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Nova Iorque Pré-Disco

De 1969 a 1974 antes da consequente massificação do estilo.

Com a revolução dos costumes e com a consequente abertura de espírito em relação às artes, ao sexo ou a modos de estar na vida, que aconteceu na 2ª metade dos anos 60 sobretudo após a eclosão do movimento “hippie” e das lutas pelos direitos civis e da massificação entre a juventude de uma mistura explosiva entre novas utopias, música psicadélica e sexo livre, estavam criadas as condições que seriam basilares para que uma nova forma de estar na vida nocturna se criasse. Ajudaram sobretudo a que certos grupos de pessoas deixassem de ser tão discriminados, como o eram as comunidades gay, negra e latina (e na gay todas as raças se encontravam representadas…).

Um dos acontecimentos mais marcantes para a comunidade gay terão sido os motins de Stonewall, em 1969. Após vários anos de fortes perseguições e humilhações por parte das autoridades policiais, uma rusga no bar Stonewall despoletou a enorme fúria que a comunidade sentia e durante vários dias enfrentou as forças policiais de uma forma bastante dura que assim percebeu que não podia voltar a agir dessa forma. Foi o suficiente para que num curto espaço de tempo, em vez de sentirem medo e vergonha pelo seu modo de estar na vida, sentissem antes orgulho e até a demonstrar uma atitude mais desafiadora perante tudo e todos. E como quase de repente era “legal” poderem dançar uns com os outros, a pouco e pouco foi-se criando um novo movimento alternativo onde quem viesse por bem, fosse de que raça fosse ou fosse qual a orientação sexual que tivesse, era sempre bem vindo e acolhido.

Um dos primeiros sítios onde a comunidade gay festejou a sua recém-adquirida liberdade foi no Sanctuary, cujo DJ era Francis Grasso, que terá sido um dos primeiros a conseguir fazer misturas entre duas músicas, de modo a que a envolvência musical da noite não sofresse interrupções e que quem dançava não parasse nunca de o fazer devido à existência de quebras – é por isto considerado um dos pais do “Djing” moderno.

Numa altura em que o habitual era pôr um disco a tocar e quando esse acabava pôr outro, o que se passava no Sanctuary era bastante revolucionário tendo em conta que o material de som, nesta altura, era do mais rudimentar que havia e que só se tocavam 7”s ou faixas de LPs…estamos a falar de uma época em que não existiam 12”, as músicas não eram “dj friendly” e os gira-discos profissionais Technics só iriam aparecer uns quantos anos depois…A banda sonora era variada…Soul, Funk, Jazz, Latino-Americana, Rock e até alguma música de origem Africana…desde que pusesse a malta a dançar, fosse essencialmente música que fugisse ao que estava nos “tops” e a casa facturasse, tudo era válido.

Semelhante banda-sonora era também ouvida no Loft de David Mancuso. O Loft era uma festa semanal que decorria na casa do próprio Mancuso, onde também se pretendia que toda a gente que lá estivesse estivesse em plena comunhão uns com os outros e com a música que era criteriosamente seleccionada pelo anfitrião. No Loft só se entrava com convite (o que tinha lógica, pois era a casa de Mancuso e consequentemente, ser um espaço limitado), sendo o intuito juntar no mesmo sítio pessoas com quem Mancuso tinha alguma familiaridade e que lá fossem com os mesmos intuitos; quem recebia o convite podia trazer também uma pessoa amiga.

O sistema de som tinha sido mandado construir de propósito pelo próprio Mancuso e ainda hoje muitos falam da excelente qualidade do mesmo (não fosse Mancuso um grande audiófilo), também o sistema de luzes também era considerado muito bom e era usado de uma forma bastante teatral, criando uma grande envolvência entre quem estava a dançar. Quem fosse ao Loft, arriscava-se a encontrar por lá pessoas que seriam importantes para o desenvolvimento da música de dança num futuro bem próximo…nomes como Larry Levan, Frankie Knuckles ou Nicky Siano. Estes três tinham bastante afinidade uns com os outros, e adoravam estar no Loft. Mas já pensavam no futuro em poder terem o seu próprio espaço, e foi no Loft que a pouco e pouco foi surgindo a vontade de criar um novo espaço…

E esse espaço era o Gallery. O mentor e principal DJ era o já referido Nicky Siano, embora fosse muita vez ajudado por Levan e por Knuckles, sobretudo a nível logístico. Como DJ, Siano era um enorme perfeccionista, e treinava bastante os sets, tendo até colocado no Gallery um terceiro gira-discos para poder usar discos com efeitos de som. A banda-sonora do Gallery acabava por não diferir muito da do Loft ou do Sanctuary, mas introduziu uma pequena inovação que era o chamado som de Filadélfia (ou Philly-Sound).

Basicamente o som de Filadélfia era, digamos assim , uma espécie de Funk mais “soulfull”, com “gravata” (como diria Maceo Parker numa qualquer entrevista que vi na televisão há já uns bons anos) e bastante rico em orquestrações, e foi também uma das grandes influências no que futuramente seria chamado de Disco. Quem tiver interesse em saber o que é o som de Filadélfia, é ouvir nomes como Harold Melvin & The Bluenotes, The O`Jays ou as duas compilações da Soul Jazz dedicadas a esse tipo de som para ter uma ideia.

Tendo sido no Gallery que tanto Levan como Knuckles começaram a dar os primeiros passos no Djing, foi quando ambos foram para o Continental Baths (primeiro Levan, e, depois Knuckles) que começaram a aprimorar os seus sets e a deixar quem os ouvia completamente extasiados, tendo decerto sido aí que os seus futuros começaram a ser construídos. O Continental Baths era um sítio que não era exactamente um clube nocturno, pois era um sítio onde, supostamente, se ia tomar um banho público (tal como era habitual na Grécia e na Roma antiga), se bem que o principal intuito era facilitar encontros e sexo entre pessoal com orientação sexual gay. E acabava por ser uma espécie de mundo à parte, pois, para além das salas de banho e das salas com piscina, tinha bares próprios, uma sala de espectáculos, discoteca (onde Levan e Knuckles passavam música), lojas, etc…

Entretanto por esta altura já começavam a aparecer artigos a mencionar a palavra Disco, e começava a haver música que era feita já com o propósito de facilitar um enorme “booty-shaking” na pista de dança. Uns anos depois sairia o filme Saturday Night Fever, e a massificação começaria…Mas no “underground” ninguém estava muito preocupado com designações ou com as implicações de uma eventual massificação. O importante, como sempre foi, era pôr a malta a dançar em alegre comunhão, independentemente do credo, da raça ou da orientação sexual.



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