmões. Em segundo lugar a expressão da libanesa era de quase pânico, atravessado por uns tímidos “I don’t speak english!”. Mas se pensam que isso levou Kozelek a desistir da ideia, tirem daí o pensamento. Toma lá uma folhinha com a letra e vamos andar com isto para a frente! E o que andou para a frente foi uma interpretação única de «I Got You Babe» de Sonny and Cher que lá ganhou forma entre alguns “lalalas”, “nananas” e “hums” de Yasmine. Depois escutámos as conquistas e “desconquistas” de Kozelek em «Dogs», a eulogia pessoal que é «Carissa» ou esse hino que dá pelo singelo nome de «Richard Ramirez Died Today of Natural Causes». Foi um daqueles concertos que tão cedo não será esquecido.

O ano passado escrevi algumas linhas sobre os Spoon, onde basicamente dizia que, na minha opinião, eram uma banda muito menosprezada face àquilo que valem. Os Spiritualized serão, por ventura, a versão europeia dos Spoon. Dão tanto e recebem tão pouco de volta. Felizmente ali, no palco ATP, quem os recebeu tratou de contrariar esse cenário com muita entrega. A banda não procura qualquer tipo de protagonismo desmesurado. Aliás, isso reflecte-se na forma como a banda se dispõe em palco, num semi-círculo. Confessem: quando olham para uma banda em palco, o primeiro elemento que procuram (pelo menos 95% das vezes) é o vocalista, não é? Desta forma acreditem que são forçados a olhar para todos e com mais atenção. Depois houve rock servido com a dose certa de psicadelismo, ou não tivesse sido Jason Pierce um dos elementos dos Spacemen 3. Foram grandes!

Antes de escrever sobre o espectáculo de Antony and the Johnsons, acho que é importante realçar toda a situação envolvente. Durante o período em que o espectáculo teve lugar, nenhum outro palco funcionou, muito provavelmente a pedido do próprio Antony. O pedido tem tanto de legítimo, como a organização do NPS tem toda a legitimidade para o aceitar. No entanto, não consigo deixar de pensar que tal também pode ser visto como uma falta de consideração para com alguns milhares de pessoas que estavam num festival que tem como uma das suas premissas a escolha e variedade de opções, com vários eventos a ocorrer em simultâneo. Esta decisão acabou também por ter impacto nos concertos seguintes: Ariel Pink, Jungle e Run the Jewells começaram todos em simultâneo e as escolhas passaram do 8 ao 80. Em palco, a acompanhar Antony estava uma orquestra. Antony é uma figura ímpar e as suas actuações têm sempre uma forte componente teatral, acentuada ainda mais com as imagens de uma peça de teatro japonesa que era projectada no fundo do palco. Mas o grande problema do concerto foi o volume do som, demasiado baixo para possibilitar aos presentes a possibilidade de desfrutar de tudo o que uma orquestra pode acrescentar; apenas quem estava no meio e mais próximo do palco conseguia escutar com o mínimo de condições. Se juntarmos a isto pessoas com pouco interesse temos muito ruído de fundo e uma actuação claramente prejudicada. Um espectáculo que tem tudo para ser brilhante, se apresentado nas condições adequadas, que não são de todo as de um festival. Antony continua a ter uma voz impressionante, um talento único e uma presença imponente mas um concerto como este, num festival, não pode ser apenas para quem está mais perto desfrutar.

Os Run the Jewells entraram ao palco ao som de «We Are the Champions» dos Queen, seguido de um “We’re gonna burn this motherf***ing stage to the ground”. E foi o que fizeram. A multidão estava ao rubro e o duo de MC’s não desiludiu de todo com a língua sempre afiada e a debitar rimas a uma velocidade vertiginosa, e nem o braço ligado de Killer Mike foi obstáculo. «Oh My Darling Don’t Cry», «Close Your Eyes (And Count to Fuck)» ou «Love Again (Akinynele Back)» e a fechar «Angel Dust» foram momentos simplesmente demolidores e que vão ficar com certeza gravados na memória de todos os que decidiram ficar por ali.

Leiam aqui as reportagens dos restantes dias. Dia #1; Dia #3

Reportagens fotográficas: Dia #1; Dia #2; Dia #3



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