“Nove histórias” | J.D. Salinger

“Nove histórias” | J.D. Salinger

Laivos de génio em formato de conto

Sobejamente conhecido pelo assombroso livro “À espera no centeio”, uma das mais importantes obras do século XX, J.D. Salinger explorou o formato conto de forma a transpor, para o papel, pessoas, sentimentos ou acontecimentos resultantes de uma imaginação cuja fertilidade bebia alguma da sua irreverência em traços que misturavam a realidade norte-americana do pós-Segunda Grande Guerra e da década de 1950 com outros apontamentos (sur)reais.

Para além da já referida obra-prima, que tem como principal personagem o inesquecível Holden Caulfield, Salinger teve ainda espaço para articular na sua mente peças como “Franny and Zooey” – um conto originalmente publicado em 1955 no “New Yorker” – ou este “Nove Histórias” (Quetzal, 2014) cuja primeira edição remonta ao ano de 1953.

Um pouco como em toda a sua infelizmente curta obra, Salinger explora em “Nove Histórias” duas importantes facetas que transporta e reveste os seus personagens. Falamos da inocência e da hipocrisia, marcas que, numa linguagem literária única, acabam por ser como a soma das diferentes partes das pessoas que são os heróis dos contos deste norte-americano, que chegou a ser apontado como um dos nomes grandes da contracultura da segunda metade do século XX.

Num contíguo espaço de poucas dezenas de páginas, J.D. Salinger leva o leitor para um mundo ética e moralmente complexo, cuja atmosfera deveras ansiosa tem como maior alicerce um humor particular que, em determinados contos, funciona como uma mescla entre filosofia e psicoterapia. A sátira social – pode mesmo falar-se em caricatura – utilizada por Salinger descarna relações sociais, questões políticas ou comportamentos duvidosos e traz à tona dois elementos muito presentes no seu trabalho, como o são a solidão e a ausência de amor.

Das vidas “normais” aos estilos mais burgueses ou intelectuais, “Nove Histórias” explora fraquezas várias de pessoas que são peças do imenso puzzle que é a sociedade moderna, que há muito deixaram cair por terra o “sonho” – seja qual for a sua nacionalidade. E é com uma réstia de esperança que Salinger promove a heróis ocasionais as crianças em detrimento do espetro adulto, composto por criaturas cínicas e egoístas refugiadas em cigarros, álcool ou atitudes que, de certa forma, profanam a inocência dos mais novos.

Personagens como Charles, de “Para Esmé – com amor e sordidez”, o pequeno narrador de “O homem que ri” ou Lionel de “Em baixo no bote” vagueiam entre marés oscilantes de inocência e absurdo, todos eles com uma inata capacidade de esgravatar as várias camadas da perceção que podem desaguar em rios oníricos ou revestidos de alguma “inverdade” que possibilite resguardar-se da agressão adulta sob variadíssimas formas – com destaque para a desilusão, ou apenas ser sinónimo de delicadeza, ternura e alguma traquinice ou de precoce sapiência, especialmente nos casos de Charles no supra citado conto “Para Esmé – com amor e sordidez” e Teddy, do conto homónimo.

Por outro lado, em histórias como “Linda boca e verdes meus olhos” ou “Pai torcido em Connecticut”, são os diálogos que marcam toda a cadência e nem mesmo alguns “vícios” da oralidade colocam em causa a riqueza das conversas mais ou menos, intimas, mais ou menos certas, mais ou menos interessantes. Esses diálogos são também habilmente trabalhados por Salinger de forma a reforçar características dos personagens, que crescem para o leitor através de “gestos” ou tiques que relatam com detalhe a descrição emocional desses homens e mulheres.

Ler contos como o psicanalítico “Um dia ideal para o peixe-banana”, o reflexivo “Pouco antes da guerra com os esquimós”, o surreal “O homem que ri” e o compulsivo e existencialista “A fase azul de De Daumier-Smith é sentir a literatura no máximo de seu esplendor, abraçar personagens que crescem, desmoronam ou implodem no limitado espaço de um conto que pode ser bem mais pertinente, íntegro ou envolvente que livros com centenas de páginas.

Mais que um coleção de contos, “Nove Histórias” é um livro para ler, guardar, reler, recomendar e sentir como nosso. Salinger merece essa homenagem, nós merecemos um escritor assim.



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