“O Albatroz” | Teresa Lopes Vieira
Bonnie & Clyde não moram aqui
Seja no cinema, na literatura ou na vida real, deparamo-nos com personagens que, por maior ou redenção que possam vir a conhecer no seu percurso, são tidos como irreparáveis ou condenados a uma existência miserável. Em “O Albatroz”, o terceiro romance de Teresa Lopes Vieira, somos apresentados a um desses seres a quem, logo nas primeiras páginas, antecipamos um futuro trágico: Jesus, um comediante desempregado que, após a morte do pai – com quem não falava há vários anos -, se refugia na casa deste, incapaz de a abandonar como se esta tivesse vida própria.
A história vai sendo intercalada com fragmentos de dois diários, que vão construindo uma ponte familiar entre o presente e o passado: o da irmã Liberdade – que lentamente vai também fazendo da antiga casa do pai o seu poiso principal – e o do pai -que, ao longo dos anos, foi alimentando um estranho segredo. Há também outras personagens que ajudam a compor um ramalhete de estranheza: Rebeca, a ex-namorada de Jesus, que o trocou por um amigo seu; Matilde, uma rapariga que entrega pizzas, muito dada à promiscuidade; Marco, adepto da violência doméstica, de quem Liberdade pretende fugir a sete pés; um amigo imaginário de Jesus, uma espécie de espelho não invertido.
Apesar de ter matéria-prima para criar um arriscado romance entre o thriller e o drama, “O Albatroz” acaba por cair no um pouco ideário do lugar-comum, acrescentando-lhe um toque de sexo desenfreado e de violência mórbida que o aproximam de qualquer coisa como uma telenovela rodada num bairro social. Chegou-se a pensar num Bonnie & Clyde mas, o mais perto a que se disso se chegou, foi um “Duarte e Companhia”.
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