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Actores no fio da navalha

"Num dia igual aos outros", Sala Estúdio do Teatro D. Maria II.

O encenador Marco Martins e os actores Nuno Lopes e Gonçalo Waddington juntaram-se para a primeira apresentação em Portugal de uma peça do dramaturgo americano John Kolvenbach, que nos traz o encontro de dois irmãos há muito separados. Em cena até 18 de Abril, na Sala Estúdio do Teatro D. Maria II.

Mesmo que posteriormente Kolvenbach se tenha revelado um autor mais inclinado para a comédia, “Num dia igual aos outros” é um drama de grande tensão e mesmo violência. Foi também a força dramática desta história que fascinou Marco Martins, quando há alguns anos viu a peça em Londres. Ele, que é encenador e realizador, já tinha incluído um excerto do texto na sua primeira longa metragem Alice, o que, escreve, “de certa forma só me aguçou mais a vontade de fazer este texto na íntegra”. É a sua segunda encenação teatral, num percurso artístico especialmente dedicado ao cinema (estagiou com Wim Wenders, Manoel de Oliveira, Bertrand Tavernier, João Canijo, Pedro Costa e João César Monteiro, e escreveu e realizou uma curta com Tonino Guerra), de onde se destaca Alice, de 2005, que para além de ter tido vários prémios em festivais internacionais, foi também o primeiro filme português nomeado para os Óscares.

“Queres ouvir uma história mesmo verdadeira?”

Talvez seja melhor começarmos pelo enredo, por uma possível sinopse: dois irmãos, Bob (Nuno Lopes) e Jack (Gonçalo Waddington), cujo pai tinha misteriosamente desaparecido e que foram separados bruscamente na adolescência, reencontram-se após 15 anos. É Jack que procura Bob, nas vésperas de um julgamento em que este iria participar por causa do seu envolvimento na morte de um camionista que lhe dera boleia. Bob alimentara durante anos uma versão do desaparecimento do pai que lhe fora contada por Jack. Este, para proteger o irmão mais novo, inventara tudo, o nome, a profissão do pai, as circunstâncias do seu súbito desaparecimento. A certa altura, Jack pergunta a Bob se quer “ouvir uma história mesmo verdadeira”. E começa a contar o que realmente aconteceu naquela tarde de chuva, no fim da escola. Os miúdos estão dentro de casa e vêem o carro do pai, de regresso a casa. Ele fica uma eternidade dentro do carro, sem coragem para entrar. Depois desaparece. Foi-se embora num dia como os outros. A morte, a ideia da morte, entra abruptamente na história: Jack traz uma arma. Bob começa por pensar que o irmão o veio matar. Não, a arma é para o próprio Jack, que pensa em matar-se, para acabar com a maldição do pai ausente, que o persegue ao ponto de temer vir a fazer o mesmo aos seus filhos. Bob consegue influenciar o irmão: “Volta para casa. Isso é que é ser o mais diferente dele que tu consegues ser”. Este intenso ‘psicodrama’ familiar, como todas as tempestades, termina quase com um sussurro.

O mapa psicológico das personagens

Para além da dissonância sobre a versão que cada um tem daquilo que foi a história traumática do desaparecimento do pai, o que mais tensiona o encontro dos dois irmãos é o modo como a complexidade das diferenças das suas personalidades dificulta a comunicação que estabelecem. Para tentar perceber isso, Marco Martins encetou um longo processo de conversas por e-mail com o autor, do qual resultou, aliás, uma entrevista (são dela os excertos seguintes).

Diz Kolvenbach sobre Jack e Bob: “Se o Robert é um bocado fora, um bocado temperamental, essas características terão sido marcadas durante os anos em que esteve sozinho a falar para as paredes. Educou-se sozinho. Mas não é educado no sentido lato. Defende teorias não verificadas, usa palavras erradas, emprega mal as frases, tudo isto porque não se sociabilizou. O Jack é distante, controlado, então o seu casamento, a sua tentativa falhada de se reconciliar com a vida, fizeram com que essas características se tornassem mais pronunciadas”.

Para a criação das personagens o autor não utiliza, pelo menos directamente, a pesquisa ou a observação da realidade. A sua estratégia passa por trabalhar as personagens até à exaustão, escrevendo muitas falas que depois não usa na peça, tentando “desenvolver a voz de cada personagem até ouvir a de cada um na minha cabeça. É assim que faço com que elas apareçam e depois deixo-as ser quem são. Nenhuma delas é baseada em pessoas reais. Espero que cada uma delas tenha sido construída com base num desejo específico. E não faço pesquisa, gosto de imaginar as peças”.

Kolvenbach, que também encena, escreve, reescreve constantemente, a partir de certa altura – depois de ter feito alguns rascunhos – envolve os actores e o próprio público no processo de criação: “Enceno centenas de vezes na minha cabeça enquanto vou escrevendo e rescrevendo, e aí peço aos actores para lerem. Depois volto a escrever novamente e então por último, com o público presente, encontro os ritmos e melodia. Penso que o ritmo nasce das personagens, daquilo que elas procuram e o quão o desejam profundamente. O resto, eu diria que vem do instinto. Continuo a trabalhar até soar bem”. Para ele, a experiência do teatro deve ser próxima da aventura e para isso quer que os actores se sintam ‘no fio da navalha’.

