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NOS Primavera Sound 2017 (08.06.2017)

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Samuel Úria entoa a sua «Carga de Ombro» na altura em que alcançamos o Palco Super Bock. O concerto aproxima-se já da recta final. Perdeu-se algum tempo às voltas, entre o estacionamento e o tempo despendido para arranjar a indissociável pulseira. Felizmente ainda vamos a tempo de escutar «É Preciso que Eu Diminua». Por esta altura o espaço algo algo exíguo em frente do palco está bem composto. A fechar o concerto surge «Teimoso», que não arranca com a dica de que Úria vai dar numa de José Cid e pedir que o acompanhem e até é caso para se poder cantar… “Eu nunca fui do prog-rock / Sou neo-retro-redneck”.

Os Cigarettes After Sex são daquelas bandas de que é fácil gostar-se. As canções são falsamente simples e depois há a voz andrógina de Greg Gonzalez. É realmente difícil não gostar. Ficamos com a sensação que está só em palco quando canta aquelas canções; é uma aura que o rodeia. Mas também não é menos verdade que estas canções são muito parecidas entre si e isso nem sempre funciona a seu favor. Raras são vezes em que o concerto do fim de tarde não tem a banda ideal. Hoje não é assim. Por esta altura há nuvens no céu. Nuvens que cobrem o Sol e que conferem o tom correcto para a banda e ideal para este momento. No fundo do palco surge um olhar feminino que nos fita e desconcerta, sempre à beira de se desfazer num pranto mas sem que isso nunca aconteça. As canções dos Cigarettes After Sex são um pouco assim, para o bem e para o mal. “My lips your lips apocalypse” cantam a fechar, em «Apocalypse». E é uma bela canção.

Regressamos ao Palco Super Bock. É a vez de Rodrigo Leão & Scott Matthew. As composições do primeiro são ricas e a voz e as letras do segundo elevam-nas. É fácil lembrarmo-nos de outros vocalistas quando escutamos a voz de Matthew. Em momentos diferentes os nomes de Peter Gabriel e Guy Garvey (dos Elbow) passam pela cabeça (elogio!). Em palco há duas secções que têm tanto de pequenas, como de indispensáveis; falamos das cordas e dos metais. O trompete consegue levar as canções em que intervém, mais além. Torna-as grandiosas mas sem exageros; brilham mas não ofuscam. No meio de tanto detalhe e pormenor, é fácil esquecermo-nos de Rodrigo Leão. A presença de Scott Matthew também não ajuda mas a verdade é que ele está omnipresente em tudo o que escutamos. A dada altura Matthew mostra-nos que também arranca um belo falsete. «Move» é apresentada pelo próprio Rodrigo Leão, no seu estilo muito próprio e reservado; a canção, essa, serpenteia em torno dos metais. A dada altura, Scott Matthew “aventura-se” a solo, acompanhado apenas de uma guitarra acústica. Escutamos «Smile», composta originalmente por Charlie Chaplin (sim, esse mesmo!). “Smile though your heart is aching”. Segue-se uma – inesperada – homenagem a Whitney Houston, com «I Wanna Dance With Somebody» e depois, já com a banda novamente em palco ainda conseguimos escutar um tango e ter um cheiro de ritmos balcânicos. Por momentos pensámos que afinal tínhamos ali uma wedding band. Foi um concerto cheio.

Para os mais distraídos, a quantidade de público que aguarda Miguel no Palco NOS, pode ser surpreendente mas não é preciso muito tempo para perceber porquê. E nem mesmo a hora sempre dúbia, que são as 20h, por “levar” sempre muita gente para a zona de refeições se fez notar. “Wildheart”, lançado em 2015, foi a rampa de lançamento e foi também a base do alinhamento apresentado. Embora a sonoridade seja assumidamente R&B, nas canções não deixamos de nos deparar com alguns elementos de electrónica que levam a sonoridade um pouco mais para além deste rótulo genérico, sendo «coffee» um excelente exemplo. Sempre que a situação assim o exige, surgem também umas guitarras assumidamente rock. E esta última característica não se resume às guitarras; até na forma de cantar se nota uma influência rock, e isso é uma mais valia, bem evidente em «waves» que teve direito a ensaio do coro do público antes de começar. A fechar o concerto, num registo de êxtase e apoteose, em especial da parte do público mais perto do palco, esteve «Face the Sun».

É verdade que o nome dos Arab Strap nos remete rapidamente para uns Belle & Sebastian, porém as suas canções tendem para nos fazer lembrar uns Mogwai, embora sem aquela perfeição sónica cirúrgica, até porque nem é isso os Arab Strap procuram proporcionar. Embora a matriz dos escoceses seja vincadamente rock, há muito mais no caldeirão de sons que trazem ao Palco Super Bock. Há pop e há electrónica, há rock e há momentos em que quase que parece que estamos a ser transportados para uma rave à la 90’s. E se alguém disse tudo foi Aidan Moffat, em «Rocket, Take Your Turn»: “We’re grown men, we should be respectable / But to fuck with that, let’s make a spectacle”. E cumpriram.

A entrada dos Run the Jewels em palco é feita ao «We Are the Champions», dos Queen, o que é apropriado pelos mais diversos motivos. A partir daí a casa veio baixo, com direito a mosh pit e tudo. Pendurados no palco estavam dois insufláveis gigantes com a mão em forma de arma e o punho, a imagem de marca dos RTJ. Trump não foi uma única vez mencionado directamente mas não foi por isso que deixou de ser um alvo constante de El-P e Killer Mike, um duo afinado não só artisticamente mas também no que aos ideais políticos diz respeito. É seguro dizer que foram surpreendidos pela plateia que os esperava. Há dois anos tinham estado no Parque da Cidade mas no Palco ATP, onde uma multidão menor mas não menos fiel os recebeu. Desta vez eram mais e estavam todos ali por eles. “Run The Jewels 3”, lançado no final de 2016, teve elevada responsabilidade nisso. Num alinhamento tão rico como aquele que os RTJ apresentaram, é difícil destacar canções em particular mas mesmo assim fica a nota para a sequência final do concerto, mais interventiva e forte na mensagem política e social e também mais emotiva, com Killer Mike a contar que tinha perdido um amigo rapper de Atlanta no dia anterior, vítima de cancro. «Close Your Eyes (And Count to Fuck)» só teria sido mais épica com Zack de la Rocha ali presente. «Lie, Cheat, Steal» foi dedicada a quem o faz mas com a mensagem de que no final não irão ganhar. E «Early», «A Report to the Shareholders» e «Down» garantiram um final intenso. Felizmente houve ainda tempo para um regresso ao palco para entoar «Run the Jewels»… “The goblins were awakened”. Só mais três palavras: concerto da noite!

Os Justice são velhos conhecidos e coube-lhes a eles fechar a noite no Palco NOS. O objectivo era simples: colocar toda a gente a dançar e nesse aspecto pode-se dizer que cumpriram. Porém ao vivo a sensação que fica é que precisam de um pouco mais fibra, caso contrário será “apenas” mais um DJ Set. Por incrível que pareça, no próximo dia 11 de Junho, passam 10 (!) anos sobre o lançamento de †, e «D.A.N.C.E.» continua a ser um hino nas pistas e ao vivo saberá, com toda a certeza, melhor quando não é mais do que apenas um clicar no play, algo com mais corpo e personalidade, quando apresentado ao vivo.

Devem ter reparado no subtítulo, certo. Bom som. É que estava mesmo. Impecável.

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