NPS 08-06-2019 Jorge Ben Jor

NOS Primavera Sound 2019 | Dia 3 (08-06-2019)

A prestação da banda encabeçada por Adrianne Lenker e Buck Meek terminou em clima familiar, com toda a equipa que acompanha e auxilia os Big Thief na estrada a pisar o palco para uma interpretação curiosa e festiva de «Masterpiece».

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Inciámos o derradeiro e solarengo dia de festival com uma travessia do Parque da Cidade em direcção ao palco NOS, com a missão de observar a prestação dos Hop Along. A multidão presente a esta hora no NOS Primavera Sound era expectavelmente superior à de Sexta (nem vale a pena tentar comparar com o primeiro dia, no qual nem o clima ajudou). O quarteto de Philadelphia fora especialmente elogiado no ano passado, data do lançamento de “Bark Your Head Off, Dog”. Ao vivo a performance soou algo desconchavada, e nunca ficámos totalmente admiradores da voz de Frances Quinlan que, em momentos de maior estridência, pode tornar-se levemente incómoda. Ainda assim, a relva e o sol acabam por catapultar as actuações que assistimos durante esta altura da tarde.

Seguidamente ocorria um dos cruzamentos de horários mais terríveis para nós, com concertos de Lucy Dacus, Tomberlin e Big Thief separados por meros quinze minutos. Optámos inicialmente por Lucy Dacus, por ser quem arrancava mais cedo e, apesar do arranque mais introspectivo e calmo, foi prazenteiro poder finalmente apreciar o trabalho da norte-americana ao vivo (que apenas nos tinha visitado em Paredes de Coura no ano passado). Durante o período em que permanecemos no palco Super Bock, Lucy Dacus brindou-nos com duas das mais recentes criações: a versão para «La Vie En Rose» e «My Mother & I». Ouvimos «I Don’t Wanna Be Funny Anymore» e zarpámos para a ponta oposta onde já pontificavam os Big Thief, tendo, portanto, sacrificado o repertório mais plácido (mas lindíssimo) de Tomberlin, esperando que nos visite em ambiente mais intimista.

Curiosamente, os Big Thief colocaram pouco foco no seu mais recente trabalho “U.F.O.F.”, repescando somente um tema para o alinhamento com que presentearem o festival portuense. A certa altura, enquanto os colegas se preparavam entre afinações e goles refrescantes, houve inclusivamente a hipótese de ver Buck Meek avançar gloriosamente sozinho, interpretando um dos seus próprios temas. Tal e qual Adrianne Lenker, Buck tem uma digna carreira a solo, além do par de discos que ambos editaram em formato duo (“A-sides” e “B-sides”). Como se a beleza emanada pelas composições do quarteto em palco não fosse suficiente, o concerto beneficiou ainda duma luz maravilhosa, mercê de um sol a aprestar-se para o seu ocaso diário. A prestação da banda encabeçada por Adrianne Lenker e Buck Meek terminou em clima familiar, com toda a equipa que acompanha e auxilia os Big Thief na estrada a pisar o palco para uma interpretação curiosa e festiva de «Masterpiece». À imagem doutras bandas, foi o ponto final do troço europeu da actual digressão, numa das actuações mais marcantes do NOS Primavera Sound 2019.

Continuámos no fértil terreno do indie rock cantado no feminino ao visitar o palco Pull&Bear, onde Snail Mail ia tocando o seu bajulado álbum de estreia. Já tínhamos visionado alguns vídeos de Lindsey Jordan ao vivo, normalmente em registo acústico, que denotavam que a dona deste projecto musical tem ainda algumas arestas para limar neste aspecto. E é um facto que nem o facto de ser acompanhada pela banda, nesta ocasião, disfarçou isso mesmo. A voz é praticamente inaudível nos tons mais graves e o som parece sempre algo desgarrado.