Uma peça em tempo real

Uma das singularidades da peça é a concentração do tempo ficcional, criando a ilusão de que se trata do tempo que realmente se passa entre o começo e o fim da peça. Aliás, essa foi uma outra característica que seduziu Marco Martins: “Interessou-me ser uma peça em tempo real, em que podemos descobrir toda a psicologia das personagens em cena… é como se ela estivesse a construir-se à nossa frente”.

O seu projecto de encenação veio subordinar-se a essa condição do texto e todos eles, encenador e actores que inicialmente participaram na tradução do texto, assumem que o texto é exactamente o original, sem tirar uma vírgula. Reforça Marco Martins: “Acho que isto tem a ver com a escrita dele, muito rítmica, em que as pausas e os tempos estão marcados… É um texto em que ele experimenta muito com os actores… É por isso difícil reestruturar o texto, colocar pausas onde elas não existem, ou tirar uma cena… há uma série de informação que vai sendo veiculada e que torna difícil o corte”.

A forma como os actores foram dirigidos também tende a sublinhar essa dimensão rítmica. Os actores recriam a convenção de uma teatralidade assente em movimentos, em gestos, em silêncios muito próximos da linguagem hiper-realista, prepararam-se com Sérgio Grilo (actor duplo) para as cenas de luta em que quase destroem a cozinha, apostaram muito nessa capacidade de recriarem a linha do tempo. Diz Nuno Lopes: “Já fizémos muitos corridos integrais, para ter o controlo do espectáculo. Andámos as últimas três semanas a fazer isso. É como se fosse um trabalho de montagem em directo».

Marco Martins pega na ideia, assumindo que a peça é feita quase num plano único: “O trabalho de actores foi a coisa mais complexa que eu fiz. O texto é muito duro e essa ideia de que as personagens se constroem ao longo da peça, faz com que seja muito difícil dizer ao Nuno ou ao Gonçalo ‘vamos ensaiar hoje o último monólogo’. É inútil. Podemos fazer isso, podemos falar, mas é preciso o tempo da representação, a duração, a construção, as personagens são muito orgânicas…”. É um “trabalho no fio da navalha”, como assinalou John Kolvenbach.

Trio de cumplicidades, admiração e confiança

Marco Martins, Gonçalo Waddington e Nuno Lopes, que já trabalharam juntos em “Que faremos quando o inverno chegar?”, de José Luís Peixoto, têm já, cada um deles, uma experiência muito significativa em teatro e cinema. Para o encenador, o clima de admiração e proximidade que reciprocamente nutrem uns pelos outros, é condição essencial para um projecto desta natureza: “É uma peça que exige grande cumplicidade, grande confiança, porque implica um esforço e uma entrega diária muito grandes. Era impossível fazer esta peça de outra maneira”.

O envolvimento dos três no processo de produção é outra das características. Começou pelos encontros de tradução que – é Gonçalo Waddington que o lembra – “são já encontros dramatúrgicos, ou seja, já tínhamos as nossas discussões e quando chegávamos aos ensaios já nos apropriávamos muito mais facilmente do texto. Depois há o jogo rítmico. É quase sempre um jogo de ténis entre duas personagens. E ao longo da tradução íamos testando estes ritmos”. Curiosa foi também a distribuição de papéis. Começaram por trocar de personagens todos os dias, mas depois o Nuno Lopes partiu um pé e isso acabou por o vincular à personagem de Bob.

E se no princípio tinha sido Marco Martins a confessar que tinha sido seduzido pelo facto de “Num dia igual aos outros” ser um drama familiar em flash-back em torno da ausência, a ausência de afecto em geral (Kolvenbach refere mesmo que a ausência de referências à mãe tem como finalidade retirar a dimensão de abrigo a estas personagens), já no final foi Nuno Lopes quem resumiu a inscrição de todos eles no imaginário deste drama: “Há uma coisa que nos une aos três: temos um lado cinematográfico muito parecido. E uma das coisas que nos atrai é o cinema americano dos anos 70, e esse cinema tem estes temas: a solidão, a ausência, a família, e é algo que nos interessa a nós, que temos em comum”.

NUM DIA IGUAL AOS OUTROS
11 Mar. a 18 Abr. 4ª a Sáb. 21h45 Dom. 16h15
Sala Estúdio
De JOHN KOLVENBACH
Tradução GONÇALO WADDINGTON, MARCO MARTINS, MIGUEL CASTRO CALDAS e NUNO
LOPES
Encenação MARCO MARTINS
Assistente de encenação VANESSA PATRÍCIO
Cenografia ARTUR PINHEIRO
Figurinos ISABEL CARMONA
Desenho de luz NUNO MEIRA
Coreografia de luta SÉRGIO GRILO
Com GONÇALO WADDINGTON e NUNO LOPES
Direcção de cena ANDRÉ PATO / PEDRO LEITE
Operação de luz DANIEL VARELA
Operação de som ANTÓNIO VENÂNCIO
Produção TNDM II
M/16
Duração 1H20

CONVERSA COM ARTISTAS

11 Abr. (após o espectáculo) – ENTRADA LIVRE
Uma conversa com o elenco de “Num dia igual aos outros”, sobre os processos de criação e construção da obra.



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