NPS 2019 07/06/2019

NOS Primavera Sound 2019 | Dia 2 (07-06-2019)

Já sem o fantasma da chuva nas redondezas, avançámos mais cómodos para o Parque da Cidade, embora os impermeáveis ainda constassem dos nossos acessórios.

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E era no palco mais próximo da entrada que se encontrava o espectáculo de Surma, do qual ainda lográmos assistir aos dois últimos temas. Fazendo-se acompanhar de outro músico em palco, além de enriquecer o concerto com a presença de um par de dançarinos, Surma mostrou-se super confiante e com um som com suficiente poderoso para patentear grandes diferenças relativamente às suas primeiras experiências ao vivo.

Aldous Harding era um dos nomes que maior interesse nos suscitava, não só neste dia como no festival inteiro. Com o álbum “Designer” bem fresquinho ainda, foi precisamente com o tema-título do mesmo que a neo-zelandesa abriu a tarde no palco NOS. A característica que mais salta à vista (ou ao ouvido) é a extrema atenção que toda a banda coloca em todos os acordes que interpreta, nota-se que foi tudo estudado ao mais ínfimo pormenor. E é algo que se mantém ao longo de toda a actuação, que apenas pecou por alguma falta de ritmo, especialmente entre canções, dado que não existiu grande comunicação entre Aldous e o seu público. Ainda assim fomos mantendo a concentração para apreciar todo o sumo musical que os temas nos foram proporcionando.

O palco Super Bock permitiu-nos continuar a aproveitar o fim de tarde na relva enquanto Nilüfer Yanya subiu ao palco para exibir o seu indie pop suficientemente criativo para nos ir mantendo entretidos. O seu mais recente registo de estúdio, “Miss Universe” de seu nome, foi editado há escassos meses, pelo que foram essas composições que mais desfilaram na passadeira do NOS Primavera Sound.

Depois da Nova Zelândia, o palco principal do festival continuou a ser dominado nesta tarde pelos nossos antípodas, desta feita pelos riffs da australiana Courtney Barnett. Neste concerto que antecedeu a manga norte-americana da tour, Courtney mostrou uma garra imponente, com uma guitarra que foi estando sempre à sua altura. Foi um concerto mais desarrumado que aquele que vimos no NOS Alive há uns anos, propositadamente desarrumado obviamente, com a veia rockeira da banda a vir à tona. Foram diversos os momentos em que os Nirvana nos passaram pela mente. Sempre risonha, Courtney Barnett aparenta divertir-se tanto ou mais que a audiência que preenchia já razoavelmente a área envolvente.

Apressando o passo até ao palco patrocinado pela estreante (nestas andanças) Pull&Bear, foi possível aproveitar uma boa parcela da portentosa actuação dos Sons of Kemet, que desta feita viajaram até nós em formato XL. Este formato duplicou o número de bateristas em palco (incluindo Moses Boyd, outro dos reluzentes novos valores da efervescente cena jazzística de Londres), fazendo com que fossem quatro as baterias que rodeavam os metais de Shabaka Hutchings e Theon Cross. Na parte a que assistimos foi precisamente a tuba deste último que esteve em destaque, marcando o ritmo com que os presentes iam criativa e liberalmente dançando, dando posteriormente a batuta a um MC que debitou algumas palavras de ordem meio genéricas, dignas de uma qualquer manifestação popular actual.

Devido ao infortúnio que nos privou da vinda de Mura Masa ao Porto, aproveitámos para afogar as mágoas num bom jantar, por entre as diversificadas ementas disponíveis no recinto, até descermos novamente pelo parque à hora de Branko, que veio colmatar uma outra ausência, Kali Uchis. O produtor português não se fez rogado e aproveita da melhor forma a vaga que lhe coube à poucos dias da abertura do NOS Primavera Sound. Num espectáculo que contou com uma vistosa componente visual, contendo imensas imagens capturadas ao longo das filmagens do programa Club Atlas que assinou para a RTP, assistimos a uma colecção de temas que nos obrigam a mexer sem parar, tal e qual toda a moldura humana que resultou na mais vasta que testemunhámos no palco Super Bock. Realce-se que a enérgica presença de Branko em palco em muito terá ajudado a contagiar a multidão, para além dos seus irresistíveis ritmos.

Já assistimos a múltiplos concertos de James Blake, o nome maior do segundo dia do NOS Primavera Sound, mas nunca deixamos de ficar abismados pela forma como a partir da sua poltrona logra controlar toda a atmosfera. E, por falar na poltrona, esta noite fica como a primeira em que o vimos levantar-se para a interpretar um par de canções bem no centro das atenções, durante as quais apenas se ocupou a parte vocal. Especial destaque para «Are You in Love?», num exercício de voz absolutamente imaculado e arrepiante. Durante as partes mais electrónicas do alinhamento, James Blake demonstra um inteiro domínio sobre as diversas vertentes desse género, que faz com que alguns temas nos relembrem musicalmente Massive Attack, enquanto noutros estamos com o pensamento em Nine Inch Nails, por exemplo. Logicamente que não faltaram temas já icónicos como a versão de Feist ou «Downgrade», além do novo hit instantâneo «Barefoot in the Park», que soou lindamente apesar da voz de Rosalía enlatada. Foi um excelente fecho do palco NOS na segunda jornada, fazendo-nos relembrar da qualidade e versatilidade deste britânico, o que por vezes faz falta, para que não nos esqueçamos disso no meio de tanta música nova com que somos bombardeados nos dias que correm.

Texto por Álvaro Graça e fotografia por Maria Inês Graça.

Podem encontrar a reportagem do dia 1 aqui e do dia 3 aqui.



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