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Novos Valores

Newcomers, um termo individualizado nas últimas edições e aprofundado sob a batuta do arranque de mais uma edição da Moda Lisboa. Conheçam alguns dos novos valores nacionais.

No mês em que a capital se veste de novas tendências, procuramos perceber que sangue novo pulsa na moda nacional. Existindo um conjunto sólido de nomes bem conhecidos do público, não falamos na queda de reinados, mas sim no insurgimento de novos talentos que destacam uma geração que poderá ser o ouro dos próximos anos.

A moda nacional sempre espelhou uma dualidade: temos um mercado que se esgota em passos curtos e não temos sequer a tradição de vestir português, como se algo de desprestigiante enublasse as peças assinadas por cá. Por isto, também não nos pareceria estranho que os mesmos nomes se fossem repetindo ano após ano e que, no incremento de eventos ligados à área, surgissem destacados os mesmos criadores que lançaram bases e potenciaram o solo para que hoje se falasse de moda com etiqueta de cá. Falamos claramente de nomes como os de Ana Salazar, Fátima Lopes, Miguel Vieira, Nuno Gama, Alves & Gonçalves, etc. Uma geração que elevou, sim, o patamar… com os olhos postos lá fora e indo bem mais além do histórico do sector têxtil e industrial a que se resumia o património da moda portuguesa.

Como que um boom que permitiu o desenvolvimento de todo um sector e a consolidação de criadores, a moda nacional faz-se aguardar por um refresh. Criaram-se concursos de criatividade anuais – como o Jovens Criadores, Acrobatic e o extinto Sangue Novo – e o premiar de talentos através de criação de marcas próprias, estágios em ateliers nacionais e internacionais, como se necessidade houvesse de gerar novos benjamins, para dizer que a moda está viva e de boa saúde. Foram criadas plataformas e com elas surte a necessidade de reconhecer como resultado uma nova “selecção nacional”, que catalize outros voos. E eles vão chegando.

Impulsionados de formas distintas e com uma presença que se faz notar sobretudo pelo brilhantismo reconhecido lá fora, recolhemos opiniões e destacamos criadores que palmilham  sob o rótulo Newcomers

Ana Borges, fundadora da Elite em Portugal e actual Assessora Estratégica, reflecte sobre o aparecimento de uma nova vaga de criadores considerando que “um novo talento no mundo do design de moda afirma-se pela originalidade, sendo crucial encontrar-se algo de novo nas propostas. Mas não há regras na criatividade que pode tanto primar pela sobriedade como pela excentricidade, a depuração versus opulência e os exemplos reais bem o demonstram.”

E esses exemplos podem ser bem personificados nos designers destacados na nossa última edição, sendo Ricardo Andrez e O Filho Bastardo newcomers que trazem um cunho de inovação desalinhada e cuja excentricidade q.b. vem provocando reacções por cá, mas também no mercado estrangeiro.

Mas a chegada destes não vem facilitada apenas pela criatividade, como carimbo passível de cobrir e integrar o mercado. Ana Borges faz o elogio do empreendedorismo desta nova geração assumindo que, sem dúvida, “ser artista está na moda”, mas que também “qualquer artista para além de conhecimentos técnicos precisa de uma enorme dose de paixão e muita preserverança, pois diga-se que tudo depende de uma bagagem financeira, visto a apresentação de uma colecção ter custos avultados.”

João Pedro Filipe, newcomer, aborda a sua chegada ao mercado sob o prisma dessa mesma dificuldade. Criar uma colecção ou sustentar uma marca em nome próprio é um desafio que não pode ser suportado por todos. Logo o passo, como foi o seu, pode dar-se por apresentar propostas em nome individual nas mostras e certames existentes – tanto dentro como fora do país -, passando também pela integração no mercado através da presença directa na Indústria, em ateliers e marcas que se reservem ao papel de acolher estes talentos e passarem-lhes know-how em troca de criatividade fresca.

A experiência no estrangeiro, como evoca no seu caso em Paris, deu-lhe boa bagagem e reforço da convicção de que a marca própria ficará para depois. Mas não deixa, por isso, de elogiar e reconhecer o trabalho empreendedor e contínuo que tem vindo a assistir por parte de colegas como Filipe Trindade e Cristina Miguel – fortemente evidenciados como jovens criadores no Portugal Fashion 2007 e desde então creditados pela sua forte presença fora de portas; Ricardo Dourado – que recentemente criou a sua própria empresa têxtil, a  Lcd-inov.eDesign, assumindo a direcção de criatividade; e Lara Torres.

Esta última é igualmente designer de destaque do gabinete de imprensa da associação Moda Lisboa, enquanto newcomer. Lara Torres, enquanto presença e rebento deste certame, teve na experiência de estágio em Londres, no atelier do designer Alexander McQueen, uma forma de potenciar o seu trabalho, que rapidamente, da plataforma LAB da ModaLisboa, saltou para a Bread & Butter Barcelona.

Com todo este movimento e corrente de ar que se faz sentir, quando pensamos e nos vamos apaixonando por este punhado de novos descobridores, é fácil perguntarmo-nos se há espaço para o surgimento de novos talentos no mercado da moda. Ana Borges vê o futuro sob uma perspectiva positiva, a de já não existir o mercado nacional e internacional: “a maravilha dos tempos de hoje é vivermos no mundo global, e quem quer que se apresente ao mercado, ou trabalha para o mundo ou não tem lugar ao sol.”

E a verdade é que esta nova fornada de criadores trabalha e integra-se no mundo. Estão a percorrer caminhos cada vez mais expansivos, como quem prepara novos alicerces para segurar o futuro da moda em Portugal.

São, pois, novos valores que não implicam – de todo – imaturidade ou diabrura de tesoura em punho, mas acima de tudo força para furar o mercado dos estabelecidos, com o devido reconhecimento e mérito. Ainda não há nem “Rei morto” nem “Rei posto”, mas sem dúvida que se inicia um redescobrir do design de moda e das suas ferramentas de expressão.



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