Por seu turno, os veteranos Guided By Voices gozaram de uma excelsa qualidade de som no palco Seat, que lhes permitiu assinar um concerto bem oleado e com nota bastante positiva. O registo vocal de Robert Pollard mantém-se intocável ao fim destas décadas, tendo entoado principalmente temas do disco “Zeppelin Over China”, que descolou em Fevereiro último.

Muito foi dito, previa e posteriormente acerca de Rosalía no Primavera, portanto até calha bem não termos muito a dizer sobre o assunto, visto que apenas assistimos aos primeiros dois temas. Aquilo que escutámos foi o que antevíamos: música sobre produzida que abafa por completo os dotes vocais da artista catalã, reduzindo simultaneamente a frescura que a abordagem inicial ao flamenco detinha. 

Kate Tempest era uma prioridade para nós, e outra das razões para termos abandonado Rosalía tão extemporaneamente. Após a sua brilhante passagem por Paredes de Coura há um par de anos, ansiávamos nova chance de revê-la. E, desta feita, obtivemos ainda o jackpot de escutarmos novas composições que apenas foram editadas no álbum da semana passada, “The Book of Traps and Lessons”. Pudemos deliciar-nos com «Fire Smoke», «Holy Elixir» ou «People’s Faces» que, tal como acontece com o novíssimo disco, encerrou o desfile de canções. As suas palavras, sempre certeiras, ecoam ainda mais alto no novo trabalho, até porque em muitas das composições Kate Tempest recita quase a capella. Terá sido das plateias mais atentas e respeitosas que apanhámos nos últimos tempos, que, ainda que reduzida nos primeiros instantes, alargou progressivamente até ao final do espectáculo em frente ao palco Seat.

Regressámos atempadamente ao bonito anfiteatro natural proporcionado pelo palco Pull&Bear para a recta final da performance de Neneh Cherry, que pegando no mítico «7 Seconds» entrou numa fase sonora que nos remeteu para os clubs dos finais de 80’s/início dos 90’s. Foi um concerto parcial bastante activo e que foi recolhendo uma agitação positiva por parte da moldura humana presente.

Foi com trinta minutos de atraso que Erykah Badu encarou a extensa multidão que acorrera ao palco principal do festival para testemunhar a sua segunda passagem por Portugal. Durante este intervalo, tínhamos até rascunhado para este artigo o título “Erykah Baldou-se”, ao temermos que sucedesse novo percalço nesta edição já suficientemente lesada nesse domínio. Felizmente tratou-se de um mero atraso e a figura ímpar do soul entrou em cena, não tardando em pedir desculpa pelo ocorrido. Cedo se percebe o elevado entrosamento entre Erykah e a sua banda, ao longo de um terreno musical irregular, com mudanças e paragens de ritmo constantes. Foi com temas de “But You Caint Use My Phone”, o seu registo discográfico mais recente (2015), que Erykah começou a pregar o Baduizm, usando inteligentemente a faixa «Hello» para nos dar as boas-vindas ao seu show.

No entanto, o tempo de espera arrefeceu-nos e fomos em busca de sonoridades mais fortes para nos revitalizar, e evitar que saíssemos do Parque da Cidade que nem zombies regelados. E foi precisamente aquilo que procurávamos que Yves Tumor nos proporcionou. No seu laboratório detém tubos de ensaio a fumegar soul e rock, e fabrica uma mistura explosiva que faz pandã com a sua personalidade em palco. Yves Tumor interpreta dois temas para cá da barreira de segurança, confessando que nunca se sentiu tão seguro, e acaba mesmo num belo exercício de crowdsurfing, fazendo uso das ondas que a sua potência sonora ia criando. Estreitando ainda mais a sua relação com o público, o artista actualmente a residir em Turim ofereceu diversos posters por si assinados, presumindo que “ninguém iria adquiri-los de qualquer forma”.

Yves Tumor acendeu a chama que nos aqueceu a caminho de casa e que se manterá acesa até à próxima edição do NOS Primavera Sound.

 

Texto por Álvaro Graça e fotografia por Maria Inês Graça.

Podem encontrar a reportagem do dia 1 aqui e a do dia 2 aqui.

 



